Cap.84
(POv. Átila Felix)
O silêncio dentro do carro era tão espesso que eu poderia cortá-lo com a mesma Katana que eu adoraria enfiar nas costas de Axel agora mesmo.
Eu estava sentado ao volante, sentindo cada músculo do meu corpo reclamar de uma exaustão que eu não sentia há anos.
O efeito daquela droga maldita tinha passado, deixando para trás apenas uma dor de cabeça latente e uma montanha de vergonha, mas não posso negar a noite foi uma das melhores, ainda assim...
Traição! Essa era a única palavra. Axel, meu próprio sangue, tinha me abandonado naquele inferno químico, à mercê de Rose, a ponto de eu ter que ser resgatado por três meninas.
Eu, um Felix. Um dos pilares do Corvo o segundo líder dessa montanha fodida instalada na cidade, eu? Eu... o mestre das espadas... nessa desgraça. Salvo por adolescentes com planos improvisados, eu? Onde está minha dignidade agora?
Ao meu lado, Katleia parecia querer se fundir ao banco de couro. Ela não me encarava. Seus dedos brincavam nervosamente com a barra do vestido que eu tive que comprar as pressas que or acaso ela estava criminalmente linda e suas bochechas mantinham um tom de rosa que não desaparecia.
— Depois que o efeito da droga passa... só resta a vergonha — murmurei para mim mesmo, batendo os dedos no volante.
Olhei para ela de soslaio. Uma dúvida ridícula brotou na minha mente, talvez uma tentativa desesperada do meu ego de dividir a culpa.
— Você... — limpei a garganta, soando mais cético do que pretendia. — Você também estava drogada?
Katleia virou o rosto bruscamente, os olhos castanhos esbugalhados de choque.
— O quê? Não! Claro que não!
— Bebeu alguma coisa que a Rose te deu? — insisti, arqueando uma sobrancelha.
— Não, Átila! Eu estava perfeitamente lúcida! — ela exclamou, ultrajada.
Voltei a encarar o retrovisor, sem reação. Soltei um suspiro pesado, parte alívio, parte desespero.
— Bom... ao menos não vou sentir culpa por ter me aproveitado de uma garota drogada. Se você estava consciente, a responsabilidade é dividida.
Mas o brilho de indignação nos olhos dela sumiu, dando lugar a uma tristeza repentina.
Ela baixou a cabeça, escondendo o rosto atrás dos fios de cabelo.
— Você vai dizer que aquilo foi um erro? — ela perguntou, a voz tão baixa que quase se perdeu no motor do carro. — Que não vai mais acontecer? Que foi só o remédio?
Senti um aperto desconfortável no peito. Eu não era bom com sentimentos, especialmente os que não envolviam poder ou proteção bruta.
Mas vê-la murchar daquele jeito, depois de tudo o que ela enfrentou por mim naquela suíte, quebrou minha barreira de frieza.
— Escuta — eu disse, parando o carro um pouco antes do portão lateral do hotel. — Agora que aconteceu, já foi. Eu não sou homem de inventar desculpas ou me esconder atrás de um frasco de pílulas. Eu assumo minhas responsabilidades.
Ela me olhou, esperançosa.
— Isso só não vai acontecer de novo se você não quiser — continuei, encarando-a seriamente. — Mas uma coisa é certa, Katleia, não sei se no momento em que eu colocar os pés na mansão d da ponte, estarei vivo para o dia seguinte. Meu pai e o Embaixador vão querer meu fígado em uma bandeja? Sim, mas vai ser arrancado por Selene e Gildete!
— Então não entre! — ela disse, segurando meu braço com urgência. — Fuja, Átila.
Eu ri, um som seco. Fugir não era uma opção para um Felix. Antes que eu pudesse responder, o celular dela vibrou. Era Guilhermina.
Katleia atendeu e, após alguns segundos de conversa tensa, desligou com uma expressão de alívio misturada com preocupação.
