“A arrogância sempre tropeça no detalhe.” Albert Camus
Pedro duvidava que, em um lugar tão lotado, alguém ousasse tentar qualquer coisa. Ainda assim, mantinha-se cem por cento alerta. O olhar varria o pavilhão sem descanso. Mais cedo, notara Cássio observando a uma curta distância, mal disfarçando o interesse nítido e desaparecendo com o amigo pouco tempo depois.
Para Pedro, apesar de achar o empresário um grande idiota, não acreditava que ele fosse capaz de algo realmente extremo. Parecia mais um homem corroído pelo arrependimento do que movido por impulso violento. Quase patético, se fosse honesto consigo mesmo. Ainda assim, homens com o ego ferido costumavam ser imprevisíveis. Perder nunca lhes assentava bem.
Helena, por sua vez, parecia em paz. À vontade naquele espaço que ajudara a construir. Conversava com todos que se aproximavam — e não eram poucos. Dava entrevistas, posava para fotos com a equipe, conduzia visitas pelo estande com naturalidade.
Estava feliz por ela.
Diferente de feiras mais populares, a Haus Decor Show atraía um público majoritariamente profissional. Arquitetos, designers, lojistas — pessoas que, em sua maioria, vestiam-se de maneira mais formal, adequada ao ambiente e ao calor do dia. Justamente por isso, algo destoou na multidão e chamou a atenção de Pedro.
Um homem grande, de moletom e boné, parado por tempo demais. A roupa não condizia com a temperatura, nem com o lugar. Ele parecia observar o estande, mas, da posição em que Pedro estava, não conseguia ver seu rosto.
Deu alguns passos laterais, buscando um ângulo melhor sem se afastar de Helena. Outras pessoas se interpuseram no caminho, encobrindo o homem e aumentando a sensação de incômodo. Não era apenas a aparência — era a postura. Havia nele um cuidado excessivo, como alguém que fazia questão de não ser notado.
Então o sujeito se virou e começou a se afastar. Pedro conseguiu captar apenas um fragmento do queixo, nada suficiente para reconhecimento. Ainda assim, o alerta não se dissolveu.
Helena percebeu a tensão no corpo do segurança.
— Ei… está tudo bem? — perguntou, baixinho.
Pedro ainda mantinha o olhar fixo na direção por onde o homem havia desaparecido.
— Está sim — respondeu, por fim, voltando a atenção para ela. — Só rotina.
— Que tal irmos até a praça de alimentação comer alguma coisa? — sugeriu.
Ele assentiu, e seguiram juntos pelo corredor principal.
Helena caminhava respondendo uma mensagem de Santiago, distraída com o celular na mão, quando Viviane surgiu no sentido oposto. Ela não a viu — mas Pedro sim. Viu o olhar rápido, o cálculo breve, o movimento sutil demais para ser acidental.
Viviane avançou e, no último instante, esticou o pé, posicionando-o de forma precisa para que Helena tropeçasse.
Pedro reagiu antes que o gesto se completasse.
Deu um passo à frente e pisou com firmeza sobre os dedos expostos da sandália dela, sem aliviar o peso. O movimento foi seco e eficiente.
Viviane soltou um grito agudo, o rosto se contraindo entre dor e surpresa. O som destoou do burburinho controlado da feira.
Pedro reprimiu o riso que quase escapou. Aquela garota conseguia ser ainda mais patética do que o irmão. Assumiu rapidamente uma expressão de culpa ensaiada e disse, num tom exageradamente educado:
— Oh, me desculpe… que desastrado eu sou.
Quem diria que o segurança sempre tão sério também dominava o cinismo.
— Você… — Viviane começou, o rosto já vermelho de raiva, sem conseguir completar a frase.
O grito finalmente chamara a atenção de Helena, que se virou para os dois sem entender o que estava acontecendo. Ainda assim, a expressão deliberadamente debochada de Pedro despertou nela uma vontade súbita de rir.
Só de ver a ex-cunhada ali, sentiu o apetite quase minguar — quase. Antes, Viviane lhe pareceria apenas mimada e irritante; depois do episódio no evento da revista, ficara claro que era tão escrota quanto o irmão.
Helena estreitou os olhos e deu alguns passos na direção dela.
Viviane, com a memória ainda recente dos t***s que recebera, recuou de imediato, quase tropeçando no próprio salto.
— O que aconteceu aqui? — Helena perguntou, calma demais para quem claramente não estava disposta a engolir provocação.
— Tá me olhando por quê? — Viviane disparou. — Foi esse brutamontes aí que pisou no meu pé!



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