“Todo santo tem um passado, e todo pecador tem um futuro.” Oscar Wilde
Após limpar como pôde a cena do próprio crime, Silvia só queria sair daquela casa o mais rápido possível.
Lançou um último olhar para o chão da sala. Não ficara perfeito, e o espaço limpo destoava do restante do piso ainda coberto por poeira.
Talvez fosse melhor chamar uma empresa de limpeza profissional. Ou ir além: colocar a casa para alugar. Inquilinos apagariam rastros, diluiriam lembranças, afastariam suspeitas. Se alguém a tivesse visto entrando ali, poderia dizer que avaliava o imóvel justamente para isso. Tudo era questão de narrativa. E ela sempre soubera construir boas versões.
Reuniu os panos sujos em um balde velho — o mesmo que a mãe costumava usar para lavar o quintal. Pensara em queimá-los, mas estavam encharcados demais para isso. Então despejou ali o restante dos produtos de limpeza, acrescentou punhados de terra do quintal, mexendo até que o líquido deixasse de ter a cor de sangue.
Os frascos vazios voltaram para dentro do saco. Antes de sair, percorreu a casa com os olhos uma última vez, como quem se despede de algo que não pretende revisitar — embora soubesse que nunca se abandona completamente o lugar onde tudo começou.
Do lado de fora, puxou novamente o capuz do moletom sobre a cabeça e caminhou em direção ao carro. No trajeto, encontrou uma grande lixeira e empurrou o saco para dentro sem hesitar, como se o gesto pudesse, de alguma forma, empurrar junto o peso que carregava no peito.
Ao se aproximar da padaria, atravessou a rua. Não queria passar pelo passeio onde a velha senhora costumava ficar observando o movimento. Pessoas que permanecem tempo demais no mesmo lugar costumam saber — e falar — demais. Silvia não precisava disso.
Também não podia voltar para a casa de Cássio naquele estado. Não queria os olhares curiosos da empregada, nem perguntas, nem suposições. Tudo na vida era aparência. E ela precisava restaurar a sua.
Decidiu ir para o apartamento. Tomaria outro banho, se recomporia. Voltaria apenas no fim da tarde, quando a funcionária já tivesse ido embora.
E assim fez.
Passou horas sentada no sofá, ainda com os cabelos úmidos, deixando que a água escorresse pelas costas enquanto a mente vagava sem controle. As cenas se repetiam. As decisões. O sangue. O vazio. A ausência do corpo. A pergunta que martelava sem resposta: quem havia levado Márcio?
A perna tremia involuntariamente, traindo a ansiedade que tentava conter. Bastaria uma palavra errada da pessoa e tudo ruiria.
Ela estava presa a um fio invisível. E não sabia quem o segurava.
...
Cássio voltou à feira apenas para verificar se tudo corria bem e se despedir de Renato. Não tinha cabeça para permanecer ali. Pediu que o amigo continuasse cuidando de tudo em sua ausência.
Renato perguntou sobre a visita à delegacia. Cássio respondeu apenas com o que o delegado lhe dissera, sem entrar em detalhes. Guardou para si as suspeitas, os medos, as escolhas erradas. Renato não sabia — e não precisava saber — sobre o dinheiro da empresa usado para pagar Helena, sobre o acordo obscuro com Dante, sobre sua tentativa inconsequente de sequestrá-la.
Se pudesse, enterraria todos aqueles segredos junto com o próprio nome.
Ao chegar em casa, estranhou o silêncio. Chamou por Silvia. Nenhuma resposta.
Quem surgiu foi a empregada.
— Senhor Amaral, o senhor chegou cedo.
— Onde está a Silvia?
— A senhora saiu de manhã. Disse que ia fazer exercícios… e ainda não voltou.
Cássio franziu a testa.
— Exercícios? Mas ela estava passando mal.
A mulher hesitou por um instante, como se reconsiderasse.
— Agora que o senhor falou… ela realmente não parecia muito bem.
Cássio passou a mão pelo rosto, sentindo a irritação crescer, misturada a uma inquietação que ele ainda não sabia nomear.
— Mais essa agora… — murmurou.
Cássio percorreu o espaço com o olhar notando a casa recém limpa, ainda com cheiro dos produtos de limpeza. Seus olhos se detiveram no balcão da cozinha.
— E o bolo de cenoura que estava ali? — perguntou, tentando soar casual.
— Ah! Eu guardei no forno. — A empregada sorriu, animada. — O senhor gostou? A antiga senhora um dia me passou a receita… ela dizia que o senhor apreciava muito, então resolvi fazer.
Cássio assentiu, neutro.
— Não ficou ruim.
Não era exatamente um elogio, mas foi o suficiente. O rosto da mulher se iluminou.
— Então vou fazer sempre. — Disse com satisfação. — Se o senhor não precisar mais de mim, já vou indo. Ah… deixei lanches naturais fresquinhos na geladeira, caso queira.
— Obrigado. — respondeu, dispensando-a com um gesto breve.
Assim que a porta se fechou atrás dela, outro pensamento se infiltrou em sua mente — mais frio, mais urgente.
O dinheiro.
A empregada sempre entrava no closet para limpar.
Subiu as escadas com passos rápidos e foi direto ao quarto. Puxou a caixa da prateleira mais alta. O peso ainda estava ali. O alívio veio imediato quando a abriu e confirmou que o conteúdo permanecia intacto. Ainda assim, aquilo não podia continuar daquela forma.
Precisava resolver aquilo logo.
Aproveitando-se do silêncio absoluto da casa, separou alguns maços — seis milhões — e levou-os até o escritório. Depositou o dinheiro sobre o sofá e, em seguida, retirou uma das telas penduradas na parede.
Atrás dela havia um cofre. Um segredo que apenas ele e Helena conheciam.


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