DAMIAN WINTER
Stella acabou saindo do trabalho dela mais cedo. Os meninos falavam no banco de trás, disputando quem chegaria primeiro no videogame, mas Stella não abriu a boca uma vez sequer. Eu não esperava que abrisse. Ela parecia sempre medir as palavras quando estava perto de mim, como se cada frase pudesse ser usada contra ela. Não estava errada.
Quando Jonas estacionou diante da casa, os meninos foram os primeiros a saltar. Stella os seguiu, carregando mochilas, tentando manter aquela aparência de normalidade que ela tanto prezava ultimamente. Eu entrei atrás, observando como ela olhava para todos os cantos, como se ainda estranhasse o fato de ter homens meus cuidando dos arredores.
Os meninos sumiram para o quarto, rindo alto, deixando apenas o silêncio entre nós dois.
— Vai ainda voltar para o trabalho? — ela perguntou sem me encarar.
— Sim. — ajeitei a gravata. — Ainda tenho relatórios para revisar.
Ela assentiu. Não tinha como deixar sua intenção mais óbvia. Ela queria que eu fosse, mas não tinha coragem de pedir. Era assim que funcionava, quando se tratava dela eu sempre percebia as coisas antes que fossem ditas.
Estendi a mão.
— Me dá o seu telefone.
Ela pareceu surpresa.
— O quê?
— Quero ter o seu número de celular. — repeti, paciente.
Entregou o aparelho com uma hesitação nítida. Digitei meu número liguei para mim e devolvi. Eu precisava ter um canal direto com ela, não depender de intermediários.
Quando já ia me virar, ela falou novamente.
— Damian, eu preciso pedir uma coisa.
A escolha de palavras me fez arquear a sobrancelha.
— Eu sei que você quer garantir a segurança dos meninos e me vigiar… mas é constrangedor trabalhar com guardas dentro do café. — começou, rapidamente deviando os olhos nervosos. — Eles chamam atenção, deixam os clientes desconfortáveis. Hoje Alexander quase perdeu a paciência.
A menção ao nome dele fez meu maxilar endurecer. Eu sabia que cedo ou tarde ele se irritaria. Não me importava. O que me importava era manter Stella e os meninos intactos e ao meu alcance.
— Se eles ficassem do lado de fora já seria suficiente. — ela continuou. — Eu prometo que vou ficar quieta. Não vou sair, não vou tentar nada. Só… me deixa ter um pouco de normalidade lá dentro.
Normalidade. Uma palavra que não cabia mais na vida dela. Nem na minha.
Cruzei os braços, analisando cada expressão do rosto dela. Era óbvio que eu diria não. Era mais seguro assim. Mas, antes que eu pudesse pronunciar a palavra, ela deu um passo à frente e tocou a minha mão. O gesto me surpreendeu e desejei mais dele.
— Por favor. — disse baixo.
Por um instante, considerei a resposta lógica: negar. Mas algo em mim hesitou. Não sei se ela sabia, mas já havia aprendido a usar a fragilidade como arma. E funcionava.
Soltei um suspiro contido.
— Está bem. Eles ficam do lado de fora.
O alívio estampado no rosto dela foi imediato. Antes que ela retirasse a mão, deixei meus dedos roçarem os dela, e em seguida toquei sua bochecha.
Não foi um gesto pensado. Foi instintivo. E Stella inclinou-se para o toque. Retirei a mão devagar, recuperando a compostura.
— Eu venho vê-los amanhã. — disse.
— Tá certo. — respondeu, com a voz presa.
Olhei na direção do corredor, onde os meninos foram e segui até o quarto para me despedir deles. Voltei a sala e encontrei Stella parada no mesmo lugar.
— Boa noite, Stella.
— Boa noite, Damian. — murmurou.
STELLA HARPER
Já passava das dez da noite quando o celular vibrou na mesinha ao lado da cama.
Um número desconhecido.
Ignorei. Quem ligaria àquela hora? Ainda mais de um número que não estava salvo. Por um momento me preocupei que pudesse ser a mesma pessoa das mensagens de ameaça, mas descartei o pensamento.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!