STELLA HARPER
A viagem foi longa, mas os meninos não pararam de falar nem por um segundo. Apollo insistiu em descrever cada nuvem com formato diferente, ouvi coisas como: "essa parece um coelho" ou “essa parece um dragão!” enquanto Orion tentava convencer Alexander de que a velocidade do avião ultrapassava os limites permitidos pela física. Não sei nem onde ele aprendeu que a física tinha limites.
Alexander escutava tudo com paciência. Ele sempre escutava. E quando, por fim, o avião tocou o solo, senti algo dentro de mim também aterrissar.
Segurança. Estabilidade. E uma pontinha teimosa de medo.
O aeroporto estava mais cheio do que me lembrava. Pessoas com olhos apressados, malas arrastando, crianças dormindo nos ombros dos pais. Um mundo inteiro em movimento. E ali, entre tantos rostos desconhecidos, um rosto me fez sorrir largamente.
— TIA LEAH! — meus filhos gritaram em uníssono.
Os dois saíram correndo, como se tivessem sido soltos de uma mola invisível, e se jogaram nos braços dela com força suficiente para derrubar alguém menos preparada.
Mas Leah estava pronta.
Estava sempre pronta para aqueles pequenos furacões.
Ela os envolveu num abraço apertado, ajoelhando-se no chão do saguão do aeroporto, rindo como uma garotinha, apesar dos seus atuais 31 anos. O cabelo castanho cacheado dela balançava com o movimento. Ela decidiu parar de tingi-lo e assumiu a cor natural dos fios, era como olhar para Alexander com traços mais doces e femininos.
— Meus astros! — ela gritou, enquanto beijava um e depois o outro nas bochechas. — Estavam achando que nunca mais me veriam, né?
— Você demorou muito! — acusou Apollo, dramático. — A gente acabou vindo antes!
— Ah, claro! Mas era sempre a tia que ia até vocês, então é justo virem a mim uma vez. — ela respondeu, rindo.
Observei a cena com o coração apertado.
Família.
Essa palavra já teve significados muito diferentes para mim. Hoje, finalmente, parece algo que posso segurar com as mãos.
Leah me olhou por cima dos ombros dos meninos e sorriu. Ela levantou, caminhou até mim depois de se despedir dos gêmeos com um toque carinhoso na cabeça de cada um. Me abraçou forte, suspirando junto comigo. Fazia quase um ano que não nos viamos, desde as últimas férias dela.
— Você está linda — ela sussurrou no meu ouvido. — E parece em paz.
— Não diga isso — murmurei de volta, com um sorriso cansado. — Toda vez que dizem que pareço em paz, algo acontece.
Ela riu e se afastou para olhar bem dentro dos meus olhos.
— Você está diferente da última vez.
— Diferente como?
— Não sei. Mas gosto.
Olhei para Alexander, que ainda recolhia as malas. Orion e Apollo giravam em círculos perto dele, como dois satélites ao redor de um sol. Ele riu de algo que Apollo disse e fez uma careta que arrancou gargalhadas dos dois.
Pegamos as malas, seguimos até o estacionamento, e Leah dirigiu enquanto Alexander ia ao meu lado. Os meninos dormiram no banco de trás, cansados da euforia. O rádio tocava baixinho, uma música antiga que eu não ouvia há tempos.
— A casa está pronta — Leah disse, sem desviar os olhos da estrada. — A escola das crianças já confirmou a matrícula. E adivinha? O quarto deles tem uma parede que brilha no escuro com constelações. Achei que Orion fosse gostar.
— Ele vai surtar — murmurei, rindo.
— E Apollo?
— Vai querer uma parede com frases da J.K. Rowling.
— Isso soa... bem como ele — disse Alexander, e todos rimos.



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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!