“Não há paz na morte, mas há cessação. E às vezes, cessar é tudo o que a alma consegue desejar.” Simone Weil
O tempo pareceu suspender-se no exato instante em que a faca afundou no abdômen de Márcio.
O movimento foi rápido demais para que ele previsse. O impacto, seco. Surdo. Um choque mudo que não veio acompanhado de dor imediata, apenas de incredulidade.
Ele baixou o olhar para a mão dela ainda pressionando a lâmina, depois para o rosto de Silvia — como se esperasse encontrar ali algum traço de arrependimento.
Silvia soltou o cabo abruptamente. A mão tremia, agora manchada do sangue dele. O vermelho contrastava de forma obscena com a pele clara. Ela o olhava como se só então percebesse o que fizera. O rosto perdeu a cor.
Márcio deu um passo incerto para trás. Tentou se apoiar no portal, mas as pernas falharam. O corpo cedeu e ele caiu de costas sobre o piso gasto, sujo, que imediatamente começou a ser tomado por um vermelho vivo, espalhando-se rápido demais.
O ar escapou-lhe do peito num som estranho, quase um soluço mecânico. Como se o corpo tivesse desaprendido a respirar sozinho.
— Não… não… — Silvia murmurava imóvel. — Isso não era pra acontecer.
Mas já tinha acontecido.
Márcio levou a mão ao abdômen. O sangue escorria quente entre os dedos. A visão começou a falhar nas bordas.
— Você… — ele tentou falar, mas a voz não saiu inteira.
— O que eu fiz? — O pânico tomou conta dela de vez.
O sangue continuava a se espalhar pelo chão, como se a casa inteira estivesse absorvendo aquele fim.
Pela primeira vez, Silvia não tinha roteiro.
Nem máscara.
Nem controle.
Ela falava. Ele ouvia, mas as palavras chegavam quebradas, dissolvidas no ar. Reconhecia o timbre, o ritmo — aquele tom que já o convencera de tantas coisas. Estranhamente, não sentia raiva. Apenas um cansaço profundo, antigo, como se tudo finalmente estivesse alcançando o lugar onde deveria terminar.
Tentou falar.
A boca se moveu, mas a voz não acompanhou. O corpo já não obedecia como antes. Era como estar preso dentro de si mesmo, observando tudo por trás de um vidro espesso.
O calor começava a se afastar do centro do corpo, deixando um formigamento estranho nos pés, nas mãos.
Pensou na estrada.
Na avó.
Na capela pequena.
No padre dizendo que sempre havia espaço para o perdão.
Pensou em Helena.
Não no medo nos olhos dela, mas na expressão serena que vira na feira. Aquilo lhe trouxe um alívio inesperado.
Algo dentro dele afrouxou.
O rosto de Silvia entrou no seu campo de visão. Ela parecia menor dali de baixo. Desfigurada pelo pânico. Não era a mulher que amara, nem a vilã que finalmente havia enxergado — era só alguém desesperado demais para sustentar as próprias mentiras.
O som do próprio coração estava estranho — lento, distante. E por incrível que pareça ele não sentiu medo.
A dor foi cedendo lugar a um torpor pesado. As luzes da sala ficaram opacas. O teto virou apenas uma mancha clara. Pensou que talvez fosse assim que a culpa finalmente se dissolvia — não em redenção, mas em silêncio.
Depois disso, não houve mais pensamentos.
Nem arrependimentos.
Nem planos.
Só o peso do corpo no chão.
E o mundo, enfim, se afastando.
Quando os olhos dele se fecharam, Silvia permaneceu parada ao lado do corpo. Por um instante absurdo, parecia a mesma garota de anos atrás — inocente e culpada ao mesmo tempo. E o homem estendido no chão, sangrando, era a única pessoa verdadeiramente boa que passara por sua vida, além da própria mãe.
Ela o amara. E, ainda assim, o arrastara para aquilo.
Tomara tudo dele — a pureza, as escolhas, e agora, até a própria vida.
As lágrimas vieram sem barreiras, misturadas a soluços que lhe sacudiam o corpo inteiro. Não havia mais controle, nem cálculo. Apenas o peso esmagador do que fizera.
Silvia respirou fundo. Não havia mais espaço para hesitação.
Saiu da casa a passos largos, como se o chão pudesse puxá-la de volta. As mãos tremiam quando tentou trancar a porta; precisou de mais de uma tentativa até conseguir girar a chave. Quando o clique seco da fechadura finalmente soou, teve a impressão de estar selando algo — deixando todo o seu passado apodrecer do lado de dentro.
Virou-se sem olhar para trás.
Ao ganhar a rua, forçou a postura, endireitando os ombros, tentando parecer apenas mais uma mulher voltando para casa no fim do dia. Ainda assim, sentia os olhares sobre si, uma pressão invisível na pele, embora ninguém sequer a observasse de verdade. Era a culpa que a denunciava, não o mundo.
Caminhou alguns quarteirões e assim que avistou um táxi livre, levantou a mão com urgência. O carro parou.
— Para onde? — perguntou o motorista.
Ela engoliu em seco antes de responder, informando o endereço do próprio apartamento.
Não podia ir para a casa de Cássio daquele jeito.
Enquanto o táxi arrancava, Silvia abaixou a cabeça, respirando com dificuldade. Tinha a sensação de estar presa a um pesadelo, lutando para acordar sem conseguir. Tudo parecia deslocado demais para ser real — o movimento, o som distante da cidade, o próprio corpo.
O carro parou.
Silvia puxou algumas notas da bolsa e as estendeu ao motorista antes mesmo que ele dissesse o valor. O homem olhou para o dinheiro, mas seus olhos se detiveram por um segundo a mais nas mãos dela.
— A senhora está machucada? — perguntou, alarmado.
Ela seguiu o olhar dele e só então percebeu: sob as unhas, ainda havia sangue escuro, acumulado nas dobras da pele.
O estômago se revirou.
— Não… — respondeu rápido demais. — É tinta.
A palavra saiu frágil, mal sustentada. Ela empurrou o dinheiro em direção a ele e abriu a porta antes que qualquer outra pergunta pudesse ser feita. Não esperou troco. Não esperou resposta.
Entrou no prédio quase correndo.
Quando finalmente fechou a porta do apartamento atrás de si, encostou-se nela e puxou o ar com força, como se estivesse emergindo depois de muito tempo submersa. O coração batia em todo o corpo — nas têmporas, no peito, nos dedos.
O silêncio ali dentro era pesado demais — um vazio opressor para alguém que precisava se recompor e decidir, com urgência, o que faria a partir dali.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio