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Quadros de um divórcio romance Capítulo 219

“A inveja é o monstro de olhos verdes que zomba do alimento de que vive.” Shakespeare

A sexta-feira chegou rápido demais.

Cássio conseguiu convencer Silvia a ir sozinha para a empresa, delegando-lhe a tarefa de acompanhar a equipe de criação no início dos estudos para a nova coleção. A justificativa soava razoável — embora ambos soubessem que a equipe não precisava dela para absolutamente nada. O verdadeiro motivo era outro: ele precisava da casa vazia.

Silvia percebeu.

Aquele pedido não fora casual. Havia algo ali, algo que ele não queria que ela presenciasse. Um segredo. E segredos sempre lhe despertavam curiosidade. Por um instante, cogitou a possibilidade mais óbvia — outra mulher —, mas descartou quase de imediato. Cássio estava atolado demais em problemas, em pressão, no trabalho. Não havia espaço para outro romance.

Ainda assim, atendeu ao pedido.

Talvez, se cedesse naquele ponto, ele deixasse de insistir na ideia absurda de que ela deveria se afastar do trabalho para se dedicar à casa e ao bebê. Aquilo nunca aconteceria. Se tivesse desejado uma vida sem ambição, teria aceitado um dos inúmeros pedidos de casamento de Márcio. Quanto à criança, cuidadoras existiam aos montes. Quanto à casa… Cássio só podia estar delirando se acreditava que ela algum dia limparia o chão ou cozinharia algo além de aparências.

Assim que o carro de Silvia desapareceu no fim da rua, Cássio se moveu.

Pegou a pasta que a secretária havia deixado na noite anterior e subiu direto para o closet. Abriu a grande caixa de sapatos da prateleira alta e transferiu o dinheiro para dentro da pasta com movimentos rápidos, precisos. Fechou o zíper com força, como se temesse que qualquer hesitação pudesse atrasá-lo ainda mais.

Precisava daquele dinheiro fora dali.

Riviera já lhe entregara os documentos de venda dos imóveis — tudo perfeitamente alinhado para justificar o depósito. Levou-os consigo ao banco, onde o gerente realizou o procedimento sem criar suspeitas, mesmo que sua mão suasse sobre a pasta.

Missão cumprida.

Cássio saiu do banco com a sensação de que havia apagado um incêndio, mas deixado brasas acesas sob o chão. Ainda assim, não podia se dar ao luxo de parar. Precisava voltar à feira. Segundo Renato, naquele dia uma figura influente do setor passaria pelo evento — alguém capaz de mudar destinos com um aperto de mão.

E Cássio precisava desesperadamente de um novo destino.

Cássio atravessou o fluxo de pessoas até alcançar o estande. Renato já o aguardava observando o movimento.

— E então? — Cássio perguntou sem rodeios assim que chegou. — Quem é o bambambã de quem você estava falando?

Renato ergueu uma sobrancelha, divertido.

— Bom dia pra você também.

— Bom dia. — Cássio rebateu, impaciente. — O quê? Tá carente? Conta logo.

Renato riu baixo, acostumado àquela ansiedade mal disfarçada.

— Já ouviu falar de Antônio Garcia?

Cássio franziu a testa por um instante, vasculhando a memória.

— Garcia… — murmurou. — Não é um dos concorrentes europeus do Francesco Orsini?

— Bingo. — Renato confirmou. — O próprio.

Cássio endireitou a postura, imediatamente mais atento.

— Eles nunca chegaram a bater de frente — Renato continuou —, mas o Antônio sempre ficou alguns passos atrás do Orsini, observando, copiando tendências, tentando antecipar movimentos.

— E agora ele está aqui. — Cássio completou, já ligando os pontos.

— Exatamente. — Renato sorriu, satisfeito. — No país, procurando talentos. E, ao que tudo indica, o fato de Orsini ter aberto uma filial aqui e “descoberto” a Helena mexeu com o ego dele.

Renato soltou uma risada curta, quase incrédula.

— Parece que a inveja atravessou o oceano.

Cássio acompanhou o raciocínio em silêncio. Se Antônio Garcia estivesse realmente em busca de um nome para rivalizar com a Orsini, aquela não era apenas uma visita social.

Era uma brecha.

E Cássio sabia reconhecer oportunidades quando elas apareciam — mesmo as que vinham carregadas de risco.

— E tem previsão de quando ele vai aparecer?

Renato deu de ombros.

— Isso eu não sei. — Olhou em volta, avaliando o fluxo do pavilhão. — Mas é só questão de tempo. Mas gente como o Garcia não vem a uma feira dessas para passear. Ele observa primeiro. Mede o terreno. Depois escolhe onde parar.

Cássio assentiu devagar.

— Então ele já pode estar aqui. — murmurou.

— Pode. — Renato confirmou. — Misturado no meio do público, fingindo interesse em coisas menores.

Cássio acompanhou o movimento do corredor central com os olhos. Pessoas passavam, riam, conversavam, fotografavam. Nada denunciava a presença de alguém importante — e era justamente isso que o inquietava.

— Ótimo. — disse por fim. — Então a gente não espera sentado.

Renato inclinou a cabeça, curioso.

— O que você está pensando?

— Em ajustar o discurso. — Cássio respondeu. — Se ele aparecer, não quero que veja só produto. Quero que veja ambição. Direção. Uma possível parceria.

Renato assentiu e percebeu o olhar demorado do amigo para o estande da Orsini.

— Aparentemente ela não veio hoje de novo. — Renato provocou.

— Ihhh! Quem te disse que eu estou interessado em saber disso?

— Humpf! Tá bom, me engana que eu gosto.

Mesmo se fazendo de desinteressado para o amigo, Cássio ainda guardava resquícios da preocupação com Helena do dia anterior.

Depois de mais de uma hora de espera, uma movimentação discreta começou a avançar pelo corredor central. Nada ostensivo, apenas um grupo que, curiosamente, atraía olhares por onde passava.

Cássio percebeu antes de Renato.

— Fica atento — murmurou, sem tirar os olhos do ponto que se aproximava. — Acho que a espera acabou.

Renato acompanhou o olhar do amigo.

— Vamos ficar aqui esperando ou vamos ao encontro dele? — perguntou, já sabendo a resposta.

Cássio puxou o ar devagar, ajeitou o paletó e esticou os ombros.

Capítulo 219 - O olhar do curador 1

Capítulo 219 - O olhar do curador 2

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