— As meninas ainda estão no hotel ainda. Mima disse que Axel alugou um quarto para ela e Maju passarem o resto da noite e se recuperarem. Mima estava com dores na costela e Maju machucou o pé, mas ainda não sei detalhes.
Eu franzi o cenho. Axel teve a decência de cuidar delas, mas se esqueceu do irmão? Que decência torna de um desgraçado.
Saímos do carro para encontrá-las no saguão lateral. Quando Katleia colocou os pés no chão, ela deu um passo e... cambaleou.
— Ai... — ela soltou um protesto baixinho de dor, a mão indo instintivamente para a base das costas.
Ela sorriu para mim, morta de vergonha, tentando disfarçar a forma como suas pernas fraquejavam.
— Não é nada... eu só... o sapato deve estar apertado.
Eu não aguentei. Encostei-a contra a lateral do carro, segurando o queixo dela com firmeza, mas com uma suavidade que eu não sabia que possuía.
— E você ainda disse que eu não peguei pesado... — provoquei, sentindo um misto de orgulho sombrio e preocupação. — Eu estou é muito fodido. Como eu vou explicar que você está andando como se tivesse sido atropelada por um trator?
Senti uma pontada de culpa genuína. me treinara para ser um líder, um protetor. E ali estava eu, prestes a ser escoltado para dentro de casa por três garotas feridas para que meu pai não me matasse por ter transado com a protegida da casa em vez de noivar com a herdeira do Embaixador.
Melhor que apanhar de novo é ser covarde uma vez mais! — pensei, com uma ironia amarga.
O caminho de volta para a mansão em Monselha foi silencioso. Deixei o carro em uma rua lateral para não chamar atenção e caminhamos, ou melhor, elas caminharam, até o portão de serviço.
Eu seguia logo atrás, observando a cena. Era trágico e cômico ao mesmo tempo. Katleia tentava ajudar Mima, que por sua vez apoiava Maju. Elas se chocavam umas nas outras, cada passo resultando em um "ai" ou um "ui" abafado.
Katleia tentava liderar a marcha, mas era óbvio que o equilíbrio dela estava seriamente comprometido pelo que havíamos feito naquelas horas na suíte, tou em sentindo culpado, mas ela não aceitou que eu a carregasse.
Chegamos ao portão lateral. Parei, sentindo o peso da mansão Felix se erguer sobre nós como uma sombra.
— Vocês vão ficar bem? — perguntei, agora realmente preocupado. A adrenalina tinha baixado e a realidade do que eu poderia perder, e do que elas poderiam sofrer, me atingiu.
Abri o portão eletrônico silenciosamente. Katleia parou e se virou para mim. O sol de Monselha começava a querer surgir, banhando o rosto dela com uma luz suave.
— Adeus, Átila — ela sussurrou.
Eu me inclinei, ignorando a presença das outras duas que nos observavam curiosas.
— Logo volto para te ver — sussurrei no ouvido dela, sentindo-a estremecer. — E não tente fugir de mim agora que sabe o caminho.
Ela sorriu, corando violentamente, e entrou apressada. dentro do possível para alguém naquele estado.
Enquanto elas cruzavam o jardim em direção à entrada das criadas, ouvi a voz rouca de Mima sussurrando para Katleia.
— Você vai me contar tudo o que aconteceu naquela suíte, sua serelepe. Quero os detalhes sujos para compensar a dor na minha costela!
Katleia deu um tapinha leve no braço de Mima e elas desapareceram para dentro da casa.
Eu fiquei ali, parado na penumbra, observando as luzes da mansão se acenderem. Eu estava exausto, dolorido e com o destino por um fio. Mas, pela primeira vez na vida, eu não me importava de ser o "vilão" da história. Se o preço de ter Katleia era enfrentar o inferno, eu já estava com as malas prontas.
Agora, eu só precisava sobreviver ao café da manhã.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!