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Quadros de um divórcio romance Capítulo 233

“E, apesar de tudo, amanhã é um novo dia.” Margaret Mitchell

Silvia deixou a loja ao lado de Esther. A sogra continuava despejando comentários raivosos sobre Helena, mas as palavras chegavam até ela como um ruído distante. Sua mente estava presa a uma única frase, repetida em um eco incômodo: “seu amiguinho desaparecido”.

Primeiro Helena mencionara o nome de Márcio pela manhã. Agora aquilo.

Uma nova onda de pânico a atravessou, fria e sufocante, enquanto Esther tentava, sem sucesso, contato com a filha pelo telefone.

Helena não tocaria no nome de Márcio sem motivo. Lívia muito menos faria aquela insinuação ao acaso. Eles sabiam de alguma coisa.

Mas… o quê exatamente?

Será que já tinham descoberto tudo?

Impossível.

Se soubessem, ela já estaria presa àquela altura. Não estaria ali, livre, respirando o ar da rua, ouvindo os saltos de Esther batendo nervosamente no piso de pedra.

Então o que? Estariam apenas tentando intimidá-la? Ligando pontos soltos? Apostando numa reação que a entregasse?

Silvia mordeu o interior da boca com força, o gosto metálico do sangue surgindo quase de imediato.

Se aquilo não passava de uma estratégia… talvez ela mesma tivesse arruinado tudo naquela manhã.

— Silvia… você está bem? — perguntou Esther, interrompendo o turbilhão.

Ela piscou algumas vezes, forçando-se a voltar ao presente, e balançou a cabeça numa tentativa de parecer composta.

A sogra interpretou o comportamento de Silvia como mero ciúme.

— Fique tranquila, minha filha. Aquela mulher não tem mais chance com o meu filho.

Silvia forçou um sorriso, mas por dentro pensava nas próprias chances — não no amor de Cássio, e sim na sobrevivência da situação que a cercava.

Fosse o que fosse que ainda precisava fazer para manter o controle, teria de agir rápido.

...

A noite caiu, e Helena já se encontrava no salão da galeria ao lado dos amigos. Além de Pedro, Marcelo havia mobilizado mais dois seguranças para circularem discretamente pelo evento. Ele próprio também permanecia presente, atento a cada movimento.

Santiago caminhava de mãos dadas com Helena, observando as peças expostas com interesse genuíno. O gesto simples — os dedos entrelaçados — transmitia uma intimidade tranquila, quase protetora.

Logo atrás, Lívia e Pedro seguiam em uma conversa paralela, em tom baixo, como se também preferissem manter um olho na movimentação ao redor.

Nicolas aproximou-se com um sorriso caloroso para cumprimentá-los.

— Está tudo maravilhoso — elogiou Helena, olhando ao redor. — É realmente inspirador.

— Fico lisonjeado — respondeu o escultor, satisfeito. — Santiago me contou que em breve você também fará sua exposição…

Helena pareceu um pouco sem graça diante da expectativa.

— Bem… sim. Mas ainda vai demorar um pouquinho.

— Espero que não tanto. Estou ansioso para conhecer sua arte. Se no design você já é excelente, imagino na pintura.

— Ela é incrível, pode acreditar — acrescentou Santiago, com convicção tranquila.

Nicolas assentiu, claramente confiante de que o galerista não exagerava.

— Vou aproveitar para cumprimentar outros convidados. Sintam-se à vontade. Conversamos novamente mais tarde.

Com um último sorriso cordial, ele se afastou, deixando-os novamente entre as obras e o burburinho elegante do evento.

Assim que Nicolas se afastou, o som suave da música voltou a preencher o espaço, misturando-se ao burburinho elegante das conversas e ao tilintar discreto das taças. A iluminação da galeria era cálida e cuidadosamente direcionada, criando halos dourados sobre cada escultura e fazendo com que as superfícies de vidro capturassem a luz como pequenas estrelas suspensas no ar.

As paredes claras contrastavam com as peças expostas, destacando texturas, transparências e sombras projetadas no chão polido. O perfume caro dos convidados misturava-se ao aroma leve de flores brancas distribuídas em arranjos minimalistas, compondo uma atmosfera sofisticada, quase etérea.

— Quando for a sua vez — disse Santiago, passando o braço pela cintura dela — este lugar vai ficar pequeno.

Helena soltou uma pequena risada, tímida.

— Você sempre exagera.

— Não — respondeu ele, sem hesitar. — Eu só conheço o seu potencial.

O olhar que trocaram foi silencioso, íntimo, carregado de coisas que nenhum dos dois precisava dizer em voz alta.

A proximidade entre os dois não passou despercebida. Um dos repórteres que circulavam discretamente pelo salão aproximou-se, gravador em mãos e um sorriso profissional nos lábios.

— Olá, poderiam me conceder algumas palavras?

Santiago voltou-se para ele sem soltar a mão de Helena.

— Claro — respondeu com gentileza.

O jornalista ajeitou a postura, claramente animado com a oportunidade.

— Senhor Villar, além de suas galerias estarem entre as mais conceituadas do país, o senhor também é reconhecido como um mecenas, responsável por descobrir e impulsionar novos talentos. A que atribui tanto sucesso?

Santiago refletiu por um breve instante antes de responder, o tom sereno e seguro.

— Acho que o essencial é aprender a enxergar além do que os olhos mostram. Quando um artista consegue tocar você com o que cria, provavelmente há ali algo verdadeiro — e isso costuma ser promissor. Às vezes, tudo o que falta é um pequeno empurrão. Nós apenas abrimos caminhos… o sucesso, na verdade, é mérito deles.

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