STELLA HARPER
Sentei na cama e fiquei imóvel por alguns segundos, encarando o nada. Era como se as paredes ao meu redor girassem em câmera lenta. O ar parecia rarefeito, difícil de puxar. A única coisa que eu conseguia ouvir era o som do meu próprio coração batendo descompassado no peito.
— Isso é... muita loucura — murmurei, ainda incrédula. — Eu não sei nem o que pensar, o que dizer.
Meu olhar finalmente voltou para ele. Os olhos de Damian estavam fixos nos meus. Aquela maldita confiança ainda estava lá como se o mundo inteiro se curvasse diante de sua vontade.
— Meu Deus... — apertei os dedos contra os lençóis, tentando me segurar em algo real. — Você é um bastardo, manipulador egoísta do caralho, Damian.
Seus lábios se curvaram levemente, como se aceitasse a acusação.
— Talvez eu seja. — respondeu, com calma, como se aquilo não fosse o insulto devastador que era.
Engoli em seco, a garganta seca. Minha mente girava em círculos, entre o choque e a dor. Mas então uma imagem tomou conta de mim: dois meninos correndo pelo corredor, sorrindo, brigando, rindo alto.
Apollo. Orion.
A melhor parte de mim.
Meu peito apertou com uma nova angústia.
— Mas ao mesmo tempo… — minha voz quebrou, e precisei respirar fundo. — Apollo e Orion são a melhor coisa que já aconteceu na minha vida. Se eu odiar o que você fez… isso significa que eu odeio meus filhos?
Minha pergunta ficou suspensa no ar, como um sussurro pesado demais para desaparecer. Meus olhos marejaram, mas não chorei. Eu não podia chorar.
Foi nesse momento que senti a mão dele pousar na minha coxa.
— Stella — disse baixo, quase aveludado. — Eu errei em não ter sido honesto. Mas você precisa entender… eu faria tudo de novo. Eu queria você, queria nossos filhos. E agora eles estão aqui. Você também está. O que mais importa?
Fechei os olhos por um instante, tentando não ceder àquela voz, àquele tom que me confundia. Ele não estava arrependido. Não do jeito que deveria estar.
— Você pede fala como se fosse uma falha pequena — sibilei, encarando-o de volta, desta vez sem recuar. — Como se trocar os anticoncepcionais de uma mulher não fosse grave. Como se enganar alguém dessa forma fosse… aceitável.
— Eu não disse que foi aceitável — corrigiu, num tom que parecia quase paciente demais. — Disse que foi necessário.
— Você nem se sente mal pelo que fez. — minha voz saiu trêmula, mas cheia de fúria. — Nem um pouco.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. Ele não desviou o olhar, não piscou, apenas me encarava como se eu fosse o centro de todo o seu universo e isso era terrível, porque me afetava.
— Me sinto mal pelo erro de cálculo. — respondeu por fim, com a calma gélida que só ele parecia dominar. — A sua fuga nunca entrou na minha equação. Eu tinha certeza que você viria até mim.
Meu estômago virou. A frieza com que admitia aquilo me fazia querer gritar. Ele falava de mim, da minha vida, da minha liberdade, como se tudo fosse parte de um plano de negócios mal executado. Como se eu fosse apenas uma variável fora de controle.
— Você é inacreditável. — soltei, erguendo-me da cama num impulso. — Eu não quero mais nem olhar pra sua cara.
Dei dois passos, mas sua mão firme me agarrou pelo braço antes que eu pudesse sair. O toque não foi agressivo, mas foi inegavelmente controlador.
— Você está com raiva. — murmurou, aproximando-se até que sua sombra se misturasse à minha. — E tem todo o direito de estar. Eu vou te dar um tempo, Stella. Você precisa organizar os pensamentos e ver que o passado não pode ser mudado… mas o futuro ainda está diante de nós.
Sacudi a cabeça. Eu não queria futuro com ele. Mas as palavras não saíram.
Damian inclinou o rosto e deixou um beijo rápido em meus lábios. Quando se afastou, percebi que minha respiração estava descompassada. Ele então girou a chave na porta, destrancando-a com um movimento natural, como se nada tivesse acontecido ali dentro.
Abriu a porta, lançando-me um olhar antes de olhar para o corredor. Sua voz grave ecoou logo depois, chamando pelos meninos.
— Apollo, Orion… venham aqui decidir o que vocês querem comer no almoço!

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!