“Tentamos limpar o que fizemos para não ter que encarar quem nos tornamos.” Clarice Lispector
Sentada em um banco de madeira diante de uma extensa área verde, Silvia aguardava em silêncio. O lugar lembrava um sítio — árvores antigas, grama bem cuidada, o som distante de pássaros —, mas não era.
Nunca tivera a menor intenção de estar ali. Ainda assim, ali estava.
Talvez por causa da confusão que lhe tumultuava os pensamentos. Talvez da culpa. Ou do medo.
Sentada, começou a se perguntar se ainda não era tarde demais para dar meia-volta e ir embora, fingir que aquele impulso nunca existira. Chegou a apoiar as mãos no banco, pronta para se levantar.
Foi quando o cuidador reapareceu e já não estava mais sozinho.
Ao seu lado vinha alguém que ela não via havia anos. Alguém que reconheceria mesmo de olhos fechados.
Seu pai.
— Silvia? — a voz dele saiu insegura, arrastada pelo tempo e pelo corpo que já não obedecia como antes. O espanto era visível quando seus olhos enfim a reconheceram.
Ela, porém, não conseguiu responder. Permaneceu imóvel, encarando aquele rosto transformado: os vincos profundos, a pele envelhecida, o olhar perdido em camadas de cansaço e fragilidade. O homem à sua frente guardava apenas vestígios daquele pai que um dia existira.
Ela baixou o olhar, incapaz de sustentar aquele encontro por mais um segundo. Havia coisas demais atravessando o peito ao mesmo tempo — culpa, ressentimento, uma ternura antiga que ela jurara ter enterrado.
O cuidador percebeu o silêncio pesado e se aproximou com cuidado. Segurou o braço do homem, ajudando-o a se sentar no banco ao lado dela com movimentos lentos, quase cerimoniosos. Ajustou-o ali, certificando-se de que estava confortável, e lançou um último olhar atento antes de se afastar.
Quando ficaram sozinhos, o espaço entre eles pareceu maior do que realmente era. Dois corpos lado a lado, separados por anos de ausência, palavras nunca ditas e uma história que nenhum dos dois sabia exatamente por onde começar.
O alcoolismo, usado por ele como refúgio para suportar a dor de perder a mulher que amava, cobrara um preço alto demais. A cirrose — consequência direta de anos de vício — agora castigava seu corpo de dentro para fora, comprometendo órgãos, roubando-lhe forças, acelerando um envelhecimento que não condizia apenas com o tempo, mas com o sofrimento acumulado.
A fragilidade era visível. Não apenas no andar hesitante ou na pele marcada, mas no modo como parecia menor do que ela se lembrava — um homem consumido lentamente pelas próprias fugas.
Silvia, ocupada com os próprios demônios, o internou assim que teve condições financeiras de arcar com os custos.
Não houve discurso emocionado. Não houve reconciliação dramática. Apenas assinatura de papéis, transferência bancária e a sensação amarga de estar comprando algum tipo de reparação.
Na cabeça dela, aquilo bastava.
Era a forma mais organizada que encontrara de equilibrar a balança invisível do passado. Ele fora um bom pai antes de se perder. Antes da doença da mãe. Antes da garrafa virar companhia permanente. Interná-lo, garantir médicos, um quarto limpo, alimentação adequada — era, na lógica dela, uma forma de honrar os anos em que ele a carregava nos ombros e a chamava de princesa antes de dormir.
Mas não havia afeto na decisão. Havia cálculo.
E talvez fosse isso que mais a assustasse agora, sentada ao lado dele naquele banco: perceber que até mesmo o cuidado que oferecera tinha sido uma forma de manter distância. De organizar a dor em parcelas pagas. Como se fizesse aquilo apenas para silenciar a própria consciência.
— Você não parece muito bem — disse Miguel, com a voz rouca, cansada, como se cada palavra precisasse atravessar camadas de arrependimento.
Silvia soltou um suspiro contido, mantendo os olhos fixos no gramado à frente.
— Você também não.
Ele deixou escapar um pequeno sorriso torto, quase sem humor.
— Mas eu mereço o que estou passando… — fez uma pausa, engolindo em seco. — É o meu carma por ter te abandonado à própria sorte.
O vento leve balançou as folhas das árvores acima deles. Ela sentiu a frase tocar em algum ponto profundo, mas não levantou o olhar.
— Você só… se perdeu… — disse baixo, embora soubesse que aquilo não era totalmente verdade. Mas de alguma forma ela não conseguia escrachar o remorso que guardava dele.
Miguel fechou os olhos por um instante.
— Eu escolhi me perder. É diferente. — Ele apoiou as mãos trêmulas sobre os próprios joelhos. — Quando sua mãe morreu, eu achei que a dor ia me matar. Mas em vez de morrer, eu me afoguei. E deixei você afundar junto.
O silêncio entre os dois não era hostil. Era pesado.
— Eu devia ter sido forte por você — ele continuou. — Devia ter sido seu porto. Mas virei mais uma tempestade.
Ela sentiu a garganta fechar.
Tempestade. Era exatamente isso que ela tinha se tornado.
— Às vezes… — ela começou, hesitante — às vezes a gente faz coisas achando que está tentando sobreviver. E quando percebe… já destruiu tudo em volta.
Miguel virou o rosto lentamente para ela.
— O que foi que você fez, minha filha?
Silvia ficou em silêncio. Não podia dizer. Não ali. Não para ele. Mas precisava falar alguma coisa, qualquer coisa que aliviasse a pressão esmagando seu peito.
— Eu… machuquei alguém. — A voz saiu quase inaudível. — E não sei se foi por necessidade… ou por medo.
Miguel a observou com uma lucidez inesperada.

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