Cap.88
O asfalto parecia derreter sob os pneus do carro de Alex Felix. Ele dirigia com uma precisão suicida, costurando o trânsito da manhã com a sirene interna de sua própria urgência.
No banco de trás, ou às vezes tombada contra o console central, Katleia era uma pilha de carne e osso. O calor que emanava dela preenchia a cabine, transformando o ar-condicionado potente em um sopro inútil contra uma fornalha.
Alex, sentia o suor frio escorrer por sua nuca. Ele não olhava para ela agora apenas como alguém a ser avaliado, seu olhar era de medo de ver ela rachar diante de seus olhos.
— Aguente firme, menina — ele rosnou entre dentes, os nós dos dedos brancos no volante. — Não ouse apagar agora.
Mas Katleia já não estava mais lucida tinha tempo. Ela não estava mais no carro de luxo, nem sabia onde estava. Sua mente, fraturada pela ligação cruel da mãe e pela febre que agora ultrapassara os 40°C, a havia transportado de volta para o labirinto de sombras de sua infância.
— Pai... — o sussurro saiu como um retalho de papel rasgado. — Por favor... só você me protegia. Não deixe ele me tocar de novo... eu não aguento mais...
Alex estancou o carro na entrada da emergência do hospital privado da Organização, os pneus gritando no concreto, saltou do veículo antes mesmo que o motor terminasse de silenciar. Ao abrir a porta traseira, encontrou-a em pleno delírio.
Katleia tremia de forma rítmica, pequenos espasmos que denunciavam o início de uma convulsão febril.
— Katleia! — Alex a sacudiu levemente, a voz autoritária tentando romper a névoa. — Abra os olhos! Estamos no hospital. Você precisa lutar! Aguente!
Os olhos dela se abriram. Mas não eram os olhos de alguém que sabia o que estava acontecendo.
Eram olhos de vidro, dilatados, enxergando através de Alex, para um tempo que já deveria ter morrido. De repente, um sorriso fraco e puramente infantil iluminou o rosto pálido dela.
— Vamos! — ele a puxou a erguendo.
Com um esforço sobre-humano, ela ergueu as mãos e trêmulas. As palmas, que queimavam como brasas, tocaram as bochechas frias de Alex. O contraste do calor dela contra a pele dele foi como um choque elétrico.
— Pai... — ela suspirou, as lágrimas transbordando e limpando o suor de suas têmporas. — Até que enfim você veio... seu gatinho não quer mais ficar aqui. Me leve embora...
Alex congelou. Ele sentiu o peso daquela súplica.
O homem que nunca hesitara em puxar um gatilho hesitou diante daquela confusão de identidade.
Quem era seu pai? Ele não era o pai dela. Ele era um Felix, um estranho que a vigiava pelas frestas. Mas, ao sentir o toque dela e ver a calma sobrenatural que a ideia de sua presença trazia ao corpo convulsionado de Katleia, ele acabou entrando em alerta.
— Se você não tiver uma casa, não tem problema... — ela continuou, a voz ficando mais melódica, mais tranquila, enquanto ele a pegava levava colo com uma facilidade que o assustava. — Só me leve embora. Eu só quero ficar ao seu lado... onde é seguro, não quero ficar com eles, não quero mais sentir dor.
Alex caminhou em direção às portas automáticas da recepção, carregando-a contra o peito. Ele sentia o coração dela batendo contra o sua camisa, como se o mesmo estivesse tentando escapar da gaiola das costelas. Ele não a impediu de abraçar seu pescoço, nem de esconder o rosto em seu ombro.
— Pai... diz que não vai me abandonar de novo... eu sabia que ela estava mentindo, você não morreu, não é? Não vai me abandonar de novo, certo?
— Está tudo bem — ele mentiu, a voz saindo rouca, quase irreconhecível para si mesmo. — Já estou aqui.
— Eu sei... que bom... — Katleia respondeu, a respiração começando a se estabilizar apenas pela ilusão da segurança. — Vai ficar tudo bem agora. Ela só queria me assustar quando disse que você morreu... Eu sabia que você me amava. Que não tinha me abandonado... eu sabia. Eu não vou te deixar ir nunca mais, pai. Não vai mais fugir de mim...
Cada palavra dela era como uma estocada no que restava da consciência de Alex. Ele percebeu, com uma clareza dolorosa, a profundidade do trauma que aquela menina carregava.
Ela não estava apenas doente, era como se estivesse em carne viva por dentro. O "monstro" que ela mencionava nos delírios não era uma metáfora, era a sombra que a perseguia desde os dez anos de idade.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!