DAMIAN WINTER
O carro deslizava pela rua sem que eu percebesse direito. O telefone vibrava com mensagens do delegado Morales e com a confirmação de que a equipe estava no lugar.
Chegamos ao galpão ao mesmo tempo que a viatura de Morales. A construção era uma caixa escura encostada numa rua secundária, tempo e abandono grudados nas paredes. Havia luzes fracas por dentro, o suficiente para perceber formas, mas nada nítido. Morales pegou meu braço, olhou-me com a expressão séria de sempre.
— Winter... — sussurrou — estamos prontos. Equipe tática posicionada nos pontos de entrada. — confirmou, com o rádio já na mão. — Quando eu der o sinal, a gente entra.
Olhei para a porta de ferro. Meus dedos ficaram rígidos.
— Faça o que for preciso — falei curto.
Morales assentiu. A equipe se moveu com a precisão de algo que já foi replicado muitas vezes em sua cabeça, com passos sem barulho e gestos mínimos. O delegado aproximou-se do microfone. Um dos agentes táticos ficou ao meu lado com uma lanterna imensa. Respirei, contei mentalmente até três, e Morales fez o sinal.
A batida na porta foi forte, autoritária. "Polícia! Abram a porta!", gritou. O som reverberou pelo galpão como uma pedra no lago. Havia um segundo de silêncio que pareceu eterno. Depois, passos apressados e uma praguejando do outro lado.
— Sabemos que há uma criança aí! — Morales continuou. — Entreguem-se agora. Ninguém precisa se machucar!
Pelo rádio, consegui ouvir agentes confirmarem posições. Um clarão de lanternas cruzou as janelas pequenas e, por um momento, só houve sombras.
Havia barulho de gavetas, de algo metálico sendo mexido. O galpão cedeu em movimento: uma das portas internas foi arrombada por uma equipe tática, fumaça baixa de gás incapacitante percorreu o chão, Morales tinha explicado o plano em duas linhas antes de eu entrar: neutralizar sem ferir. Tive que me afastar da linha de visão. Gritos, ordens em alto e bom som, e o som dos agentes entrando. Tudo aconteceu rápido demais e, ao mesmo tempo, em câmera lenta.
Aproximações. O som do rádio de um dos agentes teve prioridades: "Sem sinal do menino na primeira varredura interior."
Subimos para a área mais interna com cuidado. Havia um corredor curto com uma porta entreaberta. O ar tinha cheiro de vapor e café velho, de roupas que não eram usadas. Morales estava a poucos metros sussurrando instruções.
— ...só quando tivermos certeza da localização do garoto — disse ele. — Não dê espaço para ela fugir.
Segui o autorretransmissor como um cachorro atrás de rastro. Entramos em uma sala com uma mesa metálica, cadeiras jogadas. Em cima da mesa, um sapato infantil, no chão tinha marcas de passos em pó. E, ao fundo, a porta do que parecia ser um cômodo menor, com uma cortina.
Foi ali que ouvi a coisa que congelou minha coluna: a voz de Sophie, clara e gelada, cantando algo baixinho enquanto segurava meu filho. O som da minha própria respiração foi mais alto do que deveria ser.
— Não mexam! — gritou sua voz para o corredor. — Um passo e eu mato o menino!
Vi a silhueta dela na penumbra da porta, uma sombra esguia. Segurava algo que reluzia a luz que entrava pelo vão da porta, era uma lâmina pequena, afiada, pressa no cabo. Danian estava reduzido a olhos arregalados e boquinha trêmula. Ela tinha o braço enrolado ao redor dele, protegendo-o e usando-o como escudo ao mesmo tempo.
Meu peito doeu em lugares que eu nem sabia que existiam.
— Fica quieto e ninguém precisa se machucar — ela murmurou, sem olhar para mim. — Você não quer ver o papai sofrer, lembra? Então seja um bom menino.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!