“Liberdade é pouco. O que eu desejo ainda não tem nome.” Clarice Lispector
A apresentação de Helena estava marcada para as dez horas. Ela, Santiago e Pedro chegaram ao pavilhão com tempo de sobra. O espaço fervilhava como no primeiro dia: visitantes circulando, câmeras erguidas, vozes se misturando.
Próximo à entrada, a equipe da Orsini se concentrava para assistir às falas finais da feira. Lívia estava entre eles, braços cruzados, postura impecável e um olhar nada discreto quando recaía sobre um certo casal. Ruminava cada palavra da conversa da noite anterior. Se dependesse dela, arrancaria a máscara de Silvia ali mesmo, diante de todos.
Quando Helena entrou no pavilhão, a atmosfera pareceu se reorganizar ao redor dela.
Vestia uma calça social preta de corte elegante, escarpins vinho que alongavam a silhueta, camisa branca de tecido leve e caimento perfeito. O cabelo preso em um rabo alto ressaltava o contorno do rosto junto com a maquiagem suave. No colo repousava o pingente de coração do colar que sua avó lhe dera. Não havia excesso, apenas presença.
Santiago caminhava ao seu lado, mão firme na dela. Pedro vinha logo atrás, atento.
Lívia foi a primeira a se aproximar.
— Você chegou — disse, envolvendo-a em um abraço que misturava carinho e tensão.
— Está tudo bem por aqui? — Helena perguntou, sorrindo.
— Tirando a presença de certas pessoas… — Lívia torceu discretamente o nariz na direção de Cássio e Silvia.
Helena acompanhou o olhar da amiga sem surpresa. Apenas assentiu, como quem já esperava.
Rafael consultou o relógio.
— Está quase na sua vez. Melhor contornarmos essa multidão para você se posicionar mais perto do palco.
Helena concordou. De mãos dadas com Santiago, seguiu pelo corredor lateral até a parte de trás do pequeno tablado. Dali, podiam ver apenas o perfil do orador atual — o representante do estande de revestimentos, parceiro da Orsini. No meio da fala, ele avistou Helena entre o público e acenou discretamente, mantendo o discurso.
O gesto não passou despercebido.
Cássio seguiu a direção do aceno e a encontrou. Depois de dois dias ausente, ela finalmente aparecera — radiante. O braço de Santiago envolvia sue a cintura com naturalidade.
Silvia também percebeu. Para ela, todos os seus problemas — até mesmo o gesto irreversível que cometera — tinham um nome: Helena.
Se Helena tivesse desaparecido da equação, nada daquilo estaria acontecendo.
Baixou os olhos, tentando conter a raiva que fervia por trás da expressão dócil.
O representante desceu do palco sob aplausos, e o apresentador retomou o microfone.
— Agora, convido ao palco a representante da Orsini Design, multinacional que abriu filial há poucos meses em nosso país e já chegou mostrando a que veio: Helena Duarte.
Santiago tocou de leve as costas dela.
— Vai lá — murmurou.
Helena sorriu para ele, respirou fundo e subiu ao tablado com passos firmes.
Pegou o microfone. O burburinho diminuiu.
— Bom dia.
A voz saiu clara.
— Gostaria de começar dizendo que me sinto profundamente honrada em estar aqui representando uma empresa tão incrível como a Orsini. Em pouquíssimo tempo, a Orsini deixou de ser apenas o lugar onde eu trabalho para se tornar uma nova família.
Ela lançou um sorriso de gratidão à equipe espalhada diante do palco.
— Hoje, porém, eu não quero falar apenas de design, de coleção ou de tendência. Porque, para mim, criar nunca foi somente sobre móveis, materiais ou acabamentos. Sempre foi mais sobre o lugar para onde a gente volta quando o mundo pesa demais.
Uma breve pausa.
— Houve um tempo em que eu acreditava que casa era apenas um endereço.
O olhar dela encontrou o de Santiago, cúmplice.
— Hoje eu sei que casa é o lugar onde a gente pode finalmente baixar as armas.
O silêncio se aprofundou.
— Vivemos num tempo acelerado. Tudo é urgente. Tudo exige performance. Somos medidos, comparados, pressionados. E então voltamos para casa. E casa não é vitrine. Casa é abrigo. É onde a gente pode simplesmente ser.
Ela respirou.
— É ali que o corpo entende que pode descansar. Que o coração pode diminuir o ritmo. Que a alma pode respirar.
Cássio a observava da plateia sem piscar. Ela tinha a mesma postura de quando discursara no aniversário da empresa. Mas agora não havia sombra nos olhos dela. Não havia dor disfarçada. Apenas força.
— É por isso que eu crio — continuou Helena. — Cada peça nasce com perguntas muito simples: Quem vai se apoiar aqui? Quem vai chorar aqui escondido? Quem vai rir alto aqui, sem medo?
O público a acompanhava em silêncio atento.
— Eu penso em alguém chegando cansado, deixando as chaves sobre um aparador, respirando fundo… e sentindo que ali está seguro. Penso em uma mãe embalando o filho numa poltrona. Em um casal dividindo o sofá depois de um dia difícil. Em alguém que janta sozinho, mas não se sente só porque o ambiente o acolhe.
A voz ganhou calor.
— Móveis não são estruturas frias. São testemunhas de vida. São abraços moldados em madeira. São baús que guardam histórias, silenciam dores e celebram recomeços.
Silvia apertou os dedos contra a própria bolsa.
Helena parecia falar sobre cura. Sobre reconstrução. Sobre luz.
— Criar, para mim, é um ato de responsabilidade emocional. Quando fazemos o que amamos, e colocamos amor no que fazemos, isso atravessa o material. Se infiltra nas fibras. O cuidado se torna palpável. E o cliente sente.
Ela deixou o olhar percorrer a plateia.
— Não estamos apenas vendendo móveis, revestimentos ou decoração. Estamos ajudando a construir lares.

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