SOPHIE PÓSITRON
— E aí, pirralho.
A voz saiu cheia de sarcasmo. Danian parou de chorar, arregalou os olhos marejados e me olhou em silêncio, hesitante, como se não soubesse se podia acreditar.
— Eu quero ir embora… — murmurou, baixinho, quase engolindo as palavras.
Ri. Um riso seco, curto, sem humor algum.
— Ir embora? — repeti, abaixando um pouco o rosto até a altura dele. — Ah, não, querido. Você vai ficar comigo. Vai viver com a mamãe agora.
— Mas… — ele tentou dizer, com a voz quebrada.
Não deixei terminar. Endireitei o corpo e soltei um grito forte, ríspido, que ecoou pelo galpão.
— Chega! Eu não quero ouvir sua choradeira!
Ele se encolheu imediatamente, abraçando o próprio corpo. O choro contido escapava em soluços que me irritavam ainda mais.
Me virei para os dois brutamontes que tinham trazido o menino até mim. Eles observavam em silêncio, meio desconfortáveis com a cena. Arrastei a bolsa pesada que estava sobre a mesa de metal e a joguei para eles.
— Aqui está a parte de vocês. — declarei. — Contem se quiserem, mas não percam meu tempo.
Um deles abriu a boca para responder, mas fui mais rápida:
— E o chefe de vocês já recebeu o dele. Está longe daqui, não vai se meter na sua divisão, então saiam da minha frente.
Os homens trocaram olhares rápidos. A ganância venceu qualquer dúvida. Um deles pegou a bolsa, abriu o zíper e viu as notas empilhadas. O brilho nos olhos deles foi instantâneo.
— Então é só isso? Estamos dispensados? — perguntou o mais baixo, com um meio sorriso.
— É isso. — confirmei, firme. — Sumam. Não quero ver nenhum dos dois nunca mais.
Eles se entreolharam outra vez e, sem discutir, saíram. A porta de ferro rangeu quando se fechou, deixando o galpão em silêncio outra vez.
Respirei fundo, sentindo o cheiro de poeira e óleo queimado que impregnava o lugar. Finalmente estávamos sozinhos.
Me voltei para o menino. Ele ainda estava encolhido no canto, os olhos arregalados fixos em mim. Uma criança de quatro anos… pequena demais, frágil demais. E, no entanto, a chave de tudo o que eu queria.
Caminhei até ele devagar, os saltos ecoando contra o chão de concreto. Me agachei de novo, mas não tentei parecer doce.
— Olha só pra você… tão igual ao seu pai. — cuspi as palavras com nojo. — Tem os mesmos olhos, a mesma cara irritante e a mesma personalidade insuportável. Se ao menos fossem um legítimo Winter... eu teria te dado mais amor.
Ele soluçou, apertando ainda mais os braços contra o peito.
— Quero o papai… — repetiu
Meu sorriso se abriu um pouco mais e inclinei a cabeça para o lado.
— É exatamente isso que você não vai ter, meu querido. Quero fazer o Damian sofrer cada segundo imaginando você longe dele.
Parei por um instante, observando-o. Era tão pequeno que quase me dava nojo. Mas, ao mesmo tempo, tão útil que valia cada centavo que gastei com o imbecil do Nathan. Se parecia tanto com Damian que ninguém jamais ousaria questionar sua paternidade.
Aproximei-me mais e segurei seu queixinho com força, obrigando-o a me encarar.
— Você deve se comportar comigo, entendeu? — murmurei, vendo suas lágrimas voltarem. — Você é a minha arma.
Ele tentou se soltar, choramingando, e eu ri outra vez. Soltei-o de repente e levantei.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!