O lobo cinzento arregalou ainda mais os olhos. Pelo campo, o rugido da voz do supremo se espalhou como um trovão mental, atingindo cada mente ali.
“Mande seus homens pararem!” As palavras vinham rasgadas, guturais, mas claras.
Vários lobos de Atlas engasgaram com o próprio ar.
Alguns olharam um para o outro, confusos, sem saber se obedeciam ao medo antigo que tinham do rei das montanhas ou ao respeito instintivo que sentiam pelo supremo. Raposas pararam, as orelhas em pé. As bruxas suspenderam os feitiços ofensivos, mantiveram só as barreiras, esperando.
Dentro da cabeça de Atlas, outra guerra começou.
“DÊ A ORDEM!” River pressionou um pouco mais a pata contra o peito dele, sentindo as costelas do irmão rangerem. “Acaba com isso. Agora.”
Atlas riu, uma risada quebrada, desesperada, mas que ainda transbordava arrogância.
“Você acha… que eu vou obedecer você?” A voz veio áspera, com dificuldade, mas o veneno continuava lá. “Você realmente acha que eu vou ver meus homens deitarem como cachorros? Prefiro morrer cuspindo sangue na sua cara do que dar a você a satisfação de ver eu me render.”
River fechou um pouco os olhos, sentindo aquela resposta pesar.
Por um instante, uma parte dele quis insistir. Quis lembrar de novo dos dois garotos correndo pela mata, dos planos, das promessas, quis perguntar por quê mais uma vez.
Mas já sabia a resposta.
Ele sempre soube.
Atlas continuou.
“Enquanto eu estiver respirando…” O lobo cinzento tentou erguer a cabeça, mas a pata pesada do supremo não permitiu. “Vou caçar você, vou caçar a sua filha. Um dia, River, um dia… A loba-oráculo vai ser minha, nem que eu tenha que tomar o corpo dela depois que ela morrer. Nem que eu tenha que…”
River não deixou ele terminar.
Algo dentro dele se partiu, não como a culpa de antes, mas como uma corda que finalmente tinha atingido o limite. O amor que sentia pela família, pela alcateia, pelo que ainda podia ser salvo, esmagou o resto.
“Então acabou.” A voz dele veio baixa, mortal.
Por um segundo, Atlas pareceu entender.
Os olhos tremeram, buscando algum resquício de misericórdia no olhar igualmente vermelho do irmão. Encontrou apenas firmeza, fúria, e algo pior para ele: decisão.
“Você é meu irmão…” Atlas tentou, pela primeira vez deixando a arrogância vacilar.
“Você deixou de ser.” River rosnou de volta. “Quando encostou na minha Luna, quando levantou a mão para a minha filha. Quando me usou para matar a companheira que você mesmo marcou... Você não é mais sangue do meu sangue, é uma ameaça!”
Os lobos ao redor sentiram a sentença cair como um peso.
“E ameaça…” O supremo completou, a voz ecoando pelo campo inteiro. “…eu destruo.”
Não hesitou.
O Lycan moveu a cabeça num golpe rápido e certeiro, tão preciso que nem parecia vir de uma criatura daquele tamanho. As mandíbulas de River se fecharam na garganta de Atlas, bem no ponto em que o lobo cinzento já tinha tantas cicatrizes de lutas passadas.
O rei das montanhas uivou.
Um uivo longo, cortado pela dor, pela surpresa, pelo fim.
River apertou.
E foi ali, naquele instante, que a ficha dela caiu.
Ela lembrou.
Lembrou da visão, da alcateia destruída, da mãe caída morta ao lado do pai, do lobo cinzento coberto de sangue avançando sobre o Lycan supremo, da frase ecoando na mente de todos: “Se não vão me dar a loba-oráculo, vou pegar à força.”
Na visão, seu pai tinha morrido.
Na visão, Atlas tinha vencido.
Na visão, não havia supremo de pé, vivo, uivando pro céu.
Lua engoliu em seco, o coração batendo tão rápido que parecia que ia atravessar o peito. Os olhos roxos se encheram de lágrimas, mas não eram de desespero, eram de algo novo.
Esperança.
Ela olhou de River para Lyra, de Lyra para os aliados que ainda lutavam, de volta para o corpo sem vida de Atlas. A cena era diferente de tudo o que tinha visto na própria cabeça. Diferente demais.
O futuro tinha mudado.
“Eu…” A loba-oráculo respirou fundo, a mente girando rápido. “Eu vi ele matando todo mundo. Vi ele matando meu pai. Vi… vi o fim da Lua Sangrenta nas patas desse monstro.”
Caleb se aproximou por trás, a fera, agora quase humana, ainda em forma híbrida, com sangue seco pelo corpo. Ele encostou o focinho na lateral dela, silencioso, apenas sentindo a mente da companheira correr.
Lua fechou os olhos e, quando abriu de novo, tudo pareceu mais nítido.
“Eu mudei, nós mudamos. A visão… morreu com ele.”

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Rejeitada: A Luna do Alfa supremo
Excelente pena que nao tem o livro impresso....
Muito bom! Livro excelente! História bem amarrada! Estou quase no final! Recomendo!...