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Quadros de um divórcio romance Capítulo 224

“O mundo inteiro é um palco, e todos os homens e mulheres não passam de atores.” William Shakespeare

A pergunta ficou suspensa sobre a mesa como uma lâmpada acesa iluminando mais do que todos estavam preparados para enxergar.

Novas teorias começaram a se formar em silêncio. Todos ali sabiam que Márcio não tinha nenhum vínculo direto com Helena. Não havia passado compartilhado, não havia história entre eles, nem mesmo se conheciam. Então, se ele estava preso àquela cidade… se havia voltado em vez de fugir… talvez o laço fosse com alguém próximo dela.

Mas quem?

Os olhares, quase inevitavelmente, se voltaram para Helena. Se havia alguma peça esquecida no passado, alguma sombra mal resolvida, ninguém melhor do que ela para reconhecê-la.

Ela sentiu o peso da expectativa, mas não desviou. Em vez disso, virou-se para Santiago.

— Eu sei que você jamais faria algo assim… — começou, com cuidado. — Mas, se alguém conseguisse te levar a cometer alguma coisa parecida… quem seria?

Houve um breve silêncio.

Santiago não respondeu de imediato. Olhou para o prato quase intocado à sua frente, depois para as mãos dela sobre a mesa. Quando finalmente falou, a voz saiu baixa, contemplativa.

— Você… — disse, erguendo os olhos. — Você e nosso filho.

Helena sustentou o olhar dele por alguns segundos. Havia ali verdade. Não impulso. Não violência. Apenas um amor que, levado ao limite, poderia se transformar em qualquer coisa.

Ela assentiu devagar, um sorriso triste desenhando-se em seu rosto.

— E por quê? — insistiu, quase num sussurro.

Santiago não hesitou dessa vez.

— Porque eu amo vocês.

O silêncio que se seguiu foi diferente do anterior. Não era especulativo. Era denso.

Se o amor era capaz de levar alguém a proteger… também podia ser capaz de destruir por ele.

— Cássio é um canalha.

Helena disse sem hesitar, e o fato de sua voz não tremer foi o que mais chamou atenção. Falar dele já não a feria mais. Era uma cicatriz fechada agora.

— Por anos ele me humilhou, me diminuiu… — continuou, encarando o próprio prato como se ali estivesse escrita a verdade que evitara por tanto tempo. — Mas ele fez isso porque eu permiti.

A confissão veio baixa. Quase dura demais para ser dita em voz alta.

Ela ergueu os olhos, constrangida pela própria lucidez.

— Eu idealizei uma coisa que nem existia. Construí um amor inteiro sozinha e acreditei nele cegamente. Ele só se aproveitou disso. Isso não apaga o que ele fez… — respirou fundo — mas, fora explorar minhas renúncias, eu duvido que ele fosse capaz de algo tão vil.

— Mas ele tentou te sequestrar. — Lívia rebateu, indignada.

Helena assentiu devagar.

— Tentou. — Fez uma pausa, lembrando. — Naquela noite no Lunário, quando ele me interceptou no corredor do banheiro, ele disse que precisávamos conversar. Que tinha ido me buscar porque eu era dele. Ele estava cego, mas não de ódio, era de ciúme, de posse. Porque eu tinha seguido em frente.

Pedro cruzou os braços, rememorando aquela noite.

— E foi tudo na mesma noite. A tentativa de sequestro… e a sabotagem do gás.

— A cronologia não b**e. — Marcelo completou, pensativo.

Santiago permanecia em silêncio, acompanhando cada palavra, atento às inflexões da voz dela.

Marcelo apoiou os cotovelos na mesa.

— Depois da perseguição e da fuga, ele precisou apagar as provas contra si e sair da cidade. Mas falsificar embarque em companhia aérea? Influenciar registros? Isso não é coisa de amador. Sumir com um carro é fácil. Manipular sistemas exige poder.

O raciocínio começou a ganhar corpo.

Santiago passou a mão pelo rosto.

— É óbvio que ele não fez isso sozinho.

— Exato. — Marcelo concordou.

Helena então ergueu a cabeça outra vez.

— Mas esse não é o ponto principal.

O tom dela mudou. Mais firme.

— Eu acredito que aquilo tenha sido um incidente isolado. O surto dele. Não vejo ligação direta entre a obsessão dele e a tentativa de atropelamento, a vigilância da casa… ou a sabotagem do gás.

Todos a encararam, esperando que ela amarrasse o fio invisível que parecia se desenhar apenas na mente dela.

Helena levou a mão à lateral da cabeça, sentindo o local onde ainda restava a lembrança do ferimento antigo.

— Fora os desentendimentos com a família dele, eu nunca tive inimizade declarada com ninguém. Cássio jamais havia ousado me tocar antes. Nunca tinha cruzado essa linha. — Seus olhos escureceram. — Foi só depois que aquela mulher entrou na vida dele que tudo começou a escalar.

O nome não precisou ser dito.

O vento leve do quintal moveu as folhas das árvores como um sussurro.

Santiago foi o primeiro a verbalizar.

— Você está dizendo que Silvia pode ter algum envolvimento?

Helena não respondeu de imediato. O silêncio dela foi mais revelador do que qualquer acusação.

— Tudo bem… na época ela podia ter um objetivo claro: separar Helena e Cássio. Mas depois que o divórcio aconteceu… por que continuar? Por que insistir?

Lívia foi a primeira a responder, quase impaciente.

— Porque ele nunca deixou Helena ir. — disse, com obviedade amarga. — Ele continuou atrás dela. Se humilhando no parque. Naquela coletiva patética insinuando que ela estava emocionalmente instável, mas que logo estariam juntos de novo. E depois… a tentativa de sequestro.

Santiago apertou os punhos.

— Para Silvia, Helena nunca deixou de ser um obstáculo. — Sua voz saiu mais dura do que pretendia. — Enquanto ela existisse, Cássio nunca seria dela. Eliminar Helena seria a forma mais rápida de tirá-la definitivamente da cabeça dele. — concluiu, com o maxilar tenso.

O vento atravessou o quintal novamente, balançando as folhas acima deles como um sussurro inquieto.

— Ao que tudo indica… sim. — Lívia completou, mais fria agora. — Isso tem cheiro de alpinismo social. E desespero.

Pedro cruzou os braços.

— Se essa linha fizer sentido, então Silvia pode ser a ligação entre Márcio e toda essa bagunça.

O nome pairou pesado sobre a mesa.

Todos voltaram os olhos para Helena.

Ela respirou fundo antes de falar.

— Sinceramente… eu não consigo ver outra hipótese que encaixe melhor. — Sua voz era firme, mas havia tristeza ali.

Lívia inclinou-se para frente.

— Mas como a gente prova isso?

Santiago olhou para Marcelo. Não precisou dizer nada.

O detetive entendeu. Endireitou-se na cadeira, o olhar mais afiado.

— Se ela é a ponte entre os dois… deve haver um rastro. Mensagens. Chamadas. Transferências. — Fez uma pausa breve. — Ninguém manipula alguém por tanto tempo sem deixar vestígios.

— Você consegue? — perguntou Pedro.

Marcelo respirou fundo.

— Não prometo nada. Mas vou ver o que consigo.

E, pela primeira vez, aquilo não era apenas uma suposição.

Era uma direção.

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