STELLA HARPER
A casa estava em silêncio quando abri a porta. Um silêncio quase suspeito, considerando que eu tinha dois meninos cheios de energia correndo por ali a maior parte do tempo. Fechei a porta atrás de mim devagar, pendurei a bolsa no cabide do hall de entrada e fiquei alguns segundos apenas ouvindo.
Nada.
Nenhuma corrida, nenhum brinquedo espalhado no chão, nenhuma gargalhada ecoando de outro cômodo.
Franzi o cenho, larguei os sapatos ao lado da porta e comecei a subir as escadas, passo a passo.
Foi então que ouvi as risadas. Altas e infantis, misturadas com uma voz feminina, suave e alegre. O som vinha do quarto de Orion.
Respirei aliviada e acelerei o passo.
Quando empurrei a porta, encontrei Orion sentado no tapete, com os carrinhos alinhados em fileira como se fosse uma pista de corrida improvisada. Apollo estava ao lado, erguendo um aviãozinho de brinquedo e fazendo barulhos de motor. E com eles havia uma jovem, de cabelos castanhos longos presos em um rabo de cavalo simples, rindo junto às travessuras deles.
Assim que me viram, meus meninos gritaram em coro:
— Mamãe!
Largaram os brinquedos e correram até mim. Ajoelhei-me, acolhendo os dois nos braços, enquanto eles me cercavam com beijos e braços pequenos e quentes.
— Vocês estão animados, pelo visto. — sorri, ajeitando uma mecha do cabelo de Orion que caía sobre seus olhos.
— A Larissa sabe brincar de corrida de carro melhor do que a gente! — Orion anunciou, empolgado.
Apollo completou:
— E ela faz o avião voar de verdade, mamãe!
Levantei o olhar e encontrei a moça que ainda estava sentada no tapete, agora sorrindo timidamente para mim. Ela se levantou e se aproximou, estendendo a mão.
— Oi, senhora Harper. Eu sou Larissa Santos.
Apertei sua mão e retribuí o sorriso.
— Pode me chamar só de Stella. — respondi, observando o sotaque em sua fala. — Você não é daqui, certo?
Ela balançou a cabeça, rindo baixo.
— Não. Eu sou do Brasil.
— Ah, eu sabia. — disse, curiosa. — O sotaque é bem fofo. Eu gosto.
— Obrigada. — ela respondeu, um pouco envergonhada. — Mesmo assim estou me dedicando para sumir com ele.
Afastei-me dos meninos e encarei os dois com seriedade fingida.
— Certo, engenheiros da bagunça, é hora de se prepararem para o jantar. Lavem as mãos e desçam.
— Mas mamãe… — Apollo começou a protestar, mas um olhar meu foi o suficiente para ele suspirar derrotado. — Tá bom…
Eles saíram correndo pelo corredor, cada um em direção ao banheiro, discutindo quem ia lavar as mãos primeiro. Respirei fundo e olhei de volta para Larissa, que ajeitou os cabelos com um gesto nervoso.
— Venha comigo. — falei, descendo as escadas até a cozinha.
Enquanto colocava o jantar para esquentar, ela se encostou discretamente na bancada, olhando em volta como quem ainda estava se acostumando à casa.
— Faz muito tempo que você está nos Estados Unidos, Larissa? — perguntei, para quebrar o silêncio.
— Um ano. — respondeu. — Mas parece muito mais.
— Imagino. — continuei mexendo nas panelas. — Deve ter sido uma grande mudança.
Ela assentiu, os olhos perdidos por um instante, como se lembrasse de algo distante.
— Foi, sim. Mas às vezes a gente não escolhe, né?
Havia algo melancólico na forma como ela disse aquilo, mas não insisti. Servi a comida em travessas, coloquei na mesa e logo os meninos voltaram correndo, agora de mãos limpas e com os cabelos ainda úmidos do jeito estabanado que só eles sabiam lavar o rosto.
— Senta, Larissa. — falei, puxando uma cadeira.
— Ah, não precisa, eu…

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!