O banho quente lavou o cansaço do dia, deixando o corpo leve, quase flutuante.
Helena vestiu um pijama longo, de tecido macio, e sentiu o conforto se espalhar como um abraço silencioso.
Na cozinha, colocou o restante da comida que Lívia havia trazido para aquecer. Logo, o aroma do tempero espalhou-se no ar, misturando-se à quietude daquela noite que, enfim, trazia-lhe em paz.
Enquanto esperava, deixou a mente vagar — imaginou cortinas claras dançando com o vento, uma poltrona antiga ao lado da janela... pequenas ideias que, como pinceladas, dariam forma ao lar que ela finalmente sentia como seu.
O som breve de uma notificação interrompeu seu devaneio.
Pegou o celular sobre a bancada. Outra mensagem de Cássio.
“Vou precisar fazer uma viagem curta, mas depois de amanhã estarei de volta.”
Helena soltou um riso curto, sem humor.
“E quem se importa?”, pensou, balançando a cabeça.
Não havia espaço para ele ali — nem nas paredes, nem dentro dela.
Comeu devagar, aproveitando o som distante de uma melodia suave que vinha de alguma casa próxima. Depois lavou a louça, gesto simples que lhe trouxe uma estranha sensação de paz.
Estava sozinha — mas era uma solidão boa, cheia de ar, de possibilidades.
Caminhou até a sala descalça, o piso frio de madeira sob os pés, e ficou por alguns segundos apenas olhando o cavalete ainda aquecido pela luz da luminária.
Puxou uma cadeira, ajustou o cavalete à sua altura e colocou sobre ele uma das novas telas enviadas por seus pais. O branco a encarava com uma intensidade quase ameaçadora… e, ao mesmo tempo, parecia um convite.
Pegou a maleta que comprara no antiquário e passou novamente a ponta dos dedos pelo nome entalhado no canto da tampa.
Uma imagem ainda sem forma começou a crescer em sua mente, tão nítida que quase podia vê-la dançar sob a luz.
Pegou um dos godês, espremeu pequenas porções de tinta.
Os pinceis repousavam alinhados, esperando as mãos que, por tanto tempo, os negligenciaram.
Ela escolheu um deles, de cerdas longas e macias.

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