STELLA HARPER
SEMANAS DEPOIS
Os dias seguintes foram um borrão de cuidados, precauções e um certo medo constante que eu tentava não deixar transparecer. Assim que li aquela mensagem ameaçadora, troquei o chip do celular no dia seguinte, na esperança de que o anônimo desistisse. Fui até a delegacia, registrei ocorrência, entreguei meu aparelho antigo com o número e tudo. Mas, como era de se esperar, a resposta da polícia foi um genérico: “Vamos investigar”. Investigação essa que não resultou em nada até agora, e imagino que não resultará em nada no futuro.
No fundo, eu sabia que a sensação de estar sendo observada não desapareceria só com um número novo ou um boletim de ocorrência, era impossível não me sentir assustada, mas tentei ignorar essa sensação o máximo que pude.
O tempo passou e, aos poucos, minha rotina foi se reencaixando. Os machucados sararam, o corte na testa virou apenas uma marca discreta, os arranhões no braço sumiram, e o joelho também cicatrizou e parou de reclamar depois de algumas sessões de gelo. Os gêmeos, apesar de abalados no início, se animaram quando começaram a frequentar a nova escola, acabaram se adaptando mais rápido do que eu esperava. Ainda teve choro nos primeiros dias, aquele apego na porta, mas logo as histórias sobre novos colegas e brincadeiras começaram a preencher as conversas no jantar.
Voltei ao trabalho no café do Alexander. “Café” era um termo modesto para aquele lugar, era um espaço enorme, sempre cheio, com mesas ocupando quase todo o quarteirão e um movimento constante de clientes. No cargo de assistente dele, eu cuidava de agenda, reuniões, pedidos de fornecedores… mas, inevitavelmente, também acabava atrás do balcão ajudando os funcionários quando o fluxo aumentava e não havia nada importante no escritório.
Alexander, por sua vez, já tinha se mudado para o próprio apartamento, embora passasse grande parte do dia no café e o terminasse com um jantar em casa. Nossa convivência era prática, com ele me tratando como parte indispensável da engrenagem que fazia aquele negócio girar. E eu precisava admitir: depois do acidente e de todo o caos, trabalhar ali me trazia uma estranha sensação de segurança.
Naquela tarde, o relógio marcava 16h era o fim da aula dos meninos na escola de tempo integral, deixei uma pilha de notas organizadas sobre a mesa do escritório.
— Vou buscar os gêmeos na escola. — avisei, pegando minha bolsa.
— Não demore. Hoje o movimento vai aumentar mais cedo, tem jogo no estádio. — Alexander respondeu, conferindo algo no computador.
— Eu volto em menos de meia hora, só vou levar eles até a Leah.
Ele apenas assentiu, concentrado na tela. Saí pela porta lateral e caminhei até o carro, aproveitando o sol ameno daquele final de outono.
A escola dos meninos ficava a menos de dez minutos dali. Quando cheguei, Orion e Apollo já estavam me esperando na frente do portão, com as mochilas penduradas de qualquer jeito e conversando um com o outro alegremente.
— Mamãe! — gritaram em uníssono, correndo até mim quando o guarda abriu a porta e acenei para ele em agradecimento.
— Como foi o dia? — perguntei, agachando para abraçá-los.
— Eu ganhei no pega-pega! — Orion anunciou, com um sorriso orgulhoso.
— E eu li na frente da turma! — Apollo completou, me mostrando um papel amassado com uma mensagem de parabéns da professora.
— Isso é incrível! — elogiei, beijando o topo da cabeça de cada um. — Vamos?
Coloquei-os no banco de trás, prendi os cintos e seguimos para o apartamento da Leah. Ela já estava na porta quando estacionamos.
— Oi, tia Leah! — os dois gritaram, correndo para abraçá-la.
— Oi, meus amores! — ela retribuiu o abraço, olhando para mim logo em seguida. — Tudo certo?
— Tudo sim. — respondi, entregando-lhes as mochilas. — Vou voltar pro café, mas prometo que não vou demorar.
Ela assentiu, segurando as mãos dos gêmeos para entrar.
[...]
Quando voltei para buscá-los no início da noite, Leah parecia exausta, embora tentasse disfarçar. Os meninos estavam no tapete, cercados por blocos de montar, tão concentrados que nem notaram minha chegada.
— Prontos para ir? — perguntei, e eles largaram tudo para calçar os sapatos.
Ela suspirou, mas não discutiu. Apenas me abraçou rapidamente.
— Tá bom. Mas, até lá, estou à disposição.
— Obrigada. — sorri, me desculpando por sair apressada. — Boa noite.
Coloquei os gêmeos no carro e seguimos para casa. Eles conversavam no banco de trás, discutindo sobre quem ia escolher o filme daquela noite.
Virei a última esquina e diminui a velocidade ao me aproximar da nossa rua. Foi aí que notei que um carro estava parado exatamente na frente da minha casa. Preto, vidros escurecidos, motor desligado. Não parecia ser de nenhum vizinho.
Meu coração acelerou, e a conversa dos meninos ao fundo se tornou um ruído distante.
Estacionei do outro lado da rua, tentando avaliar. O veículo parecia completamente imóvel, mas o fato de estar tão próximo da minha porta, numa rua onde raramente havia carros estacionados, tornava tudo errado.
— Meninos, fiquem aqui. — pedi, com um tom firme que fez os dois se calarem imediatamente.
Abri a porta do motorista, respirei fundo e atravessei a rua, com meus olhos fixos no carro.
Quando cheguei a poucos metros de distância, a porta do lado do motorista se abriu devagar, como em câmera lenta.
Meu corpo ficou tenso, e minhas mãos se fecharam em punhos. Senti a respiração ficar presa quando lhe reconheci.
— Foi um pouco difícil te achar, Stella Harper.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!