“Não se encontra paz evitando a vida.” Virginia Woolf
Quando Cássio chegou em casa, o primeiro impacto foi a luz da sala acesa. Parou um segundo no hall, o coração acelerando antes mesmo de entender por quê. Seus olhos correram instintivamente até o sofá.
Era Silvia.
Ainda assim, o susto não diminuiu.
Ela estava sentada ereta, as mãos unidas sobre o colo. Levantou o rosto ao vê-lo, mas não houve sorriso — apenas um cansaço cru, mal disfarçado. A maquiagem não conseguia esconder as sombras sob os olhos.
Cássio tirou o paletó, deixou-o cair sobre o aparador como se pesasse mais do que o tecido justificava. Afrouxou a gravata e sentou-se ao lado dela, deixando o corpo tombar para trás. Por um instante, pareciam dois estranhos dividindo o mesmo sofá.
— Como foi a feira? — ela perguntou, a voz baixa.
— Talvez tenhamos encontrado um novo parceiro internacional.
Silvia inclinou levemente a cabeça.
— É por isso que parece tão feliz? — A ironia foi sutil, mas cortante.
Cássio soltou um riso curto, seco, quase um sopro.
— Algo assim.
Ao menos ela não estava perguntando o que realmente o consumia.
Ele a observou de lado.
— E você? Essa cara… o bebê tem dado trabalho de novo?
Silvia respirou fundo, como se o ar fosse insuficiente.
— Pois é… quem diria que carregar uma criança poderia ser tão desgastante.
A casa estava silenciosa demais. Um silêncio que não parecia em nada com paz. Cada um perdido em seus próprios fantasmas.
Depois de alguns segundos, Cássio virou o rosto para ela. Havia algo diferente no olhar dele. Menos arrogância. Mais desgaste.
— Você acha que vamos ser felizes juntos um dia?
Silvia piscou, surpresa pela pergunta.
Ele continuou, antes que a coragem lhe faltasse:
— Eu sei que você não me ama de verdade. E… tá tudo bem. Mas acha que é possível ser feliz sem amor?
A pergunta ficou suspensa entre eles como algo frágil demais para tocar.
Por um instante, o medo de perder tudo falou mais alto que a culpa. Mais alto que o sangue ainda impregnado na memória. Ela se virou para ele, vestindo a indignação como quem veste um figurino ensaiado.
— Mas eu te amo!
A resposta saiu rápida demais.
Cássio a encarou. Não havia raiva no olhar dele. Havia cansaço.
Ele já se sentira realmente amado por uma única pessoa na vida, e o que Silvia demonstrava sentir por ele não parecia nem de longe com o sentimento com o qual Helena o agraciou por tanto tempo.
— Ama? — perguntou, quase num sussurro.
A pergunta atingiu Silvia como um golpe inesperado porque ele não parecia estar pedindo validação, parecia estar procurando a verdade.
Silvia deixou o olhar se perder por um instante, como se estivesse percorrendo os escombros da própria vida.
O pai já não passava de uma sombra frágil de seu passado, consumido por escolhas que ela aprendera a odiar — e a repetir de outras formas. Dante a enxergava apenas como uma marionete, puxando os fios invisíveis de sua vida a seu bel prazer. E Márcio… a única pessoa que, em algum momento, a enxergara com devoção verdadeira — ela mesma apagara da existência.
Restava Cássio.
Se o perdesse também, não sobraria nada além do vazio. Todo o esforço, toda a manipulação, cada passo calculado teria sido em vão.
Ela respirou fundo antes de falar.
— Eu sei que não sou como ela… — disse, quase num sussurro.
A voz saiu mais baixa do que pretendia, menos segura.
— E eu sei que você ainda a ama. Talvez… mesmo que a gente tenha uma vida inteira pela frente, você nunca consiga sentir por mim nem uma fração do que sentiu por ela.
Fez uma pausa. A garganta apertou.
— Mas você é tudo que eu tenho. — Os olhos dela finalmente o encararam. — E eu estou carregando um filho seu. Eu… não consigo fazer isso sozinha.
Cássio a observava com atenção cirúrgica. As palavras pareciam sinceras. Havia dor ali. Vulnerabilidade. Mas também havia algo desalinhado — um fio invisível puxando a cena para um lugar menos puro.
Ela não parecia apenas cansada. Parecia assustada.
Ele estendeu a mão e pousou sobre a dela, que repousava tensa sobre o próprio joelho. Depois ergueu os olhos para a grande vidraça da sala. O céu lá fora estava indefinido, de um preto tão escuro que ofuscava qualquer estrela.
Balançou a cabeça devagar.
— Me desculpe.
Ela franziu o cenho, surpresa.
— Pelo quê?

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio