Entrar Via

Quadros de um divórcio romance Capítulo 231

“A paz mais perigosa é aquela que antecede a tempestade.” Provérbio

Helena e os outros deixaram o pavilhão no início da tarde, quando o fluxo de visitantes começava a diminuir e o clima de encerramento pairava no ar. A equipe da Orsini permanecera no estande, preparada para desmontar e despachar as peças assim que o evento chegasse oficialmente ao fim.

Helena lançou um último olhar para o espaço que, durante os últimos dias, fora palco de reconhecimento, tensão e pequenas batalhas silenciosas. Havia ali mais do que móveis. Mas agora era hora de sair.

Almoçaram juntos em um restaurante discreto próximo à feira. A conversa oscilou entre comentários sobre o evento, especulações cautelosas sobre Silvia e tentativas conscientes de manter o clima leve. Santiago fazia esforço para arrancar sorrisos de Helena; Pedro mantinha-se atento ao entorno mesmo enquanto comia; Lívia, ainda indignada com tudo que ouvira na gravação, falava mais do que o habitual.

Depois do almoço, deixaram Santiago na galeria. Ele se inclinou para dar um beijo demorado na testa de Helena antes de sair do carro.

— Me liga se acontecer alguma coisa — pediu, baixo, só para ela.

— Ligo — respondeu, apertando-lhe a mão.

O carro voltou a se mover.

Pouco depois, Helena e Lívia seguiram com Pedro até o salão Aura Bela. A fachada elegante contrastava com o turbilhão interno que ainda vibrava sob a superfície do dia.

— Pelo menos uma parte dessa tarde vai ser relaxante — comentou Lívia, tentando aliviar o peso do que haviam vivido.

Helena sorriu de leve.

Relaxar.

A palavra parecia distante, mas necessária.

Enquanto o carro estacionava diante do salão, Helena respirou fundo. Entre ameaças veladas, decisões difíceis e mudanças iminentes, ainda havia espaço para pequenos rituais — cuidar de si, organizar o exterior enquanto o interior buscava equilíbrio.

E, naquele momento, ela precisava exatamente disso.

A verdade é que a noite ainda guardava outro compromisso importante.

A galeria sediaria uma exposição dedicada a Nicolas, o artista em vidro que colaborara com Helena na criação de algumas das novas peças da coleção Prisma.

Prestigiá-lo não era apenas uma formalidade profissional. Era reconhecimento. Era parceria. Era gratidão.

Por isso, apesar do dia exaustivo, Helena não cogitou faltar.

Lívia, no entanto, não estava disposta a deixá-la naquela altura dos acontecimentos.

— Não discute — avisou, cruzando os braços. — Eu vou. E fico com você o tempo que for preciso.

Helena tentou argumentar, mas desistiu diante do olhar firme da amiga. A verdade é que também se sentia mais calma com ela e seu humor pitoresco por perto.

— Um par de olhos a mais nunca é demais — completou Lívia, prática como sempre.

Pedro também organizaria o esquema de segurança de forma discreta. Nada ostensivo. Nada que transformasse a noite em um espetáculo de tensão. Mas suficiente para garantir que qualquer movimentação estranha fosse notada antes de se tornar problema.

Diogo recebeu Helena e Lívia com um grande sorriso, abrindo os braços em cumprimento. Sem perder a oportunidade, lançou um olhar desejoso na direção de Pedro — demorado e descarado o suficiente para arrancar uma risada da advogada.

— Cuidado, Diogo — ela provocou. — Ele morde.

— Eu gosto de desafios — ele rebateu, piscando.

A leveza daquele instante era quase um respiro.

Enquanto isso, Helena já se acomodava para se arrumar. Sentada diante do espelho iluminado do salão, permitiu-se desligar do restante. O burburinho ao redor parecia distante. Por alguns instantes, concentrou-se apenas no reflexo diante de si, tentando aquietar os pensamentos que insistiam em atravessar sua mente.

...

