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Quadros de um divórcio romance Capítulo 220

“A culpa é uma forma de prisão.” Albert Camus

Helena estava novamente no quintal, entregue a outra tela, enquanto Mabe repousava ao seu lado, entretida com um petisco grande demais para a própria boca. O sol filtrava-se pelas folhas, criando manchas de luz irregular sobre o chão — um movimento lento, quase hipnótico, que acompanhava o ritmo interno dela.

Na tela, uma mulher começava a existir.

Não inteira.

Nunca inteira.

O corpo surgia fragmentado, como se tivesse sido montado e desmontado vezes demais. Partes de si permaneciam espalhadas ao redor — pedaços de braços, fragmentos de torso, contornos de um rosto que não se completava. Não eram restos violentos, mas ausências silenciosas, como coisas que haviam sido deixadas pelo caminho sem que ninguém percebesse quando caíram.

O fundo era neutro, quase vazio, um espaço indefinido que não sugeria chão nem céu. Apenas um lugar de passagem. As cores da figura principal eram opacas, esmaecidas, como se tivessem sido lavadas por dentro. Tons de pele que não aqueciam, sombras frias marcando limites imprecisos entre o que ainda estava ali e o que já não pertencia mais.

A mulher tentava se recompor.

Com o que restava de um braço, estendia a mão em direção a uma das partes caídas à sua frente — um coração, talvez um fragmento de si mesma que ainda guardava força, identidade, memória. Os dedos se alongavam além do natural, quase finos demais, numa tentativa desesperada de alcançar o que parecia sempre um pouco fora de alcance.

Mas não chegava.

Havia ali uma tensão contida: o gesto congelado no exato instante anterior ao toque. O espaço entre a mão e o fragmento era mínimo, cruel. Um intervalo que dizia mais do que qualquer expressão no rosto — que, aliás, era apenas sugerido. Os traços faciais não estavam completamente definidos, como se a mulher ainda não tivesse certeza de quem era para poder se reconhecer.

No chão, as peças espalhadas formavam algo próximo a um quebra-cabeça impossível. Não faltavam peças. Havia peças demais. E nenhuma garantia de que, mesmo reunidas, voltariam a se encaixar como antes.

A pintura não falava de destruição, falava de cansaço.

Do esforço contínuo de tentar se manter inteira quando partes de si foram sendo abandonadas — por amor, por sobrevivência, por silêncio. Falava da tentativa insistente de se refazer com menos mãos do que o necessário.

Helena recuou um passo, observando.

Mabe levantou a cabeça por um instante, como se sentisse a mudança no ar, e depois voltou ao seu petisco.

Helena respirou fundo.

Ainda não era o fim da tela, mas era, sem dúvida, um retrato honesto do processo.

Diferente do dia anterior, Helena decidiu interromper o fluxo da pintura e fazer uma pausa para comer. Antes que se perdesse outra vez no tempo — e para evitar que Santiago precisasse encomendar algo pronto novamente — pegou o celular e lhe enviou uma mensagem rápida, avisando que já iria preparar alguma coisa.

Abriu a geladeira e encontrou pouco. Como se mudariam no dia seguinte, não havia motivo para reabastecer. Ainda assim, um peito de frango congelado e alguns legumes resistiam nas prateleiras. Sorriu sozinha. Sempre fora boa em improvisar com pouco. Colocou água para ferver, separou os temperos e decidiu fazer um arroz colorido com frango desfiado — simples, quente, suficiente.

Quando a refeição ficou pronta, mandou uma mensagem para Pedro, convidando-o a atravessar do sobrado para comer com ela. Ele havia pegado mais leve no treino daquele dia, talvez por tê-la visto acordar um pouco enjoada pela gravidez. O mal-estar, felizmente, não se firmara — como se o corpo também tivesse decidido colaborar, ao menos por algumas horas.

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