Cap.7
— Não é nada, só está sendo um dia difícil...
— Não parece difícil, já que ninguém está te mutilando enquanto usa seu corpo como um pedaço de borracha velha.
O silêncio depois do comentário de Adon pareceu maior do que aquele lugar.
Ela sentiu calafrios, como se ele soubesse exatamente o que aconteceria com ela se não tivesse chegado. O blazer pesado sobre os ombros, o rosto manchado de lágrimas e sujeira. O corpo tremia agora de puro cansaço.
Ela respirou fundo, tentando encontrar voz entre soluços.
— Eu só... — começou, a voz falhando. — Só estou agradecida, acho. É por isso que acabei chorando.
Adon a observava em silêncio, os olhos impassíveis, uma das mãos ainda no bolso.
— Porque no final... — ela continuou, engolindo o choro. — Você parece uma pedra, mas sabe ser gentil às vezes.
Um som baixo escapou dele, meio bufo, meio riso sem humor.
— Você parece que não entende nada, não é? — murmurou, sem olhar diretamente para ela.
Selene abaixou a cabeça, apertando o blazer contra o corpo como se ele pudesse protegê-la de tudo. As lágrimas voltaram, silenciosas, molhando o tecido caro.
Adon ficou ali, imóvel, observando-a agarrar o tecido como quem tenta desaparecer dentro dele.
O contraste entre o terno impecável e a fragilidade dela parecia deixá-lo curioso — e talvez, por um segundo, perturbado.
— O que eu deveria entender?
— Que eu não faço nada sem um preço. Não te salvei porque sou algum justiceiro ou seu defensor. Muito pelo contrário. Já que eu não me importo com ninguém, você sabe bem por que eu te salvei.
— Porque eu te devo? — ela riu, cética.
Ele confirmou com um movimento de sobrancelha.
— Até parece. Ainda que aqueles homens fizessem algo comigo, eu estaria te devendo? O trato era você não encostar em mim, não outros homens.
— Esperta. Mas ainda assim, eu te tocar seria mais vantagem pra você do que ser tocada por qualquer um desses lixos.
— O que você fez? Os matou?
— Não sei... eles estão no beco. Quer dar uma olhada?
— Quem é você?
— Ninguém... só faço uns bicos por alguns trocados.
— Bem sujo, pelo visto.
— Com certeza. Por isso você nem deveria estar me dirigindo a palavra. O que acontece com você não é da minha conta.
Ela ergueu o rosto, encarando-o. Depois se levantou e caminhou até ele, fixando o olhar no dele enquanto Adon a observava como quem espera uma rendição — ou um recuo de medo.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!