O banho quente lavou o cansaço do dia, deixando o corpo leve, quase flutuante.
Helena vestiu um pijama longo, de tecido macio, e sentiu o conforto se espalhar como um abraço silencioso.
Na cozinha, colocou o restante da comida que Lívia havia trazido para aquecer. Logo, o aroma do tempero espalhou-se no ar, misturando-se à quietude daquela noite que, enfim, trazia-lhe em paz.
Enquanto esperava, deixou a mente vagar — imaginou cortinas claras dançando com o vento, uma poltrona antiga ao lado da janela... pequenas ideias que, como pinceladas, dariam forma ao lar que ela finalmente sentia como seu.
O som breve de uma notificação interrompeu seu devaneio.
Pegou o celular sobre a bancada. Outra mensagem de Cássio.
“Vou precisar fazer uma viagem curta, mas depois de amanhã estarei de volta.”
Helena soltou um riso curto, sem humor.
“E quem se importa?”, pensou, balançando a cabeça.
Não havia espaço para ele ali — nem nas paredes, nem dentro dela.
Comeu devagar, aproveitando o som distante de uma melodia suave que vinha de alguma casa próxima. Depois lavou a louça, gesto simples que lhe trouxe uma estranha sensação de paz.
Estava sozinha — mas era uma solidão boa, cheia de ar, de possibilidades.
Caminhou até a sala descalça, o piso frio de madeira sob os pés, e ficou por alguns segundos apenas olhando o cavalete ainda aquecido pela luz da luminária.
Puxou uma cadeira, ajustou o cavalete à sua altura e colocou sobre ele uma das novas telas enviadas por seus pais. O branco a encarava com uma intensidade quase ameaçadora… e, ao mesmo tempo, parecia um convite.
Pegou a maleta que comprara no antiquário e passou novamente a ponta dos dedos pelo nome entalhado no canto da tampa.
Uma imagem ainda sem forma começou a crescer em sua mente, tão nítida que quase podia vê-la dançar sob a luz.
Pegou um dos godês, espremeu pequenas porções de tinta.
Os pinceis repousavam alinhados, esperando as mãos que, por tanto tempo, os negligenciaram.
Ela escolheu um deles, de cerdas longas e macias.
Os olhos… olhos cor de mel, com nuances de âmbar e dourado, nasciam vivos. Ela os pintou com minúcia: o brilho que nasce do canto, o reflexo das luzes da rua, o leve contraste com o azul da noite ao redor. Olhos que transmitiam calma e coragem, mas havia neles algo mais — um cansaço bonito, uma solidão nobre.
Os ombros largos emergiram da penumbra, delineados pelo tremeluzir das luzes urbanas: o amarelo dos postes, o vermelho distante de um semáforo, o branco frio de um farol que passava.
A poça capturava tudo — e o homem parecia respirar sob ela, suspenso entre o real e o sonho.
As horas se diluíram.
Quando o sol começou a se levantar por entre as árvores, Helena suspendeu o pincel e deu um passo atrás. O coração batia calmo, o corpo leve, o rosto sereno.
Os olhos dela percorreram o rosto que acabara de criar.
Por um instante, teve a nítida impressão de que o reflexo a observava também — as luzes do quadro tremularam, e o olhar do homem pareceu retribuir o dela.
Ela sorriu.
Pegou o pano e limpou o pincel, devagar, mas antes de guardá-lo, pousou um último olhar sobre o nome gravado na maleta: Villar.

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