“A culpa é uma forma de prisão.” Albert Camus
Helena estava novamente no quintal, entregue a outra tela, enquanto Mabe repousava ao seu lado, entretida com um petisco grande demais para a própria boca. O sol filtrava-se pelas folhas, criando manchas de luz irregular sobre o chão — um movimento lento, quase hipnótico, que acompanhava o ritmo interno dela.
Na tela, uma mulher começava a existir.
Não inteira.
Nunca inteira.
O corpo surgia fragmentado, como se tivesse sido montado e desmontado vezes demais. Partes de si permaneciam espalhadas ao redor — pedaços de braços, fragmentos de torso, contornos de um rosto que não se completava. Não eram restos violentos, mas ausências silenciosas, como coisas que haviam sido deixadas pelo caminho sem que ninguém percebesse quando caíram.
O fundo era neutro, quase vazio, um espaço indefinido que não sugeria chão nem céu. Apenas um lugar de passagem. As cores da figura principal eram opacas, esmaecidas, como se tivessem sido lavadas por dentro. Tons de pele que não aqueciam, sombras frias marcando limites imprecisos entre o que ainda estava ali e o que já não pertencia mais.
A mulher tentava se recompor.
Com o que restava de um braço, estendia a mão em direção a uma das partes caídas à sua frente — um coração, talvez um fragmento de si mesma que ainda guardava força, identidade, memória. Os dedos se alongavam além do natural, quase finos demais, numa tentativa desesperada de alcançar o que parecia sempre um pouco fora de alcance.
Mas não chegava.
Havia ali uma tensão contida: o gesto congelado no exato instante anterior ao toque. O espaço entre a mão e o fragmento era mínimo, cruel. Um intervalo que dizia mais do que qualquer expressão no rosto — que, aliás, era apenas sugerido. Os traços faciais não estavam completamente definidos, como se a mulher ainda não tivesse certeza de quem era para poder se reconhecer.
No chão, as peças espalhadas formavam algo próximo a um quebra-cabeça impossível. Não faltavam peças. Havia peças demais. E nenhuma garantia de que, mesmo reunidas, voltariam a se encaixar como antes.
A pintura não falava de destruição, falava de cansaço.
Do esforço contínuo de tentar se manter inteira quando partes de si foram sendo abandonadas — por amor, por sobrevivência, por silêncio. Falava da tentativa insistente de se refazer com menos mãos do que o necessário.
Helena recuou um passo, observando.
Mabe levantou a cabeça por um instante, como se sentisse a mudança no ar, e depois voltou ao seu petisco.
Helena respirou fundo.
Ainda não era o fim da tela, mas era, sem dúvida, um retrato honesto do processo.
Diferente do dia anterior, Helena decidiu interromper o fluxo da pintura e fazer uma pausa para comer. Antes que se perdesse outra vez no tempo — e para evitar que Santiago precisasse encomendar algo pronto novamente — pegou o celular e lhe enviou uma mensagem rápida, avisando que já iria preparar alguma coisa.
Abriu a geladeira e encontrou pouco. Como se mudariam no dia seguinte, não havia motivo para reabastecer. Ainda assim, um peito de frango congelado e alguns legumes resistiam nas prateleiras. Sorriu sozinha. Sempre fora boa em improvisar com pouco. Colocou água para ferver, separou os temperos e decidiu fazer um arroz colorido com frango desfiado — simples, quente, suficiente.
Quando a refeição ficou pronta, mandou uma mensagem para Pedro, convidando-o a atravessar do sobrado para comer com ela. Ele havia pegado mais leve no treino daquele dia, talvez por tê-la visto acordar um pouco enjoada pela gravidez. O mal-estar, felizmente, não se firmara — como se o corpo também tivesse decidido colaborar, ao menos por algumas horas.
Sacudiu a cabeça com força, como se pudesse expulsar a lembrança à força. Esfregou os olhos, levantou-se bruscamente. Não conseguia permanecer parada nem por mais um segundo. Em dois dias, estaria se casando com Cássio — e não poderia haver momento pior para tudo aquilo. Estava tão perto de alcançar o que sempre quisera… e, ainda assim, sentia algo invisível se aproximando, pronto para puxá-la de volta ao passado que acreditava ter enterrado.
Caminhou até o banheiro da sala quase sem perceber o próprio trajeto. Parou diante do espelho e estacou.
O reflexo devolveu uma mulher que já não reconhecia por completo. Havia se maquiado cuidadosamente naquela manhã, mas nem a melhor base fora capaz de esconder as olheiras profundas. A pele, antes viçosa, parecia cansada. O cabelo, opaco, sem o brilho que sempre fizera questão de ostentar.
Silvia sustentou o próprio olhar por alguns com medo de que aquela imagem no espelho fosse a única verdade que restara.
De repente, Silvia se imaginou vestida de noiva com aquele rosto refletido no espelho. A imagem a repeliu. Não era nem de longe o que havia sonhado para o dia que deveria ser o ápice de sua vida, o momento de triunfo que sempre acreditara merecer.
Pensou na fotografia de casamento dos pais, pendurada em uma das paredes da antiga sala. A mãe linda de branco, com um sorriso sereno e uma felicidade tranquila. Até o pai — tão distante do homem em que viria a se tornar — irradiava alegria. Houve um tempo em que ele fora bom. Presente. Antes que a doença devorasse sua mãe de forma lenta e cruel, antes que o luto o empurrasse para o fundo do copo, ele fora um pai de verdade.
A lembrança veio sem pedir licença: o mundo visto do alto de seus ombros quando ela ainda era pequena, as mãos firmes segurando-lhe as pernas, o riso fácil. Depois, as noites tranquilas, as histórias sussurradas antes de dormir, o beijo na testa.
“Durma bem, minha pequena princesa.”
Silvia sentiu uma lágrima escorrer sozinha pelo rosto, deslizar até a boca. O gosto salgado a trouxe de volta ao presente com violência. Engoliu em seco, como se pudesse engolir também aquela memória — porque lembrar de quem fora, e de quem perdera, doía mais do que qualquer medo do que ainda estava por vir.
Voltou a sua sala, pegou sua bolsa sobre a mesa e com passos largos deixou a empresa para trás.

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