“E, apesar de tudo, amanhã é um novo dia.” Margaret Mitchell
Silvia deixou a loja ao lado de Esther. A sogra continuava despejando comentários raivosos sobre Helena, mas as palavras chegavam até ela como um ruído distante. Sua mente estava presa a uma única frase, repetida em um eco incômodo: “seu amiguinho desaparecido”.
Primeiro Helena mencionara o nome de Márcio pela manhã. Agora aquilo.
Uma nova onda de pânico a atravessou, fria e sufocante, enquanto Esther tentava, sem sucesso, contato com a filha pelo telefone.
Helena não tocaria no nome de Márcio sem motivo. Lívia muito menos faria aquela insinuação ao acaso. Eles sabiam de alguma coisa.
Mas… o quê exatamente?
Será que já tinham descoberto tudo?
Impossível.
Se soubessem, ela já estaria presa àquela altura. Não estaria ali, livre, respirando o ar da rua, ouvindo os saltos de Esther batendo nervosamente no piso de pedra.
Então o que? Estariam apenas tentando intimidá-la? Ligando pontos soltos? Apostando numa reação que a entregasse?
Silvia mordeu o interior da boca com força, o gosto metálico do sangue surgindo quase de imediato.
Se aquilo não passava de uma estratégia… talvez ela mesma tivesse arruinado tudo naquela manhã.
— Silvia… você está bem? — perguntou Esther, interrompendo o turbilhão.
Ela piscou algumas vezes, forçando-se a voltar ao presente, e balançou a cabeça numa tentativa de parecer composta.
A sogra interpretou o comportamento de Silvia como mero ciúme.
— Fique tranquila, minha filha. Aquela mulher não tem mais chance com o meu filho.
Silvia forçou um sorriso, mas por dentro pensava nas próprias chances — não no amor de Cássio, e sim na sobrevivência da situação que a cercava.
Fosse o que fosse que ainda precisava fazer para manter o controle, teria de agir rápido.
...
A noite caiu, e Helena já se encontrava no salão da galeria ao lado dos amigos. Além de Pedro, Marcelo havia mobilizado mais dois seguranças para circularem discretamente pelo evento. Ele próprio também permanecia presente, atento a cada movimento.
Santiago caminhava de mãos dadas com Helena, observando as peças expostas com interesse genuíno. O gesto simples — os dedos entrelaçados — transmitia uma intimidade tranquila, quase protetora.
Logo atrás, Lívia e Pedro seguiam em uma conversa paralela, em tom baixo, como se também preferissem manter um olho na movimentação ao redor.
Nicolas aproximou-se com um sorriso caloroso para cumprimentá-los.
— Está tudo maravilhoso — elogiou Helena, olhando ao redor. — É realmente inspirador.
— Fico lisonjeado — respondeu o escultor, satisfeito. — Santiago me contou que em breve você também fará sua exposição…
Helena pareceu um pouco sem graça diante da expectativa.
— Bem… sim. Mas ainda vai demorar um pouquinho.
— Espero que não tanto. Estou ansioso para conhecer sua arte. Se no design você já é excelente, imagino na pintura.
— Ela é incrível, pode acreditar — acrescentou Santiago, com convicção tranquila.
Nicolas assentiu, claramente confiante de que o galerista não exagerava.
— Vou aproveitar para cumprimentar outros convidados. Sintam-se à vontade. Conversamos novamente mais tarde.
Com um último sorriso cordial, ele se afastou, deixando-os novamente entre as obras e o burburinho elegante do evento.
Assim que Nicolas se afastou, o som suave da música voltou a preencher o espaço, misturando-se ao burburinho elegante das conversas e ao tilintar discreto das taças. A iluminação da galeria era cálida e cuidadosamente direcionada, criando halos dourados sobre cada escultura e fazendo com que as superfícies de vidro capturassem a luz como pequenas estrelas suspensas no ar.
As paredes claras contrastavam com as peças expostas, destacando texturas, transparências e sombras projetadas no chão polido. O perfume caro dos convidados misturava-se ao aroma leve de flores brancas distribuídas em arranjos minimalistas, compondo uma atmosfera sofisticada, quase etérea.
— Quando for a sua vez — disse Santiago, passando o braço pela cintura dela — este lugar vai ficar pequeno.
Helena soltou uma pequena risada, tímida.
— Você sempre exagera.
— Não — respondeu ele, sem hesitar. — Eu só conheço o seu potencial.
