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Quadros de um divórcio romance Capítulo 232

“A falsidade tem mil disfarces; a verdade, apenas um rosto.” Montesquieu

Apesar de prever que aquele encontro não traria nada de bom, Helena ainda achou um certo humor na expressão nítida de desgosto de Pedro. Nem mesmo o segurança — sempre tão sério e quase impenetrável — conseguiu disfarçar o desprezo evidente.

Ela desviou o olhar de volta para as roupas, como se as pessoas que acabaram de entrar fosse apenas algumas clientes quaisquer, com a postura relaxada e o aparente desinteresse.

Com o cabelo recém-arrumado e a maquiagem leve suavizando seus traços, Helena parecia ainda mais serena. Foi exatamente essa calma que fez o ódio de Silvia se intensificar no instante em que seus olhos pousaram nela.

O que ela estava fazendo ali? E como ela podia estar tão tranquila enquanto ela própria atravessava um inferno por culpa dela?

Silvia fechou os punhos até que os nós dos dedos empalidecessem, as unhas cravando na pele sensível das próprias mãos numa tentativa inútil de conter a fúria que subia como uma onda.

Esther e Viviane também a viram e fizeram questão de parar a poucos passos de distância, em um gesto deliberado.

Viviane lançou um olhar carregado de irritação para o segurança, lembrando-se do pisão de alguns dias antes. Embora estivesse melhor, o pé ainda latejava, e a memória do ocorrido só alimentava seu mau humor.

A funcionária que retornava com o copo de suco hesitou ao perceber o clima tenso.

Viviane se autodenominava influenciadora e, apesar de não obter grande sucesso com suas postagens, havia se tornado mais conhecida justamente por todo o enredo obscuro envolvendo Cássio e Helena. Até mesmo a imagem de Silvia se espalhara por causa dos furos escandalosos sobre o caso extraconjugal.

A jovem desviou o olhar para Helena, que permanecia aparentemente calma, e caminhou até ela, entregando o copo com um gesto cuidadoso.

— Obrigada — disse Helena, oferecendo um sorriso gentil.

A funcionária assentiu educadamente e se afastou quase às pressas, visivelmente desconfortável com o peso do ambiente.

— Se eu soubesse que este estabelecimento é tão mal frequentado, teria encomendado nossos vestidos em outro lugar — disparou Esther, com a voz carregada de desprezo.

Helena levou o copo aos lábios e tomou um gole da bebida gelada, ignorando-a por completo. A indiferença só fez a irritação da senhora crescer.

— Ela deve ter vindo espionar o vestido da minha nova cunhada — debochou Viviane, frustrada por ainda não conseguir arrancar qualquer reação.

Silvia acompanhava tudo em silêncio, os músculos tensos. Depois do que acontecera pela manhã, sabia que era mais prudente não se expor e deixar que as outras duas assumissem o confronto.

— Vai continuar fingindo que não se importa? — provocou Esther, soltando uma risada desdenhosa.

Helena ergueu os olhos lentamente para elas, o rosto ainda indecifrável. Em seguida, desviou o olhar para Pedro.

— Seria bom aconselhar o dono a dedetizar este lugar… não acha?

Pedro deixou escapar uma risada abafada, rapidamente contida, lutando para manter a postura profissional.

Viviane bateu o pé bom no chão, exasperada.

— Você… — bufou, tentando controlar a própria fúria. — Você ainda é obcecada pelo meu irmão. Fica aí fingindo que não, mas só o fato de ter provocado a Silvia hoje já prova isso.

Esther balançou a cabeça em desaprovação, como se confirmasse a acusação.

Helena permaneceu em silêncio por alguns segundos, como se ponderasse se valia a pena responder. Então pousou o copo sobre a mesinha ao lado com um cuidado quase cerimonial.

Quando voltou a falar, sua voz saiu baixa — calma demais para o clima que se formara.

— Foi isso que ela contou a vocês? Que eu a provoquei?

Ergueu uma sobrancelha e lançou um olhar direto para Silvia.

Esther e Viviane, surpresas com a postura de helena, também se voltaram para Silvia, como se passassem a avaliar outra versão dos fatos.

Percebendo que agora era dela que esperavam uma resposta, Silvia se apressou em se defender.

— E não foi isso que aconteceu? — retrucou, elevando ligeiramente o queixo. — Eu e o Cássio vamos nos casar amanhã. Não sei por que você ainda não aceita isso.

Helena balançou a cabeça, divertindo-se com o teatro, e desviou o olhar como quem perde o interesse.

