O cheiro de café fresco e ovos mexidos acordou Clara. Era uma anomalia. Em seis anos, a cozinha do apartamento nunca tivera um cheiro de café da manhã.
Ela saiu do quarto, hesitante, e a cena que encontrou a fez parar.
Arthur Montenegro, de camisa social e sem o paletó, estava em frente ao fogão, virando uma panqueca com a destreza de quem sabia o que estava fazendo.
Uma memória amarga a atingiu. Anos atrás, no início do casamento, ela encontrou um livro de receitas na biblioteca dele, cheio de anotações. Eram todas as comidas favoritas de Isabela Ferraz. Ele tinha aprendido a cozinhar para outra mulher.
Ele a viu e, para sua surpresa, sorriu. Um sorriso pequeno, quase imperceptível.
—Bom dia. Fiz o café da manhã.
Na mesa, a Sra. Fátima, a nova babá contratada por Arthur, já estava servindo um copo de suco. O sorriso de Arthur se alargou.
—Você trabalhou até tarde ontem, precisa se alimentar bem. — disse ele, colocando um prato na frente de Clara. O gesto era tão publicamente atencioso que a fez sentir um calafrio.
Era tudo um teatro para a funcionária. A farsa do casal feliz.

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