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Quadros de um divórcio romance Capítulo 230

“O mal prospera onde a reflexão é suspensa.” Hannah Arendt

Dentro do carro estacionado no amplo estacionamento da feira, o silêncio parecia mais denso do que o ar abafado do dia.

Lívia segurava o gravador ainda com o áudio pausado na pequena tela. Pedro mantinha os braços cruzados, olhar fixo no painel à frente. Santiago observava Helena de soslaio, atento a cada reação dela.

A gravação terminara há poucos segundos — mas as palavras ainda ecoavam.

O que na noite anterior soara como uma teoria ousada demais para ser real agora ganhava contornos inquietantemente concretos. A mudança no tom de Silvia ao ouvir o nome de Márcio não era sutil. Era brusca. O veneno calculado dera lugar a algo mais cru — medo, talvez. Ou pânico.

E isso nenhum deles podia ignorar.

— Ela tem envolvimento — disse Pedro por fim, com a objetividade de quem fora treinado para ler pessoas. — A postura dela mudou completamente.

Lívia expirou devagar, ainda analisando mentalmente cada inflexão da voz gravada.

— Concordo. Mas juridicamente… — ela ergueu o olhar — isso não prova nada. Não há confissão. É sugestivo. Só isso.

— Já é mais do que tínhamos ontem — retrucou Santiago, firme. Ele pousou a mão nas costas de Helena, num gesto protetor. — Pelo menos agora sabemos que não estamos atirando no escuro. Sabemos onde cavar.

Fez uma pausa e a encarou com mais intensidade.

— E você foi muito corajosa lá. Mas chega. Não vai mais se expor assim. Foi a primeira e última vez.

Helena não rebateu. Apenas respirou fundo.

Pedro inclinou-se levemente para frente, pensativo.

— Depois de ser confrontada, ela pode ficar ainda mais perigosa. Pessoas assim não recuam, reagem. Precisamos reforçar a vigilância. Ainda bem que vocês vão se mudar hoje. O apartamento é mais seguro.

Lívia, então, percebeu o silêncio prolongado de Helena.

— Ei… — segurou a mão da amiga. — O que foi?

Helena balançou a cabeça lentamente, como se tentasse organizar algo que não encaixava.

— Eu não sei… — murmurou. — Esse ódio gratuito dela não faz sentido. Quando eu disse o nome dele… não foi só medo. Havia… dor.

Ela fechou os olhos por um instante, revendo a expressão de Silvia.

— Era como se houvesse algo muito mais profundo ali. Algo quebrado demais.

Helena reconhecera nela algo que só quem já foi estilhaçada um dia é capaz de identificar em outro coração igualmente rachado.

— Você é boa demais, Helena. — Lívia bufou, impaciente.

— Não é isso… — Helena insistiu, mas a própria dúvida atravessava sua voz. — É como se ela estivesse em guerra com o mundo inteiro. E escolheu me usar como alvo. Talvez eu esteja viajando.

Santiago apertou levemente a mão dela, interrompendo a espiral.

— Já chega por hoje. — Seu tom era suave, mas definitivo. — Pedro, envia o áudio para o Marcelo. Ele é o único que vai saber o que fazer com isso por enquanto.

Pedro assentiu e começou a encaminhar o arquivo.

— Vamos voltar. — Santiago completou. — Sua equipe está esperando.

Helena respirou fundo mais uma vez, como quem guarda uma intuição para outro momento.

Abriram a porta, saíram juntos do carro e caminharam de volta para o pavilhão. Mas aquela sensação estranha acompanhou Helena a cada passo.

...

A praça de alimentação tinha seu burburinho próprio: talheres batendo em bandejas, vozes animadas comentando lançamentos, o chiado constante da fritura vindo de algum quiosque próximo. Mas a pequena mesa onde Tânia e Renato estavam sentados, estava em silêncio após compartilharem o que ambos presenciaram.

A marmita ainda fechada diante dele começava a esfriar.

Renato mantinha os olhos fixos em um ponto qualquer da mesa, como se tentasse organizar os próprios pensamentos.

— Você acha que a gente devia alertar o Cássio sobre a Silvia? — Tânia quebrou o silêncio, a voz baixa, quase receosa de que alguém pudesse ouvir.

Renato respirou fundo, passando a mão pelo rosto.

— E dizer o quê? — perguntou, sem levantar os olhos. — Que a gente “acha” ela estranha? Que temos uma impressão ruim dela?

Tânia se inclinou um pouco para frente.

— Não é só impressão. Eu vi a expressão dela quando ele se afasto, aquilo era… — ela hesitou, procurando a palavra certa — ódio.

— Eles se casam amanhã. Ela está grávida. Ele decidiu assumir isso como responsabilidade.

— Justamente por isso. Ele está fazendo isso por culpa, não por lucidez.

Renato balançou a cabeça devagar.

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