“Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.” William Shakespeare
O sábado amanheceu com uma luz pálida, quase tímida, como se o próprio dia ainda carregasse nos ombros o peso da conversa da noite anterior. O bairro antigo parecia mais silencioso do que de costume. Até o canto dos pássaros soava distante.
Na frente da casa, um pequeno caminhão aguardava com o baú aberto. Pedro ajudava a acomodar as últimas caixas enquanto Marcelo orientava o motorista sobre o trajeto. Não havia móveis sendo levados — apenas o essencial: roupas, os quadros já finalizados e as telas em branco cuidadosamente protegidas, além da maleta de tintas que Helena tratava quase como uma extensão de si.
Helena e Santiago acompanharam o processo em silêncio, lado a lado, até que a última embalagem foi encaixada e a porta metálica do baú se fechou com um som seco.
Ela lançou um último olhar já saudoso para casa. Santiago percebeu o peso daquele instante antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa. Envolveu-a pelos ombros com cuidado, puxando-a para perto.
— Será por pouco tempo — Santiago murmurou, percebendo a sombra de hesitação no olhar dela. Tentava soar seguro, como se pudesse transformar a incerteza em promessa apenas com o timbre da voz.
Helena o envolveu pela cintura, encostando o rosto no peito dele por um instante, como quem ancora o próprio coração.
— Eu sei… — disse baixo. — Lar, pra mim agora, é onde você está.
Ele fechou os olhos por um segundo, tocado além do que conseguia admitir. Afastou uma mecha do cabelo dela do rosto e depositou um beijo demorado em sua testa com uma devoção silenciosa.
Talvez aprofundasse o gesto, talvez a puxasse para mais perto, se não fosse a voz que surgiu atrás deles, suave e levemente divertida.
— Atrapalho?
Aurora estava parada junto ao portão, mãos entrelaçadas à frente do corpo, o olhar marejado sem qualquer esforço para disfarçar.
Helena se afastou apenas o suficiente para sorrir.
— De forma alguma.
A vizinha aproximou-se e tomou as mãos dela entre as suas de forma maternal.
— Minha menina… já estou com saudade. — A voz falhou discretamente. — Mas também sei que uma família precisa de espaço. E a casa de vocês vai ficar linda depois da reforma.
Santiago assentiu com um sorriso respeitoso.
— Quando a senhora menos esperar, estaremos de volta.
Aurora levantou o queixo com convicção.
— Que assim seja. — E, como se a benção tivesse peso real, fez um pequeno gesto no ar, quase imperceptível.
Helena apertou as mãos dela.
— Fique de olho em tudo aqui por mim, está bem?
— Pode deixar! — respondeu prontamente, com o entusiasmo de quem já se sentia incumbida da missão. — E quando vocês voltarem, faremos uma grande festa no bairro. Com música, bolo e todo mundo junto para celebrar essa nova fase!
Helena riu, aquela risada leve que não carregava medo nem defesa.
— Combinado.
Ela abriu os braços e envolveu Aurora em um abraço apertado, demorando-se um pouco mais do que o habitual. Havia despedidas que não pediam palavras extras — apenas calor humano.
Do outro lado da rua, Marcelo já se acomodava no carro, a mente fervilhando com planos e hipóteses. Enquanto o caminhão seguia adiante, ele partiu na direção da agência com Mabe, decidido a cavar respostas onde quer que estivessem enterradas.
Pedro, por sua vez, abriu a porta do carro para Helena e Santiago.
— Próxima parada: feira — anunciou com um meio sorriso.
...
Como era o último dia de feira, Silvia fez questão de acompanhar Cássio. Disse que Esther e Viviane haviam assumido os ajustes finais do casamento e que, por isso, poderia estar ali sem preocupações. Na verdade, precisava estar ali. Precisava ser vista.
O pavilhão fervilhava quase como no primeiro dia — corredores cheios, vozes se sobrepondo, flashes ocasionais, cartões trocados com pressa. O tipo de agitação que ainda podia render bons contatos no apagar das luzes.
Cássio percebeu o movimento com atenção estratégica, mas havia outra coisa ocupando sua mente. A conversa da noite anterior ainda reverberava. Algo entre ele e Silvia parecia ter se deslocado alguns centímetros — não para o lugar certo, mas para um ponto menos hostil. Talvez fosse a estranha identificação de dois náufragos que, mesmo desconfiados um do outro, reconhecem que estão no mesmo barco.
De mãos dadas, caminharam até o estande do Studio Cassiani. Renato ainda não havia chegado. Depois de três dias praticamente vivendo ali, era natural que estivesse exausto. Cássio fez uma nota mental de agradecê-lo novamente. Mesmo sendo parceiros, Renato sempre parecia investir mais energia do que ele próprio.
O estande estava movimentado. Funcionários atendiam visitantes, explicavam conceitos, distribuíam catálogos. Por ser fim de semana, diversos colaboradores e a nova equipe criativa também haviam aparecido para prestigiar a marca. Do outro lado do pavilhão, algo semelhante acontecia na Orsini: um pequeno grupo de profissionais reunido, admirando, fotografando, comentando com um entusiasmo orgulhoso o trabalho feito por seus colegas.
Silvia absorveu a atmosfera com uma satisfação silenciosa. Atenção sempre fora combustível para ela. Endireitou o queixo, ajustou o vestido e se pendurou com naturalidade calculada no braço de Cássio. Por alguns minutos, permitiu que o brilho externo abafasse o tumulto interno.
Pouco depois, Renato surgiu — mais alinhado do que nos dias anteriores, paletó impecável, postura formal. Aproximou-se deles com uma expressão concentrada.
— Os organizadores abriram espaço para uma fala institucional no palco — explicou. — Cada estande vai ter alguns minutos.
Cássio entendeu o que aquilo significava antes mesmo que Renato concluísse.
— Você vai representar a gente — afirmou, mais do que perguntou.
Renato assentiu.
— Acredito que seja melhor assim.
Não era necessário dizer em voz alta que a imagem de Cássio vinha enfrentando desgaste recente na mídia. A decisão era estratégica.
O tempo de fala, porém, não era igual para todos. O critério era objetivo: metragem e investimento. Quanto maior o estande, maior o espaço no palco. Visibilidade também se comprava em metros quadrados.
O chiado agudo do microfone atravessou o pavilhão como um aviso. As apresentações iam começar.
Em cada estande, uma pequena reorganização silenciosa acontecia: parte da equipe permanecia para manter o atendimento, enquanto outros se dirigiam ao espaço montado próximo à entrada principal. O palco, discreto e bem decorado, que estava estrategicamente posicionado entre os estandes.
Cássio seguiu com Silvia, Renato e a equipe criativa. No caminho, lançou um olhar demorado para o estande da Orsini. Vazio de Helena. De novo.
Não sabia se aquilo o aliviava ou o incomodava ainda mais.
Um a um, os representantes subiam ao palco. Falavam de propósito, inspiração, legado. As palavras ecoavam pelo espaço com entusiasmo ensaiado. Repórteres do setor anotavam cada frase com atenção, pois ali não estavam apenas discursos — estavam posicionamentos.

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