O olhar que trocaram foi silencioso, íntimo, carregado de coisas que nenhum dos dois precisava dizer em voz alta.
A proximidade entre os dois não passou despercebida. Um dos repórteres que circulavam discretamente pelo salão aproximou-se, gravador em mãos e um sorriso profissional nos lábios.
— Olá, poderiam me conceder algumas palavras?
Santiago voltou-se para ele sem soltar a mão de Helena.
— Claro — respondeu com gentileza.
O jornalista ajeitou a postura, claramente animado com a oportunidade.
— Senhor Villar, além de suas galerias estarem entre as mais conceituadas do país, o senhor também é reconhecido como um mecenas, responsável por descobrir e impulsionar novos talentos. A que atribui tanto sucesso?
Santiago refletiu por um breve instante antes de responder, o tom sereno e seguro.
— Acho que o essencial é aprender a enxergar além do que os olhos mostram. Quando um artista consegue tocar você com o que cria, provavelmente há ali algo verdadeiro — e isso costuma ser promissor. Às vezes, tudo o que falta é um pequeno empurrão. Nós apenas abrimos caminhos… o sucesso, na verdade, é mérito deles.
Aquela noite, sem dúvida, marcaria um ponto importante em sua carreira.
Assim como fizera com as entrevistas anteriores, o repórter transferiu o áudio e as fotografias para o editor responsável pelas matérias online da revista de arte. Pouco tempo depois, o texto foi publicado na página oficial — e, em questão de minutos, começou a se espalhar.
Perfis culturais compartilharam primeiro, seguidos por colunas sociais e, inevitavelmente, por portais mais interessados em escândalos do que em arte.
A fotografia romântica — e, acima de tudo, genuína — acompanhava a matéria. O olhar trocado entre os dois, suave e íntimo, quase alheio ao mundo ao redor, conferia à imagem uma aura de cumplicidade impossível de encenar. Não havia exagero na pose nem teatralidade calculada, apenas a sensação inequívoca de duas pessoas que pertenciam uma à outra.
Horas depois, a foto já estampava a capa digital de uma das colunas sociais mais lidas do país.
“ARTE, AMOR E RECOMEÇO — Helena Amaral surge ao lado do noivo Santiago Villar e confirma nova fase pessoal e profissional.”
O corpo da matéria reunia fragmentos recentes da trajetória de Helena, construindo uma espécie de linha do tempo emocional. Havia registros dela representando a Orsini na Haus Decor Show de mais cedo, imagens ao lado da equipe diante do estande repleto de móveis que atraíam olhares, trechos de suas falas inspiradoras durante o evento e o vídeo promocional da coleção Prisma. Também apareciam fotos do noivado retiradas das redes sociais do casal e até a gravação da live em que ela expusera suas dores e vulnerabilidades.
Entre conquistas e cicatrizes, o texto desenhava o retrato de uma mulher que emergia das sombras do passado com uma força silenciosa e persistente — alguém que não apenas sobrevivera, mas decidira recomeçar.
Nos comentários, a repercussão crescia como uma onda.
“Ela parece muito mais feliz agora.”
“Ele olha para ela como se fosse a única pessoa no mundo.”
“Finalmente alguém que a valoriza.”
“Cássio não se casa amanhã? Isso vai dar o que falar…”
“E aquele sujeito desaparecido suspeito de atacar ela… já encontraram?”
Havia também mensagens mais ácidas, questionando a rapidez do noivado ou insinuando interesses financeiros, mas eram rapidamente soterradas pelo volume de apoio e admiração.
Para muitos, aquela imagem simbolizava um recomeço.
Para outros, uma provocação silenciosa.
Para quem conhecia a história completa, era quase um manifesto.
Na galeria, a repercussão impulsionou ainda mais o evento. O nome de Helena voltou a circular não apenas como personagem de escândalos, mas como artista promissora e mulher reconstruída — alguém que começava a ser reconhecida por sua própria trajetória, e não apenas pelo passado que tentara defini-la.
Ela parecia tranquila… mas seus dedos ainda se contraíam discretamente ao ouvir o próprio nome ecoar entre desconhecidos.
E, em algum lugar da cidade, a fotografia brilhava na tela de outros olhos.
Olhos que não a contemplavam com admiração.
Aquele sorriso tranquilo. Aquela paz aparente. Aquela felicidade que simplesmente não deveria existir.

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