STELLA HARPER
A luz da manhã filtrava pelas frestas da cortina como se quisesse me forçar a abrir os olhos, mas eu já estava acordada fazia tempo. Não conseguia dormir. Meu corpo ainda doía, não só fisicamente, mas num lugar muito mais fundo. A noite anterior grudava na minha pele como algo que eu não conseguiria lavar.
Damian estava de pé, ao lado da cama, abotoando a camisa branca. Ele sequer olhou para mim quando falei bom dia. Na verdade, ele só respondeu com um murmúrio ininteligível, seco, como se qualquer palavra a mais fosse desperdício de tempo.
Sentei devagar, puxando o lençol para cobrir o corpo. Não que isso importasse, ele já tinha me visto de todas as formas possíveis.
— Eu... vou tomar um banho. — murmurei.
— Faça isso. Mas não demore — ele respondeu sem qualquer emoção, ajustando os punhos da camisa e checando o relógio. — Você vai para o trabalho, certo?
— Vou.
— Ótimo. Nos vemos lá.
Ele saiu do quarto sem mais uma palavra. Nenhum olhar, nenhum traço de preocupação. Como se a noite passada tivesse sido uma transação qualquer. Como se eu não tivesse me partido inteira por dentro enquanto ele parecia se manter perfeitamente intacto.
Quando ouvi a porta se fechar, deixei o lençol cair. Caminhei até o banheiro com os pés descalços e a pele arrepiada. A água do chuveiro escorria quente, mas não o suficiente para desfazer o nó na minha garganta.
Tomei o tempo que precisava. Eu precisava me recompor antes de voltar à rotina como se nada tivesse acontecido. Como se minha dignidade ainda estivesse inteira. Me vesti devagar, prendi o cabelo em um coque apertado e passei o mínimo de maquiagem. O suficiente para esconder o que eu sentia, mas não o suficiente para fingir que eu estava bem.
Peguei minhas coisas e chamei um carro. Damian havia saído com o dele, obviamente. E eu nem esperava que fosse diferente.
Cheguei ao escritório cinco minutos antes do horário. Meu crachá passou pelo sensor com o mesmo som neutro de sempre. Caminhei entre as mesas com passos calmos, cumprimentei quem me olhou e entrei na sala como se fosse só mais um dia comum. A dor nos meus quadris e o desconforto entre minhas pernas estavam bem escondidos por trás da minha postura profissional.
Ele já estava lá. Sentado, como sempre, diante do computador.
— Bom dia, senhor Winter. — minha voz saiu firme e segui dizendo a ele qual seria a agenda do dia. — Isso é tudo senhor.
— Harper. — ele chamou, sem me encarar. — Organize a reunião com o conselho para as quinze horas e envie o memorando do jurídico até o meio-dia. Preciso disso antes do almoço.
— Está bem. Mais alguma coisa?
— Não.
Assenti e saí da sala.
Cumpri todas as minhas tarefas. Almocei sozinha na copa, respondendo e-mails no celular. Voltei para a sala. Digitei relatórios, agendei compromissos. O dia inteiro se arrastou como uma encenação de normalidade.
Quando o relógio marcou 18h, recolhi minhas coisas e saí. Não esperei por ele, nem me despedi, se fossemos ter outro encontro ele teria me avisado. Além disso, estou exausta. Peguei o elevador e pedi outro carro.
Assim que a porta da minha casa se fechou atrás de mim, encostei as costas nela e respirei fundo. Eu precisava de um banho, de silêncio e de tempo. Precisava encontrar alguma parte de mim que ainda não tivesse sido esmagada.
A bolsa caiu da minha mão e deslizou pelo chão. Meus dedos estavam gelados, apesar do calor abafado de Los Angeles.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!