“O perigo não está no ódio, mas na certeza. Nada é mais violento do que quem acredita não ter outra saída.” Albert Camus
Silvia observava a paisagem pela janela do carro sem realmente enxergar nada. Estava tensa demais para absorver o que passava diante dos olhos. O motorista ainda tentou puxar conversa, comentou algo sobre o trânsito, mas foi silenciado por um olhar seco, de reprimenda. Ela não tinha espaço para trivialidades.
Não soube dizer quanto tempo se passou até que a paisagem começou a mudar.
Primeiro, veio uma sensação difusa. Depois, o reconhecimento. A entrada do bairro. A pracinha onde brincara quando criança. A antiga padaria — ainda de pé, embora cercada agora por prédios que não faziam parte de suas lembranças. Tudo parecia ligeiramente deslocado, como uma fotografia antiga mal restaurada.
O carro reduziu a velocidade e parou.
Silvia ergueu o olhar e sentiu o estômago se contrair. À sua frente, a casa baixa de paredes amarelo bege desbotado. A pintura descascava em vários pontos, revelando camadas antigas por baixo, como se o tempo tivesse desistido de escondê-las. Aquela fachada guardava mais do que lembranças — guardava versões de si mesma que ela fingira ter enterrado.
Estendeu algumas notas ao motorista e respirou fundo antes de abrir a porta.
Silvia parou diante do muro baixo, ainda chapiscado, como se o tempo tivesse se recusado a avançar ali. Fora para pagar as hipotecas daquela casa que vendera a própria alma a Dante. Cada escolha errada, cada concessão, carregava aquele endereço como justificativa.
Depois de tudo, conseguira comprá-la de volta.
Não para morar. Não para usufruir. Mas como um troféu silencioso. Uma prova íntima de que vencera. De que nem tudo fora em vão. De que, mesmo sem jamais voltar a pisar ali, ainda podia dizer a si mesma que tinha conseguido.
E agora, ali estava ela.
Era inútil protelar mais. Silvia empurrou o pequeno portão e subiu os degraus de cimento, cobertos por uma película verde de musgo. A casa parecia resistir à presença dela.
Esquecera de entregar a chave a Márcio — mas sabia que isso não o impediria. Ele provavelmente encontrara um jeito de entrar. A porta, antes pintada num tom profundo de vinho, agora parecia embaçada, esbranquiçada, como se o tempo tivesse depositado sobre ela uma película de desgaste, apagando a cor junto com a dignidade.
As chaves estavam no fundo da bolsa. Sempre estiveram. Não sabia explicar por quê, mas nunca as deixara para trás. Talvez, em algum lugar íntimo e inconveniente, soubesse que aquele retorno era apenas uma questão de tempo.
O metal girou na fechadura com um estalo seco.
A porta rangeu ao ser empurrada e, no instante em que deu o primeiro passo para dentro, o impacto das lembranças a atingiu como um golpe.
O pai caído sobre a mesinha de centro, bêbado como um porco. As garrafas vazias espalhadas pelo chão, o cheiro ácido do álcool impregnando tudo. O sofrimento longo, arrastado, antes de ele finalmente se entregar por completo ao vício — como quem desiste de lutar e escolhe afundar.
A mãe doente, sentada no sofá, os dedos frágeis deslizando por seus cabelos enquanto Silvia repousava a cabeça em seu colo. Dizia palavras bonitas, doces demais para aquela vida. Promessas de calma, de futuro, de que tudo ficaria bem — frases que nunca encontraram lugar real dentro dela.
E, misturada a tudo isso, a lembrança ainda mais antiga: a mãe saudável, enchendo a mesa com seus melhores pratos, a casa cheia de risadas, de vozes, de uma alegria que agora parecia quase inventada.
Tudo aquilo soava distante demais. Como se tivesse pertencido a outra vida. Àquela outra Silvia.
No presente, a casa estava morta. Morta e recoberta por uma camada espessa de poeira.
Márcio não estava na sala. Mas havia um som baixo vindo da cozinha.
Silvia seguiu o ruído e parou no batente da porta. O encontrou de costas, diante da pia descascando uma laranja. A fruta provavelmente viera da velha árvore do quintal.
Por um instante, ela o observou em silêncio.
A cena parecia banal demais para o que carregavam entre eles.
Márcio já havia percebido a chegada dela, mas não se virou. Continuou a descascar a laranja com calma, demorando-se no gesto como se o tempo tivesse perdido a urgência. Já comera várias desde que chegara — era a primeira coisa que conseguia engolir depois de tantos dias na estrada.
Ele não tinha pressa.
Ela, sim.
— Então… — a voz de Silvia cortou o silêncio. — O que aconteceu pra você precisar voltar?
Márcio terminou de separar um dos gomos antes de responder.
— Minha cara espalhada em tudo quanto é lugar. A polícia batendo na pensão onde eu estava. O pessoal do Dante me procurando também. — Deu de ombros. — Você escolhe o motivo.
Ela engoliu em seco. Ele não parecia cansado, nem acuado. Havia algo novo em sua postura — uma rigidez calma, quase definitiva, como quem já atravessara o inferno.
— E você não podia ter saído do país? — perguntou. — O dinheiro que eu te dei era suficiente pra isso.
— E você? — Ele finalmente levantou o olhar. — Não ia se juntar a mim depois?
Silvia tentou disfarçar o incômodo. Era como se ele conseguisse lê-la agora, sem esforço.
— Claro que ia. — Suavizou o tom. — Não importava onde você estivesse.
Márcio apoiou-se na pia, observando-a como quem assiste à mesma novela pela enésima vez, já sabendo cada fala.
— Ia, sim… — disse, sem ironia explícita. — Assim como respondeu aos e-mails que te mandei?
— Eu queria — apressou-se ela. — Mas aconteceu tanta coisa… você não sabe… eu pensei em você todos esses dias—
— Para. — A interrupção veio limpa, sem elevar a voz. — Não faz isso.
Ela franziu a testa.
— Fazer o quê?
Silvia inclinou a cabeça, impaciente.
— Não seja ridículo. Ele não é seu — disse, enfim. — Nunca foi.
As palavras caíram limpas, sem hesitação. Como quem descarta um objeto quebrado.
Márcio fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, não havia mais nada ali além de uma calma estranha.
— Obrigado — disse. — Eu precisava ouvir isso.
Ela pareceu confusa por um instante.
— Obrigado… pelo quê?
— Por me libertar. — Ele respirou fundo já se afastando. — Eu vou me entregar. Vou contar tudo. Sobre Dante. Sobre a fábrica. Sobre você.
O rosto dela mudou.
Não houve grito. Nem choro.
Apenas pavor.
— Você não faria isso — disse, mas agora a voz vacilava.
— Eu vou fazer. — Simples. — Não te devo mais nada.
Silvia olhou ao redor, como um animal encurralado. A casa parecia menor. As paredes mais próximas. O passado, sufocante.
— Você não pode destruir tudo — sussurrou.
— Você já destruiu — ele respondeu. — Só não quer ver.
Foi então que algo nela quebrou de vez.
Não houve encenação. Não houve charme. Apenas desespero cru.
Ela se virou abruptamente, a mão encontrando a faca sobre a bancada como quem agarra uma boia em mar aberto.
Quando Márcio percebeu, já era tarde demais.
Pela primeira vez, Silvia não estava atuando. Estava apenas reagindo.

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