Do outro lado da cidade, a atmosfera era outra.

Silvia chegou na mansão dos Amaral e encontrou Esther e Viviane prontas para sair. As duas interromperam a conversa ao vê-la.

— Silvia? O que faz aqui? Pensei que estivesse com Cássio. — perguntou Esther, surpresa.

Silvia ergueu os olhos, deixando que o brilho úmido neles falasse antes das palavras. Vestia o semblante perfeito de cansaço e fragilidade.

— Eu… precisava passar aqui — respondeu, em voz baixa.

Viviane lançou um olhar curioso para a mãe, mas manteve-se em silêncio.

Esther aproximou-se, tocando-lhe o braço.

— O que aconteceu?

— Nada… não é importante — Silvia murmurou, desviando o olhar, como quem luta contra a própria vontade de falar.

Esther também demonstrava irritação, o cenho franzido ao pensar no próprio filho.

— Fique tranquila, filha. Eu vou conversar seriamente com ele.

— Não! — Silvia apressou-se em dizer, fingindo preocupação. — Eu tenho medo de que ele cancele o casamento por causa disso.

Ela pousou a mão sobre o ventre, num gesto carregado de fragilidade calculada.

— Não é segredo que Cássio não me ama… — Sua voz falhou levemente. — Ele só está se casando comigo por causa dessa criança.

— Seja por amor ou apenas por causa da criança, esse casamento vai acontecer — garantiu Esther, com firme convicção.

Silvia abaixou a cabeça, escondendo o leve sorriso que ameaçou surgir.

— Agora se recomponha. — Esther suavizou o tom. — Estávamos justamente saindo para buscar nossos vestidos, inclusive o seu. Vamos juntas, sim?

Silvia respirou fundo antes de erguer o rosto novamente, já com a expressão recomposta, pronta para continuar a encenação.

...

Após saírem do salão, Helena acompanhou Lívia até uma boutique para que ela comprasse um vestido para usar no evento. Ela mesma já havia separado a roupa que usaria naquela noite e a deixado no carro.

Pedro, pela primeira vez, não se deteve em esperar do lado de fora. Com o nível de ameaça mais elevado, seguiu-as para dentro da loja.

Helena sentou-se em um dos assentos estofados enquanto Lívia passeava entre as araras, analisando as opções e, de tempos em tempos, mostrando algo que chamava sua atenção.

Por fim, Lívia entrou em um dos provadores, levando consigo algumas das peças que havia separado. A cortina se fechou com um leve deslizar, isolando-a do restante da loja.

Do lado de fora, as funcionárias trocavam cochichos, tentando não parecer indiscretas. Depois de tantos escândalos envolvendo Cássio e Helena — amplamente explorados pela mídia, da live de desabafo e das recentes atualizações que Lívia vinha publicando nas redes sociais da amiga, Helena se tornara um rosto conhecido. Mais do que isso, havia despertado a admiração silenciosa de muitas mulheres.

Vê-la ali, porém, sem qualquer postura de superioridade, comportando-se com uma simplicidade quase tímida enquanto aguardava sentada, só aumentava ainda mais a simpatia que despertava. Não era a figura distante das manchetes, mas uma mulher real — cansada, elegante, vulnerável e, ainda assim, estranhamente forte.

Uma das funcionárias aproximou-se, perguntando se ela gostaria de uma taça de champanhe. Helena agradeceu com um sorriso discreto, mas dispensou a bebida alcoólica, dizendo que ficaria satisfeita com um suco. A jovem assentiu e se afastou para providenciar.

Pouco depois, Helena percebeu uma sombra projetando-se sobre si. Virou levemente a cabeça e encontrou Pedro posicionado ao seu lado, o semblante fechado, a atenção voltada para a porta da loja.

Seguindo a direção do olhar dele e lamentou a falta de sorte para encontros indesejados naquele. Respirou fundo, reunindo forças e preparando-se para o provável novo embate que estava prestes a enfrentar.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Quadros de um divórcio