DAMIAN WINTER
O hospital cheirava a desinfetante, frio e incômodo, como se cada partícula de ar fosse filtrada para tirar qualquer humanidade dali. Carreguei Danian no colo até o setor de emergência, ignorando olhares curiosos e cochichos dos profissionais que reconheciam meu rosto, ou talvez apenas a cena.
Não importava. Eles que olhassem.
A equipe médica já estava pronta para nos receber. Queriam levá-lo, claro, mas Danian não desgrudava. Tremia, soluçava ainda no meio do sono, e cada vez que alguém se aproximava com jaleco ou estetoscópio, os bracinhos se fechavam em torno do meu pescoço como algemas.
— Ele precisa de observação — insistiu a médica, voz calma. — Mas se ele não quiser sair de perto do senhor, podemos adaptá-lo em um quarto de internação.
— Então façam isso. — Minha resposta saiu dura, mas ela entendeu.
Fomos levados a um quarto pequeno, iluminado demais. A cama branca pareceu enorme para o corpo pequeno de Danian, que só aceitou se deitar porque prometi que ficaria ao lado dele. Segurei sua mão até que o olhar cansado se fechasse por completo, o peito subindo e descendo com uma respiração mais calma.
A médica fez exames rápidos enquanto ele dormia, olhando saturação, batimentos, reflexos. Nada além de estresse. Nenhuma marca física. Mas o psicológico... esse eu sabia que não cicatrizaria tão fácil.
Quando ficaram só nós dois, afundei na poltrona ao lado da cama. O silêncio me esmagou. Pela primeira vez em horas, não havia rádio chiando, policiais correndo, nem gritos. Apenas o som das máquinas discretas e a respiração do meu filho.
Peguei o celular. Meus dedos estavam rígidos, mas disquei um número sem pensar.
— Damian? — a voz de Stella atendeu rápido, tensa, como se estivesse acordada há horas.
Fechei os olhos por um instante.
— Eu sabia que você não estaria dormindo.
— O que aconteceu? — a voz dela subiu um tom, alarmada. — E o Danian?
Olhei para a cama, para aquele corpinho encolhido no lençol branco.
— Ele está bem agora. Está comigo, no hospital. — Engoli seco. — Sophie... está morta.
Houve silêncio do outro lado. Depois, uma respiração presa.
— Meu Deus... — ela murmurou. — Eu vou para esse hospital agora.
— Não. — Minha voz saiu firme. — Você precisa descansar. Nós também. Você vir correndo não vai mudar nada. Espere amanhecer. Venha quando o sol nascer, quando todos já estivermos mais calmo.
— Damian... — ela hesitou. — Eu não consigo ficar parada sabendo disso.
— Stella... — interrompi, cansado, mas decidido. — Confie em mim. Ele está seguro. Está dormindo. Você também precisa descansar. Quando amanhecer, venha. Eu quero que ele acorde e veja você sorrindo, não chorando e cansada.
Do outro lado da linha, silêncio de novo. Então um suspiro resignado.
— Tá bem. Mas eu vou cedo.
— Eu sei. — Desliguei, largando o aparelho no colo.
Fiquei olhando para Danian. A respiração dele era quase um mantra, lenta, frágil, mas viva. Toquei seus cabelos, deslizei os dedos devagar, e pela primeira vez nessas longas horas o peso da exaustão caiu sobre mim.
Encostei na poltrona e fechei os olhos.
Não sei quanto tempo dormi. Talvez minutos, talvez horas. Mas o que me acordou foi um som que rasgou o silêncio, foi como um berro histérico, vindo do corredor.
— Assassino! Ele matou a minha filha!
Levantei de imediato, com o coração disparando. Danian também acordou assustado, erguendo o corpo na cama com os olhinhos confusos e cheios de medo.
— Papai?
Corri até ele e sentei na beira da cama, segurando-o.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!