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Quadros de um divórcio romance Capítulo 227

“Tudo o que nos irrita nos outros pode nos levar a uma compreensão de nós mesmos.” Carl Jung

Silvia fingia ouvir a conversa ao seu redor.

Um empresário falava sobre expansão de mercado. Outro comentava sobre exportação para a Europa. Renato argumentava algo técnico sobre matéria-prima. Cássio respondia com aquele tom calculado que ela conhecia bem.

Mas nada daquilo realmente chegava até ela porque próximo dali Helena ria.

Ria com a cabeça levemente inclinada para trás, como se o mundo fosse leve e feliz. Ria amparada pelo braço de Santiago, como se estivesse segura. Ria cercada por amigos, como se fosse… querida.

Aquela cena feria porque Helena parecia ter aquilo que Silvia jamais conseguira: dignidade depois da queda.

Ela engoliu seco.

Helena tinha perdido o casamento. Tinha sido humilhada e alvo de escândalos, perseguições, atentados. E ainda assim ali estava — inteira. Respeitada. Aplaudida.

Enquanto ela…

Enquanto ela precisava mentir para sustentar cada passo.

Precisava sorrir para não parecer culpada.

Precisava apagar sangue do chão da própria casa.

A raiva não vinha só de inveja. Vinha de frustração.

Helena não tinha lutado sujo. Helena não tinha vendido a própria alma. Helena não tinha precisado manipular, mentir, seduzir, provocar, empurrar ninguém para o abismo.

E mesmo assim tinha vencido.

“Ela não merecia”, pensou Silvia, os dentes se comprimindo.

Não merecia continuar ocupando espaço na mente de Cássio. Não merecia ser reverenciada por empresários internacionais. Não merecia ser a favorita de Orsini. Não merecia ter um homem que a olhava como se fosse única. Não merecia viver.

O pensamento foi tão rápido que a assustou.

Ela desviou o olhar, respirou fundo, tentando vestir novamente a máscara dócil. Mas quando tornou a encarar Helena, viu o momento exato em que ela se afastava do grupo.

Sozinha.

Helena caminhou com naturalidade até um estande próximo de tintas e entrou, observar as amostras expostas.

Silvia sentiu algo se encaixar dentro dela. Uma oportunidade. Um canto mais reservado. Menos olhos atentos. Um palco menor… mas suficiente.

Ela ergueu o queixo.

— Com licença — disse com suavidade, interrompendo Cássio no meio de uma frase.

Ele a olhou, levemente impaciente.

— Onde você vai?

— Só cumprimentar uma pessoa — respondeu com um sorriso leve demais para ser inocente.

Cássio não insistiu. Talvez estivesse cansado dela pousando como uma estátua pendurada em seu braço.

Silvia ajustou a alça da bolsa no ombro, alisou discretamente o tecido do vestido e começou a caminhar.

Não depressa. Não hesitante. Passos estudados. Elegantes.

Cada passada carregava intenção.

A cada metro que diminuía a distância entre elas, a raiva se transformava em algo mais frio. Mais preciso.

Se Helena queria brincar de luz... Silvia estava disposta a provar que sempre existiriam sombras mais fortes.

...

Helena sentiu a aproximação antes mesmo de vê-la. O perfume doce, excessivo, quase sufocante — tantas vezes impregnado nas roupas de Cássio — atravessou o ar como um aviso antigo. O estômago ameaçou se revoltar, mas ela engoliu o reflexo. Não daria a Silvia o menor sinal de fraqueza.

Então era isso... a isca tinha funcionado.

Mas Helena não estava ali para ser caçada. Estava ali para encerrar a caçada.

— Parabéns — Silvia disse ao se aproximar, com uma doçura exagerada na voz. — Nunca imaginei que uma dona de casa insignificante pudesse chegar tão longe.

Helena virou-se devagar. Não havia tensão nos ombros, nem surpresa nos olhos. Apenas observação.

— Imagino — respondeu, simples.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável.

Não para Helena.

Para Silvia.

— Engraçado… — continuou Silvia, inclinando levemente a cabeça enquanto fingia analisar as ripas pintadas do estande. — Seus discursos sempre soam presos ao passado. Ainda não superou?

Helena respirou fundo, mas mantendo o tom estável.

— É o que você acha?

Silvia soltou uma risada curta, quase desdenhosa.

— Você sempre romantiza a fraqueza. Isso é patético.

Helena a encarou então. Não com raiva. Com algo mais frio. Mais lúcido.

— Não. Eu só não tenho mais medo dela.

Aquilo atingiu Silvia como uma lâmina fina. Ela deu um passo à frente, diminuindo a distância.

— Você acha que venceu — murmurou. — Mas o mundo não funciona assim. Pessoas como você… sempre quebram de novo.

Helena não recuou.

— Pode ser. Mas quando acontece, eu junto meus pedaços. Não uso os dos outros.

Os olhos de Silvia endureceram.

— Você fala como se fosse melhor.

— Não sou — Helena respondeu, serena. — Só fiz escolhas diferentes.

Sua irritação agora era visível. Helena falava como se enxergasse além das palavras, como se lesse as intenções antes mesmo delas ganharem forma. Silvia decidiu atacar onde imaginava que mais doeria.

— Acho que você já sabe que vou me casar amanhã. Cássio agora é meu. A casa que era sua agora é minha. A cama que vocês dividiam… sou eu quem ocupa. — A mão deslizou teatralmente sobre o ventre. — E o filho dele… sou eu quem carrego.

Helena a observou e o que havia em seus olhos não era dor, era pena. Aquilo foi pior que qualquer insulto.

— Vai fingir que superou? — insistiu Silvia, pressionando.

Helena inclinou levemente a cabeça, como se estivesse genuinamente curiosa.

— Sério… você não cansa?

Silvia piscou, desconcertada.

Helena deixou escapar uma risada baixa, quase triste.

— Do jeito que você fala, parece que não queria nada disso. Como se tivesse agarrado tudo apenas para provar alguma coisa a si mesma… que é capaz de vencer alguém. — Ela fez uma pausa, sustentando o olhar. — Você não me provoca mais. Nem me assusta. E muito menos me define.

Silvia sentiu algo ceder dentro dela.

— Não se engane — cuspiu, a máscara começando a rachar. — Eu ainda posso acabar com você.

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