“Nada desaparece completamente. Tudo deixa sua sombra.” Virginia Woolf
Silvia saiu de casa praguejando em silêncio. Como pôde ter sido tão descuidada a ponto de esquecer da empregada? Um erro bobo, primário — indigno dela.
Mas logo afastou o incômodo. No fim das contas, aquela mulher não passava de mais uma figura irrelevante. Não tinha porque perder tempo com isso quando havia um problema infinitamente maior à sua espera.
Parou o carro antes de entrar no bairro antigo. O lugar onde crescera parecia resistir ao tempo de forma quase cruel, como se estivesse sempre pronto para lembrá-la de quem ela fora — e de quem jamais voltaria a ser.
Puxou o capuz do moletom sobre a cabeça e abriu o porta-malas. Pegou o saco pesado com os produtos de limpeza, fechando-o rápido demais, como se o simples gesto pudesse denunciá-la.
Caminhou tentando parecer apenas mais uma pessoa apressada. Mas algo ainda faltava. Algo essencial para o que precisava fazer.
Água.
Parou em frente à padaria antiga. A fachada estava diferente, se desfazendo, mas o cheiro era o mesmo — pão quente, café passado na hora, memória. Hesitou por um segundo que lhe pareceu longo demais, então entrou.
O sino acima da porta tilintou.
Passou pelas prateleiras evitando olhar em volta, encontrou um galão de cinco litros com alça no gargalo e o pegou com firmeza, sentindo o peso puxar-lhe o braço. Caminhou até o caixa. Uma senhora terminava de atender outro cliente, sorridente, tranquila demais para quem ainda vivia ali há décadas.
Quando chegou sua vez, a mulher não se apressou. Olhou para Silvia com atenção excessiva, como quem tenta encaixar um rosto em um álbum antigo.
— Veja só… — disse, inclinando levemente a cabeça. — Você não é a filha dos Moretti?
O coração de Silvia falhou uma batida.
Por um instante, o mundo pareceu encolher ao redor dela. A voz da mulher não tinha maldade — só reconhecimento.
— Não — respondeu rápido demais, a voz abafada pelo capuz. — Acho que a senhora se enganou.
A mulher franziu a testa, apertando os olhos.
— Engraçado… — murmurou. — Juraria que sim. Você tem o mesmo olhar da sua mãe.
Aquilo foi como um golpe seco no estômago.
Silvia sentiu o sangue subir ao rosto. A mão apertou a alça do galão com força excessiva.
— Deve estar confundindo — disse, mais ríspida do que pretendia. — Quanto ficou?
O silêncio que se seguiu foi desconfortável. A senhora a observou por mais alguns segundos, avaliando, medindo. Depois deu de ombros, digitando o valor no caixa.
— Faz muitos anos que não vejo aquela família — comentou, casual, como se não tivesse acabado de abrir uma ferida. — Depois de tudo o que aconteceu…
Silvia estendeu o dinheiro antes que a frase fosse concluída.
— Bom dia — disse, seca, já se afastando.
Pegou o galão, empurrou a porta e saiu sem olhar para trás.
Só quando o sino tilintou novamente é que ela respirou fundo.
Não podia mais se dar ao luxo de erros.
Fez o restante do percurso em estado de alerta absoluto. Cada rosto parecia atento demais, cada janela uma possibilidade de olhos que a reconheceriam.
Empurrou o pequeno portão de ferro enferrujado e subiu as escadas depressa, buscando abrigo de olhos curiosos no alpendre estreito.
Olhou em volta uma última vez. Nada.
Só então encaixou a chave na fechadura.
A porta estava destrancada, mas, ainda assim, não conseguia girar a maçaneta.
O estômago se contraiu num espasmo violento. A simples ideia de como Márcio poderia estar depois de uma noite inteira largado ali — o corpo cedendo, o cheiro, a evidência do que ela fizera — fez sua garganta arder.
Mas não havia alternativa.
Inspirou fundo, abriu a porta e entrou sem olhar para o lado onde ele havia caído.
O som da porta se fechando atrás de si ecoou alto demais. Definitivo demais.
Colocou o galão e o saco de lixo no chão e, só então, se permitiu virar.
