STELLA HARPER
TRÊS SEMANAS DEPOIS
Foram exatamente vinte e dois dias desde que acordei nesse quarto de hospital e descobri que, por algum milagre, ainda estava viva. Às vezes, deitada nessa cama, olhando para o teto branco e para os cabos que ainda me ligavam às máquinas, eu tentava me lembrar de como havia atravessado tudo aquilo. Fraturas, cirurgia, dor insuportável… e, no meio disso, a sensação constante de que minha vida poderia ter terminado ali, na estrada, junto com aqueles dois homens que não tiveram a mesma sorte.
Amanhã, segundo os médicos, eu teria alta. Não porque estivesse totalmente recuperada, na verdade eu estava longe disso, mas porque meu quadro estava estável o suficiente para continuar a recuperação em casa, cercada de cuidados.
Meus pensamentos se embaralhavam quando começava a listar, um a um, os danos que meu corpo ainda carregava. O braço esquerdo, engessado, os médicos haviam explicado que fraturas múltiplas como as minhas poderiam levar de oito a doze semanas para consolidar, e só depois começaria a fisioterapia. Isso queria dizer que, por enquanto, eu dependia quase inteiramente da boa vontade e da paciência do Damian.
As costelas… duas estavam quebradas, e uma delas havia perfurado parcialmente o pulmão. A imagem mental ainda me deixava arrepiada. Agora, três semanas depois, respirar não doía tanto, mas qualquer movimento brusco ou esforço me lembrava que a recuperação total levaria pelo menos dois meses.
O trauma abdominal também tinha sido sério e os médicos haviam dito que, com sorte, em seis a oito semanas eu estaria andando melhor, retomando alguma rotina. Mas, por enquanto, eu ainda precisava me levantar com ajuda e não podia sequer pensar em carregar peso.
Era estranho pensar nessas limitações, mas surpreendentemente, Damian parecia não se importar em ser minha ajuda. Pelo contrário, parecia ter assumido essa função como se fosse uma missão pessoal.
Ele estava ali, sentado ao lado da cama, com o notebook aberto sobre a mesinha improvisada. As mangas da camisa estavam dobradas até os cotovelos e ele digitava rápido, os olhos quase nunca se desviando da tela. E, ainda assim, bastava eu me mexer um pouco que ele levantava os olhos para mim, como se meu corpo fosse um radar que o chamasse.
— Amor, senta mais ereta, vai te ajudar a respirar melhor. — disse, sem nem parar de digitar.
— Eu estou bem assim. — resmunguei, mesmo sabendo que ele tinha razão.
Ele me lançou aquele olhar que eu já conhecia de que não admitia réplica. Suspirei e ajustei a posição com a mão boa, bufando de leve.
— Melhor. — Ele voltou para o computador, mas pude ver o canto da boca se curvar em um sorriso quase imperceptível.
Às vezes eu me perguntava como um homem tão frio com o mundo conseguia ser tão caloroso comigo. Não que ele tivesse mudado completamente, ele ainda era o Damian Winter, controlador, mandão e irritante. Mas, nesses dias, havia algo mais que me fazia sentir protegida, ainda que eu me rebelasse contra sua mania de querer me controlar até na forma de respirar.
O toque suave no meu braço me tirou dos pensamentos. Ele havia ajeitado o notebook e agora estava segurando o celular, fazendo uma chamada de vídeo.
— Estão prontos? — perguntou, e então virou a tela para mim.
Meu coração deu um salto ao ver os rostinhos que tanto sentia falta.
— Mamãe! — os gêmeos gritaram ao mesmo tempo. Apollo e Orion quase se atropelaram na ânsia de se aproximar da câmera. Danian veio logo atrás, mais quieto, mas com os olhinhos grandes brilhando.
Senti os olhos arderem instantaneamente.
— Meus amores… — minha voz saiu embargada. — Vocês estão bem?
— Sim! — Orion respondeu. — O papai Alex fez panquecas hoje!
— E ensinou a gente a jogar aquele jogo de tabuleiro! — completou Apollo. — Ele é o melhor!
Pude ver o maxilar de Damian endurecer ao meu lado. Ele mantinha a expressão neutra, mas eu sabia reconhecer seu incômodo.
— O Alex é muito legal, mamãe. — disse Danian, finalmente se aproximando. — Ele contou histórias ontem à noite e deixou a gente dormir na sala com cobertores.
Meu sorriso cresceu, apesar da pontada de dor nas costelas. Eu sabia o quanto aquilo incomodava Damian, mas não conseguia não ficar feliz em ver meus filhos tão animados.
— Que bom, meus amores. Estou muito orgulhosa de vocês.
— A gente sente sua falta, mamãe. — disse Apollo, a vozinha doce me atravessando o peito.
— Eu também sinto muita falta de vocês. Mas amanhã eu volto, tá? Vou pra casa de novo.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!