Entrar Via

Quadros de um divórcio romance Capítulo 211

“Não há paz na morte, mas há cessação. E às vezes, cessar é tudo o que a alma consegue desejar.” Simone Weil

O tempo pareceu suspender-se no exato instante em que a faca afundou no abdômen de Márcio.

O movimento foi rápido demais para que ele previsse. O impacto, seco. Surdo. Um choque mudo que não veio acompanhado de dor imediata, apenas de incredulidade.

Ele baixou o olhar para a mão dela ainda pressionando a lâmina, depois para o rosto de Silvia — como se esperasse encontrar ali algum traço de arrependimento.

Silvia soltou o cabo abruptamente. A mão tremia, agora manchada do sangue dele. O vermelho contrastava de forma obscena com a pele clara. Ela o olhava como se só então percebesse o que fizera. O rosto perdeu a cor.

Márcio deu um passo incerto para trás. Tentou se apoiar no portal, mas as pernas falharam. O corpo cedeu e ele caiu de costas sobre o piso gasto, sujo, que imediatamente começou a ser tomado por um vermelho vivo, espalhando-se rápido demais.

O ar escapou-lhe do peito num som estranho, quase um soluço mecânico. Como se o corpo tivesse desaprendido a respirar sozinho.

— Não… não… — Silvia murmurava imóvel. — Isso não era pra acontecer.

Mas já tinha acontecido.

Márcio levou a mão ao abdômen. O sangue escorria quente entre os dedos. A visão começou a falhar nas bordas.

— Você… — ele tentou falar, mas a voz não saiu inteira.

— O que eu fiz? — O pânico tomou conta dela de vez.

O sangue continuava a se espalhar pelo chão, como se a casa inteira estivesse absorvendo aquele fim.

Pela primeira vez, Silvia não tinha roteiro.

Nem máscara.

Nem controle.

Ela falava. Ele ouvia, mas as palavras chegavam quebradas, dissolvidas no ar. Reconhecia o timbre, o ritmo — aquele tom que já o convencera de tantas coisas. Estranhamente, não sentia raiva. Apenas um cansaço profundo, antigo, como se tudo finalmente estivesse alcançando o lugar onde deveria terminar.

Tentou falar.

A boca se moveu, mas a voz não acompanhou. O corpo já não obedecia como antes. Era como estar preso dentro de si mesmo, observando tudo por trás de um vidro espesso.

O calor começava a se afastar do centro do corpo, deixando um formigamento estranho nos pés, nas mãos.

Pensou na estrada.

Na avó.

Na capela pequena.

No padre dizendo que sempre havia espaço para o perdão.

Pensou em Helena.

Não no medo nos olhos dela, mas na expressão serena que vira na feira. Aquilo lhe trouxe um alívio inesperado.

Algo dentro dele afrouxou.

O rosto de Silvia entrou no seu campo de visão. Ela parecia menor dali de baixo. Desfigurada pelo pânico. Não era a mulher que amara, nem a vilã que finalmente havia enxergado — era só alguém desesperado demais para sustentar as próprias mentiras.

O som do próprio coração estava estranho — lento, distante. E por incrível que pareça ele não sentiu medo.

A dor foi cedendo lugar a um torpor pesado. As luzes da sala ficaram opacas. O teto virou apenas uma mancha clara. Pensou que talvez fosse assim que a culpa finalmente se dissolvia — não em redenção, mas em silêncio.

Depois disso, não houve mais pensamentos.

Nem arrependimentos.

Nem planos.

Só o peso do corpo no chão.

E o mundo, enfim, se afastando.

Quando os olhos dele se fecharam, Silvia permaneceu parada ao lado do corpo. Por um instante absurdo, parecia a mesma garota de anos atrás — inocente e culpada ao mesmo tempo. E o homem estendido no chão, sangrando, era a única pessoa verdadeiramente boa que passara por sua vida, além da própria mãe.

Ela o amara. E, ainda assim, o arrastara para aquilo.

Tomara tudo dele — a pureza, as escolhas, e agora, até a própria vida.

As lágrimas vieram sem barreiras, misturadas a soluços que lhe sacudiam o corpo inteiro. Não havia mais controle, nem cálculo. Apenas o peso esmagador do que fizera.

O nosso preço é apenas 1/4 do de outros fornecedores

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio