STELLA HARPER
A fumaça me cercava como um manto sufocante. Meus olhos lacrimejavam, a garganta ardia, mas não parei. A mulher no banco do motorista gemeu de novo, fraca.
— Vai ficar tudo bem… — murmurei para ela, tentando manter a calma, mesmo sentindo meu corpo inteiro tremer. — Só mais um segundo, tá?
Consegui soltar o cinto de segurança. Ele estalou, e o corpo dela caiu contra mim com um peso mole e estranho. Ela era mais leve do que eu esperava, ou talvez fosse só o desespero me dando força.
— Precisamos sair daqui, senhora. O carro vai explodir. — avisei com urgência, falando próximo ao ouvido dela.
Ela gemeu outra vez, a cabeça balançando levemente. Consciente o suficiente para andar, ou pelo menos eu torcia que estivesse.
Com o braço dela sobre meus ombros, comecei a arrastá-la para fora. Os joelhos dela fraquejavam, mas consegui forçá-la a colocar os pés no chão. O calor aumentava atrás de nós, como uma fornalha aberta prestes a nos engolir.
— Anda... só mais um pouco… — sussurrei, sentindo meu corpo queimar em esforço.
Conseguimos dar quatro, talvez cinco passos. Estávamos a poucos metros da calçada quando o estalo veio, seco, oco, como um trovão.
A explosão nos jogou no chão.
Tudo ficou branco.
Fui arremessada para frente e aterrissei com força no asfalto. Um impacto surdo bateu contra meu ombro, e a cabeça da mulher atingiu meu abdômen quando caímos juntas. O som da explosão continuava a ecoar nos meus ouvidos, abafado e distante, como se estivéssemos debaixo d’água.
Meu rosto estava encostado no chão quente. As palmas das minhas mãos ardiam. Tentei me levantar, mas o mundo girou. Minha respiração estava irregular e o zumbido nos ouvidos era ensurdecedor.
— Agh… — soltei um gemido e virei o rosto.
A mulher estava desacordada de novo. O rosto coberto de fuligem, os lábios entreabertos. O calor da explosão a deixara encharcada de suor.
— Ei… — chamei, fraca. — Ei, por favor… acorde.
Mas ela não se movej.
Do outro lado da rua, ouvi gritos. Vozes correndo em nossa direção. O som das sirenes surgiu segundos depois. Estava tudo turvo, meu campo de visão tremia e meu corpo latejava em cada ponto.
Alguém se ajoelhou ao meu lado. Um homem com uniforme vermelho e colete refletivo.
— Ela está consciente! — gritou para os colegas. — Senhora, você consegue me ouvir?
Assenti com a cabeça, mal sentindo meu próprio corpo.
— Precisa cuidar dela… — murmurei, indicando a mulher ao meu lado.
— Vamos cuidar das duas, pode deixar. — disse ele, tocando meu ombro. — Fica comigo. Como você se chama?
— Stella… Harper…
— Stella, você é uma heroína. Conseguiu tirá-la a tempo. — disse ele com um tom suave, mas prático. — Só respira, ok? Você vai ficar bem.
Senti mãos puxando meu corpo com cuidado, colocando uma tala no meu braço. Meu lado direito latejava, e notei um corte profundo no joelho esquerdo.
Quando me colocaram na maca, olhei ao redor, procurando os meninos. Vi Leah, agachada na calçada com eles nos braços, chorando. Ela parecia em pânico, mas aliviada ao me ver consciente.
— Leah… — sussurrei.
— Eles estão bem! — ela gritou de volta, com a voz embargada.
— Cuida deles… — pedi, tentando me apoiar no cotovelo, mas um paramédico me impediu gentilmente.
— Calma, Stella. Vamos levá-la pro hospital agora.
Leah se aproximou correndo enquanto me colocavam na ambulância. Os olhos dela estavam arregalados e o rosto pálido como papel.
— Que hospital? — perguntou rapidamente ao paramédico.
— Centro Médico Santa Helena. É o mais próximo e tem suporte de trauma.
Ela assentiu, ofegante.
— Eu vou ligar pro Alex. Ele vai te encontrar lá. Aguenta firme, ok?
Assenti. O rosto dela se afastou da minha visão conforme as portas da ambulância se fechavam. Meus olhos ficaram presos no teto branco, e então no rosto do paramédico ao meu lado, que colocava uma máscara de oxigênio em mim com cuidado.
Fechei os olhos, deixando que a dor e o cansaço me levassem.
[...]
Sacudi a cabeça, como se tentasse diminuir o mérito do que ela dizia.
— Eu fiz o que qualquer pessoa faria.
— Não, minha querida. — ela rebateu com firmeza. — Eu vi as chamas. Eu senti o calor. Você salvou minha vida. Você podia ter morrido comigo.
Não consegui sustentar o olhar dela. Minhas mãos suavam. E, de repente, tudo pareceu muito intenso. Eu estava exausta. Dolorida. E ainda tentando entender por que aquele rosto, aquela voz, aquele olhar... me causavam uma sensação tão estranha.
Ela estendeu a mão, chamando gentilmente.
— Senta aqui, por favor.
Obedeci. Sentei devagar na cadeira ao lado do leito. A dor no joelho protestou, mas me acomodei.
— Eu não sei seu nome. — ela disse. — A equipe só me disse que uma mulher me tirou do carro e que você estava recebendo atendimento.
— Stella. — murmurei. — Stella Harper.
— Stella. — ela repetiu como se testasse o nome na boca. — Que nome lindo e adequado para você. Fico feliz que você esteja bem. Espero que não tenha se machucado muito.
— Nada sério. Alguns cortes, só. — fiz um gesto vago com a mão enfaixada. — E você?
— Algumas costelas quebradas e esse rosto horroroso agora. — brincou, tocando as bochechas com um cuidado irônico. — Mas é um preço pequeno, o que importa é que sobrevivi.
Sorri, sem saber bem como reagir.
Ela inclinou-se um pouco para frente, com certa dificuldade, mas o olhar era sincero.
— Eu nunca vou conseguir te agradecer o suficiente. Nem te conheço e você fez mais por mim do que qualquer pessoa. Se houver qualquer coisa, qualquer coisa mesmo que eu possa fazer por você, por favor, me diga.
— Está tudo bem, senhora... — Só então me dei conta que não havia perguntado o nome dela.
— Winter. Elaine Winter.
Winter? Ela disse, Winter?
Minha respiração falhou. Meu cérebro repetia aquele sobrenome, ecoando abafado nos meus ouvidos.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!