O que viu não era o que havia se preparado para enfrentar.
As pernas fraquejaram. O ar pareceu engrossar, pesado demais para ser puxado para dentro dos pulmões.
Silvia levou a mão ao peito, como se aquilo pudesse conter o colapso.
— Não… — murmurou, a voz quebrada.
O lugar onde o corpo de Márcio estivera estava vazio.
Não havia corpo.
A ausência gritava mais alto do que qualquer presença. Alguém o movera. E pior: alguém estivera naquela casa depois dela. Alguém mais sabia o que ela havia feito.
O segredo já não era só seu.
Deu alguns passos hesitantes para a frente, o medo tomando seu corpo sem pedir permissão. Cada poro parecia alerta, à espera de um som, um movimento, qualquer indício de que não estava sozinha.
Seguiu o rastro escuro no piso, gota após gota, até a poça maior, espessa. Mesmo sem o corpo, a cena continuava inteira. Irrecusável.
Ele podia ter desaparecido. Mas o que havia feito, não.
E aquilo ainda precisava ser apagado.
Silvia engoliu em seco. O cheiro metálico ainda pairava no ar, discreto, insistente. Ajoelhou-se devagar, sentindo o estômago revirar, e estendeu a mão trêmula em direção aos panos no saco de lixo.
Enquanto o corpo não estava mais ali, a culpa estava.
E essa, ela já sabia, não sairia com água nenhuma.
...
Depois do almoço tardio com Pedro, Helena levou o novo quadro até o quarto que vinha usando como estúdio improvisado e o recostou com cuidado na parede, ao lado dos outros, para que terminasse de secar. Observou a composição por alguns segundos, como se quisesse se certificar de que ele realmente estava concluído. Já passava das quatro da tarde, e o corpo — mais do que a vontade — a convenceu a desistir de começar outra pintura.
Em vez disso, mudou o foco. Abriu algumas caixas e passou a separar apenas o essencial: livros, cadernos, poucas roupas, materiais de trabalho. Tudo o que realmente precisaria quando se mudassem para o apartamento de Santiago no fim de semana.
Todo o restante seria guardado em um dos quartos durante a reforma, à espera do momento em que aquele espaço também chegasse à sua vez.
Deixou-se cair no sofá, esticando as pernas sobre ele, e levou a mão ao ventre num gesto quase instintivo. Fechou os olhos por um instante, imaginando aquele pequeno ser que começava a se formar ali dentro. Ainda era cedo, ainda era invisível ao mundo, mas a simples certeza de sua existência já a transbordava de alegria. Ser mãe era um desejo antigo que agora ganhava contornos reais. E, se pudesse escolher, não haveria pai melhor do que Santiago.
— Oi, pequenino… — murmurou, a voz baixa, íntima. — Você consegue me ouvir? Ainda é tão pequeno… e tão esperado. Eu já te amo tanto, mas tanto. Prometo que não vou deixar ninguém te machucar.
Continuou acariciando a barriga, como se já pudesse tocar o próprio filho, como se aquele gesto fosse uma forma de proteção.
— Estou tão ansiosa pra te ver… Logo, logo tudo aqui vai estar pronto. Um quartinho lindo só pra você. Sua vovó vai ficar encantada decorando tudo, e eu… — sorriu sozinha — eu posso pintar vários amiguinhos nas paredes pra te fazer companhia.
Suspirou, tomada por uma ternura calma.
— Seu pai babão também está muito empolgado, sabia? Você tem um papai maravilhoso…
— A mamãe é ainda mais maravilhosa — disse Santiago, apoiado no portal, observando a cena com um sorriso bobo, quase reverente.
Helena se sobressaltou por um segundo, depois riu, aliviada.
— Você chegou!
Ele se aproximou, puxou-a com cuidado apenas o suficiente para se sentar e acomodá-la em seu colo. Envolveu-a com um braço e, com a outra mão, pousou sobre a dela, no ventre ainda discreto.
— Eu sabia que perderia uma conversa importante se demorasse — murmurou, beijando-lhe os cabelos.
Helena encostou a cabeça em seu peito, fechando os olhos, sentindo que tudo estava em seu devido lugar.

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