STELLA HARPER
Havia se passado pouco mais de oito meses desde que deixei Nova York.
O tempo em Wethersfield parecia ter um ritmo diferente. Não era só a cidade pequena, as casas com cercas brancas, os cafés que fechavam às seis da tarde ou o fato de todo mundo conhecer o nome do outro. Era o silêncio. A ausência de buzinas, de olhares julgadores, de pressão constante sobre mim e minhas escolhas.
A cidade tinha cheiro de terra úmida e pão recém-assado, de café forte e hortênsias nos jardins. Um lugar onde as janelas ainda ficavam abertas à tarde e os vizinhos perguntavam como foi o seu dia. Onde o tempo passava mais devagar, como se o mundo lá fora, com toda sua pressa, tivesse esquecido desse pequeno ponto no mapa de Connecticut.
Me lembro do primeiro mês como se tivesse sido ontem.
Alexander estava me esperando no aeroporto com uma plaquinha torta onde se lia: “Fugitiva protegida por Leah”. Eu teria rido se não estivesse tão nervosa, com os olhos inchados e o corpo dolorido de tanto chorar no voo. Mas quando o vi, o jeito como ele abriu os braços e me acolheu sem fazer perguntas… algo dentro de mim se quebrou e se reconstruiu ao mesmo tempo. Me senti segura.
Ele me levou direto ao médico naquela mesma tarde. Queria garantir que eu estava saudável, que o bebê estava bem.
A médica que nos atendeu sorriu quando passou o aparelho de ultrassom pela minha barriga. Eu estava com quase dois meses, mas me sentia tão estranha, tão cansada. Quando ouvi os batimentos cardíacos, chorei. De alívio, de medo, de tudo. Só que não era um som. Eram dois.
— Você está grávida de gêmeos, Stella. — disse a médica.
Gêmeos.
Eu tremi. Alexander me segurou pela mão. Eu olhei para ele, assustada.
— Dois? Como assim dois?
— Dois corações batendo aqui. — Ela apontou para o monitor.
Dois pequenos universos crescendo dentro de mim. Dois filhos.
Chorei no consultório. Não por medo, mas por um misto de espanto e amor. Um amor que se espalhou pelo meu peito como um raio quente. Eu ainda não sabia como faria aquilo sozinha, mas sabia que faria.
Alexander me ofereceu um quarto na casa dele, mas recusei. Precisava de um lugar meu, onde eu pudesse me reconstruir. Ainda assim, ele não me deixou sozinha. Todo dia aparecia com alguma comida pronta, alguma cadeira nova para a pequena casa que aluguei, ou só para ver como eu estava.
Na segunda semana, me convidou para trabalhar no café dele, o “Fox & Maple”.
— A cidade vai ficar obcecada com você. — disse ele, me lançando um olhar divertido. — Com esse rosto no balcão do meu café, a clientela masculina vai dobrar. E talvez algumas mulheres também.
Trabalhar no café foi, no começo, desconfortável. As pessoas olhavam, especulavam, perguntavam se eu era parente de alguém. Mas aos poucos fui me integrando. Fui me tornando “a Stella do café”, aquela que fazia o latte perfeito e ouvia as histórias de meio mundo. E por algumas horas por dia, eu esquecia... dele.
Alexander se tornou meu melhor amigo. Um irmão mais velho que, diferente de Leah, não me mimava. Ele me fazia andar, enfrentar, trabalhar. E quando a barriga cresceu e os tornozelos começaram a inchar, ele adaptou o caixa para que eu pudesse trabalhar sentada. Nunca disse a ele com palavras, mas ele estava me mantendo de pé.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!