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Quadros de um divórcio romance Capítulo 223

“Não se encontra paz evitando a vida.” Virginia Woolf

Quando Cássio chegou em casa, o primeiro impacto foi a luz da sala acesa. Parou um segundo no hall, o coração acelerando antes mesmo de entender por quê. Seus olhos correram instintivamente até o sofá.

Era Silvia.

Ainda assim, o susto não diminuiu.

Ela estava sentada ereta, as mãos unidas sobre o colo. Levantou o rosto ao vê-lo, mas não houve sorriso — apenas um cansaço cru, mal disfarçado. A maquiagem não conseguia esconder as sombras sob os olhos.

Cássio tirou o paletó, deixou-o cair sobre o aparador como se pesasse mais do que o tecido justificava. Afrouxou a gravata e sentou-se ao lado dela, deixando o corpo tombar para trás. Por um instante, pareciam dois estranhos dividindo o mesmo sofá.

— Como foi a feira? — ela perguntou, a voz baixa.

— Talvez tenhamos encontrado um novo parceiro internacional.

Silvia inclinou levemente a cabeça.

— É por isso que parece tão feliz? — A ironia foi sutil, mas cortante.

Cássio soltou um riso curto, seco, quase um sopro.

— Algo assim.

Ao menos ela não estava perguntando o que realmente o consumia.

Ele a observou de lado.

— E você? Essa cara… o bebê tem dado trabalho de novo?

Silvia respirou fundo, como se o ar fosse insuficiente.

— Pois é… quem diria que carregar uma criança poderia ser tão desgastante.

A casa estava silenciosa demais. Um silêncio que não parecia em nada com paz. Cada um perdido em seus próprios fantasmas.

Depois de alguns segundos, Cássio virou o rosto para ela. Havia algo diferente no olhar dele. Menos arrogância. Mais desgaste.

— Você acha que vamos ser felizes juntos um dia?

Silvia piscou, surpresa pela pergunta.

Ele continuou, antes que a coragem lhe faltasse:

— Eu sei que você não me ama de verdade. E… tá tudo bem. Mas acha que é possível ser feliz sem amor?

A pergunta ficou suspensa entre eles como algo frágil demais para tocar.

Por um instante, o medo de perder tudo falou mais alto que a culpa. Mais alto que o sangue ainda impregnado na memória. Ela se virou para ele, vestindo a indignação como quem veste um figurino ensaiado.

— Mas eu te amo!

A resposta saiu rápida demais.

Cássio a encarou. Não havia raiva no olhar dele. Havia cansaço.

Ele já se sentira realmente amado por uma única pessoa na vida, e o que Silvia demonstrava sentir por ele não parecia nem de longe com o sentimento com o qual Helena o agraciou por tanto tempo.

— Ama? — perguntou, quase num sussurro.

A pergunta atingiu Silvia como um golpe inesperado porque ele não parecia estar pedindo validação, parecia estar procurando a verdade.

Silvia deixou o olhar se perder por um instante, como se estivesse percorrendo os escombros da própria vida.

O pai já não passava de uma sombra frágil de seu passado, consumido por escolhas que ela aprendera a odiar — e a repetir de outras formas. Dante a enxergava apenas como uma marionete, puxando os fios invisíveis de sua vida a seu bel prazer. E Márcio… a única pessoa que, em algum momento, a enxergara com devoção verdadeira — ela mesma apagara da existência.

Restava Cássio.

Se o perdesse também, não sobraria nada além do vazio. Todo o esforço, toda a manipulação, cada passo calculado teria sido em vão.

Ela respirou fundo antes de falar.

— Eu sei que não sou como ela… — disse, quase num sussurro.

A voz saiu mais baixa do que pretendia, menos segura.

— E eu sei que você ainda a ama. Talvez… mesmo que a gente tenha uma vida inteira pela frente, você nunca consiga sentir por mim nem uma fração do que sentiu por ela.

Fez uma pausa. A garganta apertou.

— Mas você é tudo que eu tenho. — Os olhos dela finalmente o encararam. — E eu estou carregando um filho seu. Eu… não consigo fazer isso sozinha.

Cássio a observava com atenção cirúrgica. As palavras pareciam sinceras. Havia dor ali. Vulnerabilidade. Mas também havia algo desalinhado — um fio invisível puxando a cena para um lugar menos puro.

Ela não parecia apenas cansada. Parecia assustada.

Ele estendeu a mão e pousou sobre a dela, que repousava tensa sobre o próprio joelho. Depois ergueu os olhos para a grande vidraça da sala. O céu lá fora estava indefinido, de um preto tão escuro que ofuscava qualquer estrela.

Balançou a cabeça devagar.

— Me desculpe.

Ela franziu o cenho, surpresa.

— Pelo quê?

— Naquele dia, eu vi alguém que não se encaixava — disse, com voz firme. — Um sujeito grande, de moletom e boné. Não consegui ver o rosto. Ele mantinha distância… mas não tirava os olhos da direção de… — hesitou, evitando pronunciar o nome de Helena. — Tentei me mover para ter um ângulo melhor, mas ele desapareceu no meio da multidão. Não pude me afastar para segui-lo.

Fez uma pausa breve.

— Pela estrutura física, poderia ser o mesmo homem que apareceu nas filmagens da rua… e talvez o mesmo que atravessou este quintal naquela noite. Até o moletom preto parecia semelhante.

Santiago ergueu o olhar.

— Você acha que podia ser ele?

— Pelo deslocamento dele, sim. Ele destoava demais dos outros. Mas é curioso… — Pedro estreitou os olhos. — Não senti ameaça imediata. Apenas… deslocamento. Como se ele estivesse fora de lugar.

— Talvez não tenha feito nada justamente porque havia muita gente — sugeriu Lívia, cruzando os braços.

Marcelo coçou o queixo, pensativo.

— Desde o incidente do gás, esse homem tem fugido de cidade em cidade, vivendo quase invisível. Quando quase foi pego, em vez de sumir de vez, ele volta para cá. E, segundo relatos da última pousada onde ficou, era solitário, quieto, evitava conversa. Então me respondam: por que alguém assim arriscaria tudo para atacar a Helena?

Santiago respondeu sem hesitar:

— Porque foi pago.

A certeza na voz dele ecoou na mesa.

Marcelo inclinou a cabeça.

— Pago por quem? Se houvesse alguém com dinheiro realmente interessado em protegê-lo, fazê-lo desaparecer seria simples. Encontraram uma quantia significativa com ele. O suficiente para sair do país. Ainda assim, ele escolheu continuar vagando por perto.

Pedro concluiu, quase num sussurro:

— Então algo o prende aqui.

Marcelo assentiu devagar.

— Algo… ou alguém. Talvez uma pessoa por quem ele estivesse disposto a cometer tudo isso. Não por dinheiro. Por vínculo.

O silêncio que se instalou foi mais pesado que qualquer acusação.

Foi então que Helena falou, pela primeira vez desde o início da análise. Todos se voltaram para ela.

— Pela foto que temos dele… ele não parece um assassino frio — disse com calma, mas havia reflexão profunda na voz. — Não parece alguém que age por prazer ou por cálculo. Se não é dinheiro… — ela pousou o garfo, os olhos distantes por um instante — o que é forte o suficiente para levar alguém a destruir a própria vida?

Ninguém respondeu de imediato.

O vento passou leve pelo quintal, movendo as folhas das plantas ao redor, como se a própria noite escutasse.

A questão deixou de ser apenas sobre um suspeito — e passou a ser sobre o tipo de sentimento capaz de transformar alguém em arma.

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