“A paz mais perigosa é aquela que antecede a tempestade.” Provérbio
Helena e os outros deixaram o pavilhão no início da tarde, quando o fluxo de visitantes começava a diminuir e o clima de encerramento pairava no ar. A equipe da Orsini permanecera no estande, preparada para desmontar e despachar as peças assim que o evento chegasse oficialmente ao fim.
Helena lançou um último olhar para o espaço que, durante os últimos dias, fora palco de reconhecimento, tensão e pequenas batalhas silenciosas. Havia ali mais do que móveis. Mas agora era hora de sair.
Almoçaram juntos em um restaurante discreto próximo à feira. A conversa oscilou entre comentários sobre o evento, especulações cautelosas sobre Silvia e tentativas conscientes de manter o clima leve. Santiago fazia esforço para arrancar sorrisos de Helena; Pedro mantinha-se atento ao entorno mesmo enquanto comia; Lívia, ainda indignada com tudo que ouvira na gravação, falava mais do que o habitual.
Depois do almoço, deixaram Santiago na galeria. Ele se inclinou para dar um beijo demorado na testa de Helena antes de sair do carro.
— Me liga se acontecer alguma coisa — pediu, baixo, só para ela.
— Ligo — respondeu, apertando-lhe a mão.
O carro voltou a se mover.
Pouco depois, Helena e Lívia seguiram com Pedro até o salão Aura Bela. A fachada elegante contrastava com o turbilhão interno que ainda vibrava sob a superfície do dia.
— Pelo menos uma parte dessa tarde vai ser relaxante — comentou Lívia, tentando aliviar o peso do que haviam vivido.
Helena sorriu de leve.
Relaxar.
A palavra parecia distante, mas necessária.
Enquanto o carro estacionava diante do salão, Helena respirou fundo. Entre ameaças veladas, decisões difíceis e mudanças iminentes, ainda havia espaço para pequenos rituais — cuidar de si, organizar o exterior enquanto o interior buscava equilíbrio.
E, naquele momento, ela precisava exatamente disso.
A verdade é que a noite ainda guardava outro compromisso importante.
A galeria sediaria uma exposição dedicada a Nicolas, o artista em vidro que colaborara com Helena na criação de algumas das novas peças da coleção Prisma.
Prestigiá-lo não era apenas uma formalidade profissional. Era reconhecimento. Era parceria. Era gratidão.
Por isso, apesar do dia exaustivo, Helena não cogitou faltar.
Lívia, no entanto, não estava disposta a deixá-la naquela altura dos acontecimentos.
— Não discute — avisou, cruzando os braços. — Eu vou. E fico com você o tempo que for preciso.
Helena tentou argumentar, mas desistiu diante do olhar firme da amiga. A verdade é que também se sentia mais calma com ela e seu humor pitoresco por perto.
— Um par de olhos a mais nunca é demais — completou Lívia, prática como sempre.
Pedro também organizaria o esquema de segurança de forma discreta. Nada ostensivo. Nada que transformasse a noite em um espetáculo de tensão. Mas suficiente para garantir que qualquer movimentação estranha fosse notada antes de se tornar problema.
Diogo recebeu Helena e Lívia com um grande sorriso, abrindo os braços em cumprimento. Sem perder a oportunidade, lançou um olhar desejoso na direção de Pedro — demorado e descarado o suficiente para arrancar uma risada da advogada.
— Cuidado, Diogo — ela provocou. — Ele morde.
— Eu gosto de desafios — ele rebateu, piscando.
A leveza daquele instante era quase um respiro.
Enquanto isso, Helena já se acomodava para se arrumar. Sentada diante do espelho iluminado do salão, permitiu-se desligar do restante. O burburinho ao redor parecia distante. Por alguns instantes, concentrou-se apenas no reflexo diante de si, tentando aquietar os pensamentos que insistiam em atravessar sua mente.
...
Do outro lado da cidade, a atmosfera era outra.
Silvia chegou na mansão dos Amaral e encontrou Esther e Viviane prontas para sair. As duas interromperam a conversa ao vê-la.
— Silvia? O que faz aqui? Pensei que estivesse com Cássio. — perguntou Esther, surpresa.
Silvia ergueu os olhos, deixando que o brilho úmido neles falasse antes das palavras. Vestia o semblante perfeito de cansaço e fragilidade.
— Eu… precisava passar aqui — respondeu, em voz baixa.
Viviane lançou um olhar curioso para a mãe, mas manteve-se em silêncio.
Esther aproximou-se, tocando-lhe o braço.
— O que aconteceu?
— Nada… não é importante — Silvia murmurou, desviando o olhar, como quem luta contra a própria vontade de falar.
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