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Querido chefe, os gêmeos não são teus! romance Capítulo 62

STELLA HARPER

A casa estava em silêncio quando abri a porta. Um silêncio quase suspeito, considerando que eu tinha dois meninos cheios de energia correndo por ali a maior parte do tempo. Fechei a porta atrás de mim devagar, pendurei a bolsa no cabide do hall de entrada e fiquei alguns segundos apenas ouvindo.

Nada.

Nenhuma corrida, nenhum brinquedo espalhado no chão, nenhuma gargalhada ecoando de outro cômodo.

Franzi o cenho, larguei os sapatos ao lado da porta e comecei a subir as escadas, passo a passo.

Foi então que ouvi as risadas. Altas e infantis, misturadas com uma voz feminina, suave e alegre. O som vinha do quarto de Orion.

Respirei aliviada e acelerei o passo.

Quando empurrei a porta, encontrei Orion sentado no tapete, com os carrinhos alinhados em fileira como se fosse uma pista de corrida improvisada. Apollo estava ao lado, erguendo um aviãozinho de brinquedo e fazendo barulhos de motor. E com eles havia uma jovem, de cabelos castanhos longos presos em um rabo de cavalo simples, rindo junto às travessuras deles.

Assim que me viram, meus meninos gritaram em coro:

— Mamãe!

Largaram os brinquedos e correram até mim. Ajoelhei-me, acolhendo os dois nos braços, enquanto eles me cercavam com beijos e braços pequenos e quentes.

— Vocês estão animados, pelo visto. — sorri, ajeitando uma mecha do cabelo de Orion que caía sobre seus olhos.

— A Larissa sabe brincar de corrida de carro melhor do que a gente! — Orion anunciou, empolgado.

Apollo completou:

— E ela faz o avião voar de verdade, mamãe!

Levantei o olhar e encontrei a moça que ainda estava sentada no tapete, agora sorrindo timidamente para mim. Ela se levantou e se aproximou, estendendo a mão.

— Oi, senhora Harper. Eu sou Larissa Santos.

Apertei sua mão e retribuí o sorriso.

— Pode me chamar só de Stella. — respondi, observando o sotaque em sua fala. — Você não é daqui, certo?

Ela balançou a cabeça, rindo baixo.

— Não. Eu sou do Brasil.

— Ah, eu sabia. — disse, curiosa. — O sotaque é bem fofo. Eu gosto.

— Obrigada. — ela respondeu, um pouco envergonhada. — Mesmo assim estou me dedicando para sumir com ele.

Afastei-me dos meninos e encarei os dois com seriedade fingida.

— Certo, engenheiros da bagunça, é hora de se prepararem para o jantar. Lavem as mãos e desçam.

— Mas mamãe… — Apollo começou a protestar, mas um olhar meu foi o suficiente para ele suspirar derrotado. — Tá bom…

Eles saíram correndo pelo corredor, cada um em direção ao banheiro, discutindo quem ia lavar as mãos primeiro. Respirei fundo e olhei de volta para Larissa, que ajeitou os cabelos com um gesto nervoso.

— Venha comigo. — falei, descendo as escadas até a cozinha.

Enquanto colocava o jantar para esquentar, ela se encostou discretamente na bancada, olhando em volta como quem ainda estava se acostumando à casa.

— Faz muito tempo que você está nos Estados Unidos, Larissa? — perguntei, para quebrar o silêncio.

— Um ano. — respondeu. — Mas parece muito mais.

— Imagino. — continuei mexendo nas panelas. — Deve ter sido uma grande mudança.

Ela assentiu, os olhos perdidos por um instante, como se lembrasse de algo distante.

— Foi, sim. Mas às vezes a gente não escolhe, né?

Havia algo melancólico na forma como ela disse aquilo, mas não insisti. Servi a comida em travessas, coloquei na mesa e logo os meninos voltaram correndo, agora de mãos limpas e com os cabelos ainda úmidos do jeito estabanado que só eles sabiam lavar o rosto.

— Senta, Larissa. — falei, puxando uma cadeira.

— Ah, não precisa, eu…

— Eu estudava. — respondeu, girando o garfo entre os dedos. — E trabalhava quando dava.

— E por que decidiu vir para cá? — perguntei, olhando para ela com curiosidade sincera.

O sorriso leve desapareceu. A expressão dela se fechou, e por um instante o silêncio pesou entre nós. Larissa respirou fundo, como se buscasse coragem, e quando falou sua voz saiu trêmula:

— Porque… eu não tinha escolha. O Brasil já não parecia um lar para mim depois que toda a minha família morreu.

Senti um arrepio percorrer minha pele. Os garfinhos dos meninos ficaram suspensos no ar.

— Sinto muito. Quer falar sobre isso? — perguntei baixinho, quase sem querer ouvir a resposta.

Os olhos de Larissa se encheram de lágrimas.

— Uma noite… homens armados invadiram nossa casa. Eu não sei por quê, até hoje. Eles… — a voz falhou, e ela levou a mão à boca, sufocando um soluço. — Eles mataram todos. Meus pais, meus dois irmãos, minha avó. Só eu fui salva, o tiro que levei não foi fatal. Sou a única sobrevivente.

Apollo arregalou os olhos, Orion deixou o garfo cair no prato. Meu coração se apertou com uma dor que não era minha, mas que parecia me atravessar do mesmo jeito.

— Larissa… — murmurei, mas ela já chorava, as lágrimas escorrendo livres agora.

— Eu não conseguia mais ficar lá. Cada rua, cada esquina me lembrava. Então vim pra cá. Era isso ou enlouquecer. — sua voz quebrou de vez, e ela cobriu o rosto com as mãos. — Desculpem… eu não queria estragar o jantar de vocês.

Me levantei sem pensar e me aproximei dela. Meus meninos também se levantaram e a cercaram. Apollo abraçou sua cintura com força, e Orion segurou sua mão entre as dele.

— Não chora, Lari. — Apollo pediu. — A gente tá aqui com você.

— Me desculpem, eu...

Ela deixou escapar um soluço mais alto, tentando se desculpar, eu a envolvi num abraço apertado, com os meninos ainda grudados nela.

— Está tudo bem. — sussurrei, passando a mão por suas costas. — Você pode chorar.

Larissa afundou o rosto em meu ombro, tremendo, e eu segurei firme. Ela era uma sobrevivente tentando encontrar um lugar seguro para recomeçar. Não posso nem imaginar a dor que ela está sentindo, todos os meus problemas parecem formigas perto do que ela esteve enfrentando, e não tem nada que alguém possa fazer para tirar essa dor dela.

É muito triste e frustrante não poder fazer nada por alguém despedaçado em sua frente.

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