"Às vezes, é no silêncio depois da queda que a alma encontra o pincel certo para se pintar de novo."
Helena estacionou seu Mini Cooper branco sob a sombra generosa das árvores. O motor ainda roncava baixinho quando percebeu algumas crianças brincando na rua quase deserta.
Uma delas parou, curiosa com o carro pequeno, e Helena sorriu, afagando o cabelo cacheado de outra que se aproximou risonha.
Sentiu, por um instante, o contágio daquela alegria leve que só a infância conhece — livre, ruidosa, inteira.
Ficou observando-as correr, até que o eco das risadas se misturou ao som distante do vento.
De repente, um arrepio percorreu-lhe a nuca. Uma sensação incômoda de estar sendo observada. Virou-se devagar, varrendo a rua com o olhar, mas não havia ninguém — apenas o silêncio e o farfalhar preguiçoso das folhas. Sacudiu a cabeça, tentando espantar a impressão, e seguiu em frente.
Abriu o portão de ferro, e logo percebeu algumas caixas empilhadas ao lado da porta. Abaixou-se para verificar e, ao ler o remetente, não conteve o sorriso: eram de seus pais.
Bastou um olhar mais atento para imaginar a cena — Lívia, com sua boca grande e coração do tamanho do mundo, comentando algo inocente demais com sua mãe, e pronto: segredo revelado.
Arrastou as caixas para dentro, sentindo o ar do novo lar envolvê-la como um abraço suave. A luz atravessava as janelas, dourando os cantos vazios. Enfim, estava em casa.
A casa já havia sido previamente limpa no dia anterior como Aurora prometera, então se pôs a arrumar.
Abriu a primeira caixa. Dentro, roupas de cama e banho, cuidadosamente dobradas, com aquele perfume inconfundível de sabão caseiro. Sorriu, imaginando a mãe escolhendo cada peça com o mesmo zelo com que bordava as lembranças.
Na segunda, utensílios de cozinha — pratos, panelas, talheres. Coisas que ela nem lembrou de precisar, mas que a fizeram sentir-se cuidada, acolhida à distância.
Ao abrir a terceira, o tempo parou. Dentro dela, repousava o seu antigo material de pintura — os pincéis, tubos de tintas pela metade... tudo ali, como se uma parte de sua juventude tivesse sido cuidadosamente embalada para acompanhá-la de volta à vida.
Havia também coisas novas: tubos de tinta ainda fechados, cerdas limpas, e, entre uma tela e outra, um envelope pálido, com a caligrafia de seus pais.
Com mãos trêmulas, abriu-o:
“Não ralhe com a Lívia por ter nos contado. Ela quer o seu bem tanto quanto nós, e a notícia não poderia ter-nos deixado mais felizes.
Sabemos o quanto você é forte, e nos enche de orgulho vê-la retomando o controle da sua vida e, principalmente, recuperando a essência linda que sempre teve.
Que este seja o começo de uma história nova, linda e só sua.
Com amor,
Papai e Mamãe.”
As palavras marejaram-lhe os olhos e o peito se encheu de uma ternura profunda com aquele amor sereno e constante que sobrevive a todas as distâncias.
O tempo passou despercebido enquanto ela desencaixotava as coisas. Só se deu conta das horas quando a campainha soou, seu toque antigo ecoando pela casa. Ao abrir, lá estava Lívia — equilibrando embalagens de comida e um sorriso luminoso.
— Não conseguiu manter a língua na boca, não é? — brincou Helena, cruzando os braços e encostando-se no batente com um olhar fingidamente severo.
— Você não pode me culpar — respondeu Lívia, rindo. — Eu estava tão feliz por você que precisei dividir com alguém!
Helena riu, balançando a cabeça.
— Está perdoada. Mas só porque eu te amo muito.
Elas se abraçaram com força.
— Encomendei um colchão como me pediu, devem entrega-lo no finalzinho da tarde.
— O que seria de mim sem você? — respondeu Helena dramatizando.
— Não muita coisa. — Rebateu a amiga rindo.
Pouco depois, estavam sentadas no chão da sala, almoçando entre caixas abertas, rindo por qualquer coisa.
Como prometera o gentil senhor do antiquário, os móveis começaram a chegar logo após o almoço — trazidos em sucessivas viagens por uma velha pick-up azul royal.
As duas riam enquanto ajudavam a descarregar as peças, e cada novo móvel que entrava pela porta parecia preencher não só o espaço, mas também o coração de Helena.
Quando tudo finalmente encontrou seu lugar, o sol já quase se inclinava preguiçoso no horizonte.
A casa já não mais tão vazia.
Ainda não havia cortinas nem quadros nas paredes, mas havia vida — e isso bastava.
Helena se sentia estranhamente desperta, como se cada respiração fosse um gole de ar novo.
Foi então que uma voz firme, mas afetuosa, ecoou da porta entreaberta:


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