STELLA HARPER
A porta do carro abriu devagar, como se o tempo tivesse diminuído só para me torturar.
A primeira coisa que vi foram as botas de salto, depois a bainha de um sobretudo bege que caía perfeitamente até o joelho. Ela levantou o rosto e, quando a luz do poste tocou seus traços, minha respiração ficou presa.
— Foi um pouco difícil te achar, Stella Harper. — A voz dela era brincalhona e não havia hostilidade, na verdade soava como alguém que havia ensaiado aquela frase durante todo o caminho até aqui.
— Elaine… — meu tom saiu quase num sussurro.
A última vez que eu tinha visto aquela mulher, a situação tinha sido completamente diferente. Olhando para ela agora, parece até mentira que ela sofreu um acidente semanas atrás. Agora, ela estava ali, diante da minha casa, me fazendo ter diversos pensamentos preocupantes ao mesmo tempo.
— Não quis aparecer de surpresa, mas… — ela deu de ombros, segurando uma sacola de papel nas mãos. — Acho que não havia outra forma.
Olhei para trás. Os gêmeos estavam com os rostos colados ao vidro do carro, tentando ver quem era.
Suspirei. Não havia como fugir daquele momento.
— Entre. — falei, fazendo um gesto em direção ao portão. — Vamos conversar lá dentro.
Me afastei para tirar os meninos do carro e voltei para ela. Elaine seguiu meus passos, enquanto os meninos andavam colados a mim olhando para a visitante com desconfiança.
— Quem é, mamãe? — Orion perguntou, curioso, com os olhos alternando entre mim e a estranha.
— Uma amiga — respondi, evitando detalhes e abri a porta. — Vão lavar as mãos antes de comer.
Eles hesitaram, mas obedeceram, correndo para o corredor. Elaine observou-os se afastando e vi um pequeno sorriso se formando nos seus lábios.
— Eles são… — Ela buscou a palavra certa, era difícil descrever alguém em uma única palavra. — Encantadores.
— Sim. — fechei a porta e pendurei minha bolsa no gancho. — Sente-se.
Ela se acomodou no sofá, mas não de qualquer jeito, manteve a postura ereta, as mãos apoiadas sobre o colo e me seguiu com os olhos enquanto colocava a chaleira para esquentar a água. Voltei para perto dela, sentando em uma poltrona próxima e nos encaramos em silêncio.
— Eu trouxe algo. — Ela estendeu a sacola de papel. — Para você e para eles. É um pequeno agradecimento, mas minha promessa sobre te ajudar com qualquer coisa que precisar está valendo.
Aceitei, desconfiada, e tirei de dentro três caixas cuidadosamente embrulhadas. As duas menores tinham desenhos coloridos e etiquetas sem os nomes.
— A propósito, qual o nome dele? — Ela perguntou tirando uma caneta da bolsa.
— Apollo e Orion. — Digo observando ela pegar as duas caixas menos e escrever.
— Espero que eles gostem — disse Elaine, observando minha reação. — E que você também. É só uma lembrança.
— Realmente não precisava… — murmurei, mas minha voz saiu baixa.
A chaleira chiou e levantei para preparar o chá, enquanto eu colocava as xícaras na bandeja, ouvi passos apressados no corredor. Orion foi o primeiro a aparecer, com as mãos ainda molhadas, provavelmente só passou os dedos na água. Apollo veio logo atrás, secando as dele na camiseta.
— Qual o nome dela? — Apollo perguntou diretamente, apontando para Elaine.
— Meu nome é Elaine. — Ela sorriu. Nunca pensei que algum dia teria a avó dos meus filhos na sala da minha casa e interagindo com eles.
— É sua amiga mamãe? — Orion quis saber, olhando para mim.
— Sim. — respondi, controlando o tom para que soasse casual. — E ela trouxe presentes para vocês.
Os dois arregalaram os olhos. Orion foi o primeiro a pegar o pacote com o próprio nome. Sentou-se no tapete e começou a rasgar o papel com pressa. Apollo ainda olhava para mim, como se quisesse uma confirmação silenciosa de que estava tudo bem e eu assenti.
Quando abriram, gritos de empolgação preencheram a sala. Orion segurava um kit de dinossauros articulados, enquanto Apollo descobria um conjunto de blocos magnéticos.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!