DAMIAN WINTER
O dia estava sendo insuportavelmente normal. Reuniões sequenciais, relatórios intermináveis e a eterna sensação de que todos ao meu redor falavam mais do que realmente produziam. Eu já estava prestes a encerrar mais um encontro inútil quando o telefone vibrou sobre a mesa.
Olhei de relance para o visor, esperando encontrar algum cliente ou um número interno da empresa. Mas não. O identificador mostrava o nome do hospital central da cidade.
— Bom dia, você é o filho da senhora Elaine Winter?
— Sim, aqui é Damian Winter — atendi, já com o semblante fechado. — O que aconteceu?
A voz do outro lado provavelmente pertencia a uma enfermeira, aquele tom contido denunciava más notícias e eu não estava com paciência para enrolação.
— Senhor Winter, estamos ligando para informar que a senhora Elaine Winter deu entrada no pronto atendimento após um acidente de carro.
A cadeira quase deslizou para trás quando me levantei bruscamente.
— Ela está consciente? — minha voz soou mais áspera do que eu pretendia.
— Não, senhor. Não sabemos ainda se teve muitos ferimentos graves, ela foi encaminhada para avaliação e cuidados.
Não esperei por mais detalhes. O celular já estava no bolso quando saí da sala, ignorando o olhar curioso da equipe. O elevador parecia se arrastar e, assim que cheguei à garagem, entrei no carro e liguei o motor como se minha pressa pudesse fazê-lo voar.
No trajeto, peguei o telefone novamente e enviei mensagens para meu pai e para minha irmã.
Eu: O hospital ligou. A mãe sofreu um acidente. Estou indo para lá agora.
A resposta veio quase instantâneamente.
Pai: Já me avisaram, estou a caminho.
Eu: Nossa mãe está no hospital. Parece que foi um acidente de carro. Não sei se é grave.
Lizz demorou um pouco mais para responder, mas quando o fez, o texto era curto:
Lizz: Estou saindo agora.
Acelerei mais do que o permitido, mas não me importava. Minha empresa era distante do hospital e na velocidade normal levaria uma hora. O tráfego parecia conspirar contra mim, cada semáforo fechando no momento errado. Quando finalmente estacionei diante do hospital, eu já estava digitando no celular para avisar que havia chegado.
Saí do carro e, enquanto atravessava o estacionamento, continuei mandando mensagens para coordenar com meu pai e Lizz. Queria que todos soubessem exatamente onde nos encontraríamos.
Assim que passei pelas portas automáticas, fui direto para a recepção, identifiquei-me e pedi para ser levado até ela. O corredor branco e excessivamente iluminado me lembrou porque sempre odiei hospitais. O cheiro de desinfetante era tão forte que parecia impregnar na pele.
Quando finalmente entrei no quarto, ela estava sentada na cama, com uma manta sobre as pernas e um pequeno curativo no braço. O alívio foi imediato.
— Mãe. — me aproximei, analisando cada detalhe do seu rosto. — Está tudo bem?
Ela abriu um sorriso tranquilo.
— Estou, querido. Foi só um susto.
— Caramba, isso é um verdadeiro alivio. Fico feliz que o acidente não foi grave.
— Mas foi muito grave, meu carro explodiu e só estou aqui graças a uma jovem incrível, poderia ter sido muito pior.
Me sentei na poltrona ao lado da cama, relaxando um pouco a tensão nos ombros.
— Uma jovem?
— Sim. — ela assentiu, o olhar se iluminando ao lembrar. — Ela foi a única a me ajudar. Arriscou a própria vida para me tirar do carro. — O que ela disse a seguir, porém, me deixou em alerta. — Uma moça muito bonita… chamada Stella.
Por um instante, aquele nome que eu não pronunciava há anos reverberou na minha cabeça com força demais. Stella. Era impossível não pensar "naquela" Stella. Mas ao mesmo tempo… podia ser coincidência.
Não precisei ouvir mais nada. Saí do quarto com passos rápidos, o coração batendo num ritmo que eu não sentia há anos. Parte de mim queria encontrá-la… parte de mim temia o que aconteceria se isso de fato ocorresse.
Saí do quarto de minha mãe andando rápido, ignorando o olhar curioso de alguns pacientes e acompanhantes que cruzavam pelo corredor.
Cheguei até o balcão da enfermaria, onde uma recepcionista digitava algo com pressa, com o olhar alternando entre a tela e um bloco de anotações.
— Com licença — chamei seco. — Procuro por uma paciente chamada Stella Harper. Ela foi atendida há pouco, possivelmente com ferimentos no joelho.
A mulher me olhou por cima dos óculos, franzindo a testa.
— O senhor é parente?
— Não. — Fiz uma breve pausa, buscando uma justificativa aceitável. — Ela salvou a minha mãe. Quero agradecer pessoalmente e saber se precisa de algo.
Houve um instante de hesitação antes dela baixar os olhos para a tela. Seus dedos teclaram rápido, e em poucos segundos, ela confirmou:
— Sim, ela deu entrada hoje. Está no setor de curativos, no final do corredor à esquerda.
Assenti em silêncio e segui na direção indicada. Passei por algumas portas entreabertas, vislumbrando pacientes sendo atendidos, até que, ao dobrar a esquina, vi uma figura feminina encostada no balcão interno do setor.
O cabelo loiro, preso num coque baixo desalinhado, escapava em mechas que caíam pela nuca. Ela usava uma blusa simples, ligeiramente amassada, e uma calça jeans com um rasgo no joelho, exatamente onde um curativo branco se destacava.
Meu corpo inteiro ficou em alerta. A postura dela, mesmo de costas, parecia familiar. Como se meu cérebro reconhecesse antes mesmo dos meus olhos confirmarem.
Meus pés decidiram por mim.
Dei dois passos lentos, até que minha voz rompeu o silêncio:
— Stella?…

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!