Cap.87
A noite na sala de jantar da mansão Ponte foi preenchida por um burburinho doméstico que, em outros tempos, teria trazido paz a Katleia. Maju revisava o conteúdo da escola, Mima e Gildete discutiam sobre os horários da faculdade com Selene, e o som dos talheres contra a porcelana criava uma ilusão de normalidade.
Ela olhava ao redor, para as meninas tão ocupadas e pensava em como só ela não tinha arrumado nada desse tipo para fazer e porque não conseguia viver bem em sociedade mesmo desejando, mas internamente sorrio ao se lembrar de suas novas descobertas.
— Você vai ficar bem sozinha amanhã, Kat? — Mima perguntou, seus olhos estreitados em preocupação enquanto ajeitava a alça da bolsa. — A mansão é enorme, não vai se sentir sozinha? Tem certeza que não quer ir com a gente? Você pode ficar ao lado de uma de nós pode escolher e estudar com a gente.
— Eu prometo que ficarei bem — respondeu Katleia com um sorriso que tentou tornar o mais convincente possível. — O sistema de segurança é impenetrável, e eu realmente preciso de um dia inteiro para avançar no meu livro. As cenas novas estão borbulhando na minha cabeça.
— Falando em segurança, Alex vai vir pela manhã averiguar se o sistema de segurança está realmente ok — ele comentou casualmente. — Não se preocupe, são só coisas de pai, ele só está cuidando das coisas.
— Tudo bem, além disso Alex é seu pai, é alguém confiável, então eu não vou ficar sozinha em casa, não vai acontecer nada.
As meninas ainda hesitaram, mas o cansaço e a rotina venceram. Elas se despediram, deixando Katleia com a promessa de uma casa vazia e silenciosa, o cenário perfeito para uma escritora.
Na manhã seguinte, após o som dos carros sumir pelo portão principal, Katleia instalou-se em seu pequeno refúgio. O notebook brilhava, e por algumas horas, ela foi outra pessoa. Escreveu sobre toques, sobre a entrega que viveu na suíte com Átila, transformando a memória daquela pele quente e daquelas palavras roucas em literatura. Ela estava empolgada, sentindo uma saudade física de Átila que a fazia sorrir para a tela.
Até que o seu celular vibrou.
O visor iluminou-se com um número que ela não via há anos, mas que estava gravado a ferro e fogo em sua memória. O nome “Mãe” apareceu como um espectro. Seu coração não apenas acelerou; ele gelou. O ar pareceu fugir do quarto, e a caneta sobre a mesa rolou até cair no chão, ecoando como um tiro no silêncio.
Com os dedos trêmulos, Katleia abriu a mensagem.
“Katleia é a mamãe, querida!
Demorei tanto tempo para encontrar seu contato.
Eu preciso da sua ajuda. Estou muito doente.”
Ela congelou. A náusea subiu por sua garganta. Aquela mulher, que deveria ter sido seu escudo, estava ali, materializando-se através de pixels para assombrá-la após anos sem nenhuma notícia, ela finalmente estava de volta, mas Katleia não estava nada feliz.
Ela respondeu com o resto de força que lhe sobrava, mesmo hesitando e desejando ter ignorado.
— O que você quer?
A resposta veio rápida, como se ela estivesse esperando o bote.
“Ajuda, minha filha. Passei por muita dificuldade depois que seu pai foi preso de forma injusta. Estou sem dinheiro, sem saúde, só você pode me ajudar!”
— Injusta? — Katleia repetiu para si mesma sem conseguir acreditar. — Como pode ainda dizer que aquele desgraçado é meu pai?
As lágrimas explodiram nos olhos de Katleia, quentes e amargas. Ela sentiu uma dor tão intensa no peito que precisou se curvar sobre a mesa. “Injusta?” a palavra martelava em sua cabeça.
“Injusta? Você ainda se diz minha mãe?” — digitou ela, as letras borradas pelo choro. — “Aquele homem me fazia mal todos os dias! Todos os dias sob o seu teto! E você ainda acha que não foi nada? Você o defende?”
“Katleia, não exagere. Ele cuidava de nós. Ele sustentava a casa, você sabe... a mãe não conseguia ganhar muito e a maioria das contas quem pagava era ele, o teto e a comida, roupas, remédios que você tinha era ele que comprava.”
— Do que você está falando? Comida? Roupas? Remédios? Céus... você ainda é a pessoa mais desgraçada que eu conheci.
— Não houve um único dia! — gritou Katleia para as paredes vazias, a voz falhando. — Nenhum único dia de paz por mais de um ano! E até hoje você o defende?
O telefone começou a tocar. O toque parecia um alarme de incêndio. Ela atendeu por puro impulso, por uma necessidade masoquista de confrontar o seu passado.
— Filha... por favor... — a voz dela era fraca e cansada.
— Você tem mesmo esse direito de me chamar de filha? Me diz? Que comida? Que roupas e remédios? Eu... vocês me maltrataram tanto que, se eu conseguisse passar um dia sem comer, antes de dois dias passando fome e amarrada... — a voz dela sumiu... levando a mão à cabeça, sentindo-se tonta quando as memórias vieram.
— Katleia, por que ser tão dramática? Tudo isso já não passou? O problema foi seu pai, ele sempre te mimou quando nem podia e agora você ficou mal acostumada, acha que tudo que seu padrasto fez foi te maltratar, mas ele cuidava de você, mesmo quando nem mesmo eu queria te criar.
— Se você não me queria, deveria ter me deixado ir com o meu verdadeiro pai!
— Seu pai? — A voz do outro lado era fria, desprovida de qualquer remorso materno. — Aquele viciado? Ele não tinha onde cair morto, Katleia. Ele nunca se importou com você, por isso sumiu. Foi o seu padrasto quem segurou as pontas, ele ganhava bem na época, trabalhava duro. E você destruiu a carreira dele com suas histórias!
Katleia soltou uma risada cética, entre soluços.
— Trabalhava duro? Ele nunca saía de casa! Ele vivia escondido nos cantos! Em que ele trabalhava?
— Ele trabalhava em casa! — ela gritou de volta. — E você ainda teve o atrevimento de seduzir aquele homem, de estragar a vida dele...
— Eu tinha dez anos! — berrou Katleia, sentindo o mundo girar. — Você acha mesmo que uma criança de dez anos seria capaz de seduzir um monstro? Você viu as marcas! Você ouviu meus gritos e fechou a porta!

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!