“A consciência é o pior carrasco.” Dostoiévski
Cássio caminhava ao lado de Antônio Garcia em direção ao estande da Orsini Design, desviando do fluxo de visitantes com passos distraídos. Por fora, mantinha a postura firme; por dentro, o raciocínio tamborilava em suposições.
E se Helena estivesse lá dentro, apenas fora de vista, e por isso não a viram antes? E se os funcionários soubessem detalhes de tudo o que acontecera entre eles? Isso não deixaria o clima estranho? E mesmo que ela não estivesse lá, eles certamente não contariam a ela depois que ele estivera ali?
O que ela pensaria? Que ele estava espionando? Que sentia falta? Que ainda orbitava ao redor dela?
— Cássio? — Renato sussurrou, percebendo o olhar distante do amigo.
Ele piscou, retornando ao presente e percebendo que já estavam diante do estande.
No grande telão da área institucional, imagens da coleção Prisma se alternavam com cenas do processo criativo. Em um dos cortes, as mãos de Helena deslizavam sobre a superfície de um aparador, com aquele gesto atento que parecia mais cuidado do que trabalho.
Se os funcionários tinham qualquer ressalva em relação a ele, foram impecáveis em ocultá-la. As recepcionistas se aproximaram com cordialidade, entregando panfletos e cartões como fariam com qualquer outro visitante.
Avançaram para a área de exposição e subiram o tablado levemente elevado. Um funcionário se aproximou para recebê-los — Rafael, o ilustrador.
Por um segundo, a expressão dele vacilou ao reconhecer Cássio. Lembrou-se, porém, das palavras de Helena: “Precisamos ser cordiais com todos, não importa quem seja.” Engoliu o desconforto, vestiu o sorriso profissional e fez o que era preciso.
— Sejam bem-vindos. Gostariam que eu apresentasse a coleção?
Antônio lançou um olhar demorado pelo primeiro ambiente. Pela primeira vez desde que o conhecera momentos antes, Cássio viu algo se acender nos olhos dele.
— Sim. Claro. Por favor.
O espaço representava uma sala. Não uma sala qualquer — mas um ambiente convidativo. Os móveis eram elegantes sem ostentação, as linhas geométricas suavizadas por texturas quentes. O verde das plantas quebrava a rigidez das formas, trazendo frescor. A iluminação em vidro âmbar espalhava uma luz que refletia calor.
Cássio mal ouvia as explicações de Rafael. Não precisava. Conhecia Helena o suficiente para reconhecer seu pensamento ali. Cada peça tinha intenção. Cada detalhe conversava com o todo.
Passou os dedos pelo aparador — o mesmo que minutos antes vira no telão sob as mãos dela. A madeira tinha veios aparentes, vivos, como se ainda respirasse.
Na prateleira ornamentada com livros, uma planta pendente chamava atenção. Não apenas pelo verde vibrante, mas pelo cachepô em formato de dodecaedro — que dialogava com o aparador de livros no mesmo formato, porém em aço escovado. Geometria e organicidade em equilíbrio.
Até o colar decorativo sobre a mesa de centro — contas dispostas como um terço — repetia discretamente a mesma estrutura de doze lados. Um padrão quase imperceptível, mas presente.
Tudo ali transmitia abrigo e descanso.
Pensou na própria casa. Na atmosfera fria. Nos espaços impecáveis e vazios. E em como Helena conseguira viver tantos anos ali — num ambiente que refletia o oposto do que ela era.
Sentiu um pesar profundo ao imaginar que tudo ali poderia estar no estande do extremo oposto do pavilhão sobre o nome do Studio Cassiani, mas graças à sua ganância, arrogância, e o desejo de controle, aquilo não apenas se tornara impossível — como também desencadeara uma sequência de problemas que ele ainda tentava apagar.
Olhando ao redor, sentiu algo mais difícil de admitir.
Saudade.
Até mesmo o detalhe do colar decorativo evocava outra memória: a fé inabalável dela. Sempre que tudo parecia ruir, ela dizia, com convicção tranquila:
— Para Deus nada é impossível.
Quase pôde ouvir a voz dela ali. E, pela primeira vez em muito tempo, sentiu que estava num ponto da própria vida em que precisava desesperadamente acreditar naquilo.
Quando se deu conta, Antônio já seguia para o próximo ambiente. Renato tocou seu braço de leve, um lembrete silencioso.
Cássio recompôs a postura e apressou o passo para desfazer a distância que havia deixado entre eles.
Antônio Garcia avançou alguns passos pelo segundo ambiente sem dizer nada. Diferente de Cássio, ele não se deixava envolver pelo afeto do espaço. Seu olhar era técnico, quase clínico. Observava proporções, materiais, circulação. Parava diante de uma peça, tocava-a, recuava para ver o conjunto. Um predador avaliando território.
— Interessante como tudo conversa — comentou por fim, sem emoção aparente. — Não há excessos. Nem ruídos visuais.
Rafael assentiu, satisfeito.
— Essa era a intenção. Criar continuidade, não impacto imediato.
Garcia inclinou levemente a cabeça, como quem considera algo.
— Impacto imediato vende rápido. — Fez uma pausa curta. — Continuidade constrói nome.

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