“O mal prospera onde a reflexão é suspensa.” Hannah Arendt
Dentro do carro estacionado no amplo estacionamento da feira, o silêncio parecia mais denso do que o ar abafado do dia.
Lívia segurava o gravador ainda com o áudio pausado na pequena tela. Pedro mantinha os braços cruzados, olhar fixo no painel à frente. Santiago observava Helena de soslaio, atento a cada reação dela.
A gravação terminara há poucos segundos — mas as palavras ainda ecoavam.
O que na noite anterior soara como uma teoria ousada demais para ser real agora ganhava contornos inquietantemente concretos. A mudança no tom de Silvia ao ouvir o nome de Márcio não era sutil. Era brusca. O veneno calculado dera lugar a algo mais cru — medo, talvez. Ou pânico.
E isso nenhum deles podia ignorar.
— Ela tem envolvimento — disse Pedro por fim, com a objetividade de quem fora treinado para ler pessoas. — A postura dela mudou completamente.
Lívia expirou devagar, ainda analisando mentalmente cada inflexão da voz gravada.
— Concordo. Mas juridicamente… — ela ergueu o olhar — isso não prova nada. Não há confissão. É sugestivo. Só isso.
— Já é mais do que tínhamos ontem — retrucou Santiago, firme. Ele pousou a mão nas costas de Helena, num gesto protetor. — Pelo menos agora sabemos que não estamos atirando no escuro. Sabemos onde cavar.
Fez uma pausa e a encarou com mais intensidade.
— E você foi muito corajosa lá. Mas chega. Não vai mais se expor assim. Foi a primeira e última vez.
Helena não rebateu. Apenas respirou fundo.
Pedro inclinou-se levemente para frente, pensativo.
— Depois de ser confrontada, ela pode ficar ainda mais perigosa. Pessoas assim não recuam, reagem. Precisamos reforçar a vigilância. Ainda bem que vocês vão se mudar hoje. O apartamento é mais seguro.
Lívia, então, percebeu o silêncio prolongado de Helena.
— Ei… — segurou a mão da amiga. — O que foi?
Helena balançou a cabeça lentamente, como se tentasse organizar algo que não encaixava.
— Eu não sei… — murmurou. — Esse ódio gratuito dela não faz sentido. Quando eu disse o nome dele… não foi só medo. Havia… dor.
Ela fechou os olhos por um instante, revendo a expressão de Silvia.
— Era como se houvesse algo muito mais profundo ali. Algo quebrado demais.
Helena reconhecera nela algo que só quem já foi estilhaçada um dia é capaz de identificar em outro coração igualmente rachado.
— Você é boa demais, Helena. — Lívia bufou, impaciente.
— Não é isso… — Helena insistiu, mas a própria dúvida atravessava sua voz. — É como se ela estivesse em guerra com o mundo inteiro. E escolheu me usar como alvo. Talvez eu esteja viajando.
Santiago apertou levemente a mão dela, interrompendo a espiral.
— Já chega por hoje. — Seu tom era suave, mas definitivo. — Pedro, envia o áudio para o Marcelo. Ele é o único que vai saber o que fazer com isso por enquanto.
Pedro assentiu e começou a encaminhar o arquivo.
— Vamos voltar. — Santiago completou. — Sua equipe está esperando.
Helena respirou fundo mais uma vez, como quem guarda uma intuição para outro momento.
Abriram a porta, saíram juntos do carro e caminharam de volta para o pavilhão. Mas aquela sensação estranha acompanhou Helena a cada passo.
...
A praça de alimentação tinha seu burburinho próprio: talheres batendo em bandejas, vozes animadas comentando lançamentos, o chiado constante da fritura vindo de algum quiosque próximo. Mas a pequena mesa onde Tânia e Renato estavam sentados, estava em silêncio após compartilharem o que ambos presenciaram.
A marmita ainda fechada diante dele começava a esfriar.
Renato mantinha os olhos fixos em um ponto qualquer da mesa, como se tentasse organizar os próprios pensamentos.
— Você acha que a gente devia alertar o Cássio sobre a Silvia? — Tânia quebrou o silêncio, a voz baixa, quase receosa de que alguém pudesse ouvir.
Renato respirou fundo, passando a mão pelo rosto.
— E dizer o quê? — perguntou, sem levantar os olhos. — Que a gente “acha” ela estranha? Que temos uma impressão ruim dela?
Tânia se inclinou um pouco para frente.
— Não é só impressão. Eu vi a expressão dela quando ele se afasto, aquilo era… — ela hesitou, procurando a palavra certa — ódio.
— Eles se casam amanhã. Ela está grávida. Ele decidiu assumir isso como responsabilidade.
— Justamente por isso. Ele está fazendo isso por culpa, não por lucidez.
Renato balançou a cabeça devagar.

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