Helena se levantou, esticando o corpo dolorido. O cansaço que não a visitara enquanto pintava finalmente se fez presente.
Olhou para seu companheiro, o relógio antigo que pendurou na parede da nova sala: quase seis horas da manhã.
Arrastou-se até o quarto e se jogou na cama.
Os lençóis enviados por seus pais a envolveram como um abraço silencioso, e, entregando-se ao sono, murmurou para si mesma: “Um dia… só falta um dia.”
Dormiu por quase cinco horas — tempo suficiente para que a tinta do quadro secasse ao toque, e também para que a mente repousasse, aquietando-se um pouco.
Ao acordar, escolheu um vestido entre os que havia pendurado no guarda-roupa. O tecido macio deslizou pela pele, moldando-se ao seu corpo com a naturalidade de algo feito para ela.
As alcinhas finas se amarraram sobre os ombros num gesto distraído, e os botões, um a um, pareciam selar o começo de um dia simples, mas bonito.
A cor quente de telha — entre cobre e outono — realçava a suavidade de sua pele e contrastava com o brilho ameno de seus olhos. Os cabelos castanhos, presos parcialmente, davam a impressão de um tom sobre tom, harmonizando silenciosamente com o vestido.
Calçou sandálias baixas bege de tiras largas, sentindo o couro macio abraçar os pés. Havia algo quase ritual naquele gesto: o modo como ajeitava a fivela era mais do que preparar-se para sair — era preparar-se para viver devagar, com atenção.
Pegou um papel de seda e uma fita que sua mãe havia usado para embrulhar uma das peças enviadas, e envolveu o quadro com cuidado. Um gesto simples, mas carregado de intenção: levar consigo aquela criação, mesmo sem moldura, para cumprir o que havia planejado.
Colocou o quadro no banco do passageiro e deu a volta para se acomodar ao volante. Mas, de repente, a sensação estranha retornou: parecia haver olhos sobre ela. Olhou ao redor, examinou a rua, mas nada viu. “Será que estou ficando louca?”, pensou, rindo de si mesma.
Sacudiu a cabeça, afastou o pensamento e ligou o carro. Digitou o endereço pesquisado com antecedência no aplicativo do painel e seguiu para o destino.
A música Maine, na voz de Noah Kahan, preencheu o espaço, e de repente tudo parecia mais vívido: as cores, a luz, até as pessoas ao redor pareciam mais leves, mais felizes.
Ao chegar no local, estacionou do outro lado da rua. Abriu a porta e esperou uma oportunidade para atravessar, e quando tudo parecia tranquilo deu alguns passos... murmúrios indistintos, passos apressados e buzinas distantes formavam um fundo difuso, quase hipnótico.
O vestido se abriu com o vento do movimento, o cabelo flutuou. O corpo dele inclinou-se sobre o dela, protegendo-a. Um gesto bruto, mas preciso, que misturava força e desespero.
Caíram juntos na calçada. O impacto foi amortecido pelo som do carro passando a centímetros de distância, e o mundo pareceu recomeçar ao som do motor se afastando.
Por um instante, só existia a respiração deles — ofegante, ritmada, quente.
Os braços dele ainda a seguravam, como se o corpo não soubesse que já era seguro soltá-la.
O peito dele subia e descia rápido, o calor atravessava a camisa, e o cheiro de adrenalina se misturava ao cheiro da pele dele: capim-limão, chá-verde e sândalo.
Ela levantou a cabeça de seu peito e ao abrir os olhos, confusa, encontrou os dele.
Do homem da sua pintura. Santiago Villar.

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