Cap.6
Antes que o aroma do café pudesse reunir todos na cozinha, Mima pegou Maju suavemente pelo braço e a guiou para uma pequena sala de estar adjacente, fechando a porta com um clique suave.
A sala era íntima, com estantes vazias e duas poltronas voltadas para a janela. O ar estava parado, carregado de uma seriedade que contrastava com a alegria matinal do resto da casa.
Mima se virou para Maju, seus olhos sérios escaneando o rosto mais jovem.
— Já sabe do que eu quero conversar, certo?
Maju cruzou os braços, numa postura defensiva instantânea.
— Sim. E já disse que não gosto do Axel. Não do jeito que você está pensando.
— Não disse que você gosta dele especificamente de um jeito apaixonado — Mima corrigiu. Sua voz era calma, mas firme como aço. — Disse que você gosta dele. Da atenção dele, da proteção, da maneira como ele te trata diferente. E é perigoso, Maju. É melhor manter distância.
Maju franziu a testa, com um misto de frustração e mágoa.
— Mantenho distância! Ele vai embora, e até onde eu ouvi, parece que já tem alguém em seu coração. Eu não sou tola, Mima. Prometo que vou me dedicar a estudar, só isso.
Mima suspirou, e seu olhar perdeu um pouco da dureza, revelando uma preocupação genuína.
— Muito bem. E não estou fazendo isso pensando no seu mal. Olha a Selene: ela é de duas famílias poderosas, pode ser protegida de certas… consequências. Mas nós, que na verdade não temos ninguém além de nós mesmas, não podemos ter esse luxo. Aprendi da pior forma que é melhor a segurança do que se envolver com coisas que não podemos controlar.
Ela fez uma pausa, escolhendo as palavras com um cuidado doloroso.
— Afinal… se você não percebeu, as mães de cada um deles nem mesmo estão vivas. Ou desapareceram de forma suspeita. Pode ser um caminho triste, solitário e perigoso para uma mulher que queira permanecer ao lado de qualquer um desses homens. O mundo deles consome o que está por perto. Por isso, não crie expectativas. Nem mesmo se, um dia, ele demonstrar gostar de você. É melhor viver uma vida dura e digna do que uma vida com um amor que, por mais que te proteja, pode acabar te negligenciando e te matando.
— Mima… você fala com uma convicção de quem já teve que lidar com uma situação assim…
— Não é bem isso… Ultimamente tenho pensado em meu passado, tentando me lembrar das coisas antes do orfanato e, sinceramente, não tive uma boa vida. Minha mãe também morreu bem cedo, e ela era saudável. Quando vivi com meu pai, só era maltratada, mas não sei que vida ele levava, quem ele era… Sei que minha irmã também sofreu muito até que fomos descartadas, e o restante você já sabe. Se um dia você encontrar alguém, que seja um homem bom… para que no futuro você consiga viver bem.
Maju olhou para as mãos, a mensagem pesando em seu coração jovem. Ela sentiu a verdade cruel nas palavras de Mima. Era um alerta vindo de alguém que também conhecia a dor e a luta pela sobrevivência.
— Tudo bem — disse ela finalmente, erguendo a cabeça com uma determinação frágil. — Além disso, ele não é o último homem da face da terra.
Um sorriso verdadeiro, embora cansado, surgiu no rosto de Mima.
— Isso. E quando você for para a faculdade, vai conhecer muitos homens bonitos, inteligentes… normais. Falando nisso, quando você for, eu, a Katleia e a Gildete vamos estar na mesma universidade. A Selene também, claro. Vamos construir nossas coisas juntas. Nossa própria fortaleza.
O coração de Maju se aqueceu um pouco com a ideia. Ela não estava sozinha.
— Soa como um bom plano.
— É o único plano — concluiu Mima, abrindo a porta. — Vamos. O café deve estar quase pronto.



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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!