— Acha mesmo que ainda tem alguma importância na vida do Cássio? — disparou Esther, incapaz de conter o desprezo. — O fato de você ter saído das nossas vidas foi a maior bênção que poderia nos acontecer.

Helena assentiu levemente, como se concordasse.

— Deve ser difícil para você ver meu filho feliz com outra pessoa… alguém muito melhor que você — acrescentou Esther.

Helena continuou assentindo a cada nova provocação, a expressão tranquila demais para quem deveria estar sendo ferida. Aos poucos, as palavras começaram a perder força, até que o silêncio se instalou — sinal claro de que haviam esgotado os próprios ataques.

— Que bom que você concorda com tudo — disse Viviane, tentando recuperar a superioridade. — Pelo menos sabe o seu lugar.

Helena finalmente voltou a encará-las.

— Estou concordando porque discordar de idiotas só os faz falarem mais.

O olhar que lançou em seguida foi firme, quase desafiador.

Do balcão, algumas funcionárias que acompanhavam discretamente a cena deixaram escapar uma risada abafada. Mesmo baixa, foi suficiente para ser ouvida — e para deixar as três mulheres visivelmente desconcertadas. A sensação de triunfo evaporou num instante, substituída por um constrangimento ácido.

— Ela só está se achando porque arrumou outro homem para bancá-la — disparou Viviane, ferida.

— Exatamente. — Esther deu um passo à frente, os olhos brilhando de raiva. — Passou anos encostada no meu filho. Sem ele, você não seria ninguém.

No provador, o som da cortina sendo aberta anunciou o retorno de Lívia.

A advogada, que até então estivera concentrada nas provas dos vestidos, não ouvira toda a conversa, mas captara claramente a última frase. Aproximou-se com passos firmes, a expressão dura.

— É mesmo? — perguntou, cruzando os braços diante das três.

Silvia sentiu um arrepio percorrer a espinha.

— Porque, até onde eu me lembro, Helena possui um documento de um acordo no valor de noventa milhões que contradiz completamente isso.

Lívia estendeu a mão para a bolsa, já buscando o celular.

— Isso não vai ficar assim. Você ainda vai me pagar por tudo isso.

Antes que Helena respondesse, Lívia deu mais um passo e se colocou ao lado da amiga, a postura firme como uma barreira.

— Quer que eu acrescente ameaça à lista também?

O tom calmo tornou a pergunta ainda mais intimidante.

Esther hesitou, visivelmente desconcertada. Pela primeira vez parecia perceber que talvez tivesse ido longe demais — e que cada palavra poderia ter consequências.

Mas Lívia ainda não havia terminado.

— Não basta sua futura nora e o amiguinho desaparecido dela… — disse, o olhar frio fixo em Silvia — a senhora também pretende tentar fazer algo contra a minha cliente?

Silvia sentiu as extremidades gelarem, o susto atravessando seu rosto por um breve instante. Mais uma vez aquele assunto vinha à tona — e, pior, agora diante de Esther. Permanecer ali poderia gerar perguntas, e isso era tudo o que ela queria evitar.

Aproximou-se da sogra e tocou-lhe o cotovelo com delicadeza, a voz carregada de uma preocupação cuidadosamente encenada.

— É melhor irmos atrás da Viviane. Podemos voltar depois.

Esther ainda hesitou, lançando um último olhar carregado para Helena.

— Está bem. Mas que fique claro que só estou saindo por causa da minha filha, não por medo de vocês.

Assim que as duas se afastaram, Helena deixou escapar um suspiro cansado, como se finalmente pudesse soltar o peso que mantinha contido. Lívia, ao contrário, observou cada passo delas rumo à saída com evidente satisfação.

Quando a advogada voltou o olhar para Pedro, encontrou-o observando-a de um jeito diferente, o que a deixou inesperadamente sem graça.

— O que foi? — perguntou.

Ele esboçou um sorriso de canto, enigmático.

— Nada.

Mas o olhar dele dizia que havia muito mais por trás daquela resposta.

Lívia então voltou-se para Helena, já recomposta.

— Já escolhi qual vou levar. Vou pagar e podemos ir.

— Certo. — Helena assentiu. — E… obrigada por lidar com isso.

Lívia abriu um sorriso satisfeito.

— Eu que agradeço. Adoro colocar esse tipo de gente no devido lugar. Me sinto revigorada.

Disse isso enquanto se dirigia ao caixa quase saltitando, arrancando uma risada espontânea de Helena — e até de Pedro.

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