POV Lianna
A lâmpada fria da sala cirúrgica piscava de leve, como se até ela estivesse exausta. Eu tirei a máscara devagar, sentindo o elástico marcar meu rosto. A cirurgia tinha durado quase dez horas. Dez horas de tensão contínua, de pulso firme, de mente presa numa única linha: manter o coração daquela paciente batendo.
A equipe se dispersava, arrastando os pés, e eu fiquei alguns segundos parada, respirando fundo. O suor escorria pela nuca. Minhas mãos tremiam, mas era aquela tremedeira boa, de missão cumprida. O cansaço vinha forte, latejando nos ossos.
Peguei meu celular. Duas mensagens de Amanda: “Eles estão bem. Jantaram. Já vão tomar banho.”
“Respira, Li.”
Respira. Eu precisava.
O corredor noturno estava silencioso, como se o hospital prendesse o ar quando eu passava. O turno da noite sempre foi meu favorito, menos gente, menos caos, mais espaço pra existir sem ser tragada pela realidade. Mas hoje… hoje eu só queria um banho quente e 10 minutos de paz.
No vestiário feminino, tirei o jaleco. Depois a blusa, as calças, o sutiã. Minha pele parecia carregar uma camada inteira de cansaço. Entrei no chuveiro e deixei a água quente me acertar como um abraço que eu não tinha forças pra buscar.
Meu corpo finalmente cedeu. As mãos escorreram pela nuca, pelos ombros doloridos, pela cintura.
Deixei a água cair sobre o rosto. Sobre a culpa.
Sobre o medo constante de Zayden descobrir as crianças. Sobre a cirurgia. Sobre Camille convulsionando. Sobre o fato de eu ter salvado a mulher que destruiu minha vida.
A água começou a esfriar. Fechei a torneira e respirei fundo uma última vez.
Peguei a toalha. Enrolei-a no corpo e fui para o meu armário, ainda úmida, descalça, a cabeça pesada. O vestiário estava vazio. Eu gostava disso. Gosto daquela sensação de existir só comigo mesma.
Soltei a toalha, deixando-a cair no banco.
Fiquei nua.
Mais leve, mais livre, mais vulnerável.
Peguei a roupa íntima limpa. Abaixei a cabeça. Minha mente estava longe, muito longe.
Foi aí que senti.
Aquela mudança no ar. Um silêncio denso. Uma presença.
Eu congelei.
Levantei o rosto e o mundo parou.
Zayden estava parado na porta do vestiário.
Encostado no batente, terno escuro, respiração rasa, como se tivesse acabado de atravessar uma guerra. Os olhos dele… Deus. Eles me percorreram de cima a baixo num segundo que pareceu uma eternidade.
Ele não se moveu. Eu também não.
Só aquela respiração dele... curta, quebrada... provava que aquilo não era uma ilusão da minha exaustão.
— Lianna…
A voz saiu baixa, rouca. Aquela voz que me desmontou um dia. Que me destruiu depois. Um arrepio subiu pela minha espinha, queimando. Mas meu rosto gelou.
— Saia. — foi tudo o que consegui dizer.
Ele não se mexeu.
— Eu procurei você o hospital inteiro. — murmurou, como se aquilo justificasse violar o único espaço onde eu ainda tinha controle. — Camille está estável. Mas eu… eu preciso falar com você.
— Saia. — repeti, mais firme, mesmo que a vergonha estivesse queimando minha pele.
Ele deu um passo. UM PASSO.
Eu senti o chão vacilar.
— Não se aproxima. — minha voz saiu baixa, cortante. — Você não tem o direito de entrar aqui.
— Eu sei. — disse ele, e algo no tom fez meu coração errar o compasso. — Mas eu perdi esse direito no dia em que perdi você. Não consegui aceitar isso ainda.
Eu engoli seco.
— Zayden, eu estou… — respirei fundo — nua.
Ele piscou, como se só agora percebesse o óbvio, mas o olhar dele denunciou que já sