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Quadros de um divórcio romance Capítulo 21

"Às vezes, é no silêncio depois da queda que a alma encontra o pincel certo para se pintar de novo."

Helena estacionou seu Mini Cooper branco sob a sombra generosa das árvores. O motor ainda roncava baixinho quando percebeu algumas crianças brincando na rua quase deserta.

Uma delas parou, curiosa com o carro pequeno, e Helena sorriu, afagando o cabelo cacheado de outra que se aproximou risonha.

Sentiu, por um instante, o contágio daquela alegria leve que só a infância conhece — livre, ruidosa, inteira.

Ficou observando-as correr, até que o eco das risadas se misturou ao som distante do vento.

De repente, um arrepio percorreu-lhe a nuca. Uma sensação incômoda de estar sendo observada. Virou-se devagar, varrendo a rua com o olhar, mas não havia ninguém — apenas o silêncio e o farfalhar preguiçoso das folhas. Sacudiu a cabeça, tentando espantar a impressão, e seguiu em frente.

Abriu o portão de ferro, e logo percebeu algumas caixas empilhadas ao lado da porta. Abaixou-se para verificar e, ao ler o remetente, não conteve o sorriso: eram de seus pais.

Bastou um olhar mais atento para imaginar a cena — Lívia, com sua boca grande e coração do tamanho do mundo, comentando algo inocente demais com sua mãe, e pronto: segredo revelado.

Arrastou as caixas para dentro, sentindo o ar do novo lar envolvê-la como um abraço suave. A luz atravessava as janelas, dourando os cantos vazios. Enfim, estava em casa.

A casa já havia sido previamente limpa no dia anterior como Aurora prometera, então se pôs a arrumar.

Abriu a primeira caixa. Dentro, roupas de cama e banho, cuidadosamente dobradas, com aquele perfume inconfundível de sabão caseiro. Sorriu, imaginando a mãe escolhendo cada peça com o mesmo zelo com que bordava as lembranças.

Na segunda, utensílios de cozinha — pratos, panelas, talheres. Coisas que ela nem lembrou de precisar, mas que a fizeram sentir-se cuidada, acolhida à distância.

Ao abrir a terceira, o tempo parou. Dentro dela, repousava o seu antigo material de pintura — os pincéis, tubos de tintas pela metade... tudo ali, como se uma parte de sua juventude tivesse sido cuidadosamente embalada para acompanhá-la de volta à vida.

Havia também coisas novas: tubos de tinta ainda fechados, cerdas limpas, e, entre uma tela e outra, um envelope pálido, com a caligrafia de seus pais.

Com mãos trêmulas, abriu-o:

“Não ralhe com a Lívia por ter nos contado. Ela quer o seu bem tanto quanto nós, e a notícia não poderia ter-nos deixado mais felizes.

Sabemos o quanto você é forte, e nos enche de orgulho vê-la retomando o controle da sua vida e, principalmente, recuperando a essência linda que sempre teve.

Que este seja o começo de uma história nova, linda e só sua.

Com amor,

Papai e Mamãe.”

As palavras marejaram-lhe os olhos e o peito se encheu de uma ternura profunda com aquele amor sereno e constante que sobrevive a todas as distâncias.

O tempo passou despercebido enquanto ela desencaixotava as coisas. Só se deu conta das horas quando a campainha soou, seu toque antigo ecoando pela casa. Ao abrir, lá estava Lívia — equilibrando embalagens de comida e um sorriso luminoso.

— Não conseguiu manter a língua na boca, não é? — brincou Helena, cruzando os braços e encostando-se no batente com um olhar fingidamente severo.

— Você não pode me culpar — respondeu Lívia, rindo. — Eu estava tão feliz por você que precisei dividir com alguém!

Helena riu, balançando a cabeça.

— Está perdoada. Mas só porque eu te amo muito.

Elas se abraçaram com força.

— Encomendei um colchão como me pediu, devem entrega-lo no finalzinho da tarde.

— O que seria de mim sem você? — respondeu Helena dramatizando.

— Não muita coisa. — Rebateu a amiga rindo.

Pouco depois, estavam sentadas no chão da sala, almoçando entre caixas abertas, rindo por qualquer coisa.

Como prometera o gentil senhor do antiquário, os móveis começaram a chegar logo após o almoço — trazidos em sucessivas viagens por uma velha pick-up azul royal.

As duas riam enquanto ajudavam a descarregar as peças, e cada novo móvel que entrava pela porta parecia preencher não só o espaço, mas também o coração de Helena.

Quando tudo finalmente encontrou seu lugar, o sol já quase se inclinava preguiçoso no horizonte.

A casa já não mais tão vazia.

Ainda não havia cortinas nem quadros nas paredes, mas havia vida — e isso bastava.

Helena se sentia estranhamente desperta, como se cada respiração fosse um gole de ar novo.

Foi então que uma voz firme, mas afetuosa, ecoou da porta entreaberta:

— Promete que vai se cuidar dessa vez? — perguntou Lívia, com voz baixa, quase um sussurro.

Helena virou-se para ela, os olhos brilhando à luz do entardecer.

— Prometo. Mas só se você continuar me lembrando quando eu esquecer.

As duas riram, e o som se misturou ao farfalhar das árvores lá fora.

Pouco depois, já junto ao carro, Lívia abriu o porta-malas e retirou um grande embrulho.

— Aqui. Presente de casa nova — disse, com um sorriso cúmplice. — Quando vi, lembrei de você.

Helena arqueou as sobrancelhas, curiosa.

— O que é isso?

— Abre logo — insistiu a amiga, balançando as mãos.

Rasgando o papel, Helena se deteve por um instante, sem fôlego.

Era uma luminária de chão, de ferro fundido escurecido pelo tempo, com uma base pesada que trazia arabescos delicados em suas curvas e uma cúpula de tecido cru adornada por frisos dourados um pouco desbotados.

Uma peça antiga e que parecia ter alma própria.

— Lívia… — murmurou, emocionada, os olhos marejados. — É linda.

— Sabia que ia gostar — respondeu a amiga, sorrindo. — É para ajudar a iluminar sua nova vida.

Helena a abraçou com força, um abraço quente, grato, cheio de história.

— Obrigada… por ser como uma irmã pra mim.

— Sempre fui, sua boba — respondeu Lívia, rindo com lágrimas nos olhos.

Depois que o carro da amiga partiu, Helena ficou por um tempo à porta, observando as luzes se acendendo aos poucos na rua.

A brisa da noite soprava leve, e a luminária recém-colocada na sala lançava uma claridade dourada sobre o cavalete — como se a vida, finalmente, acendesse de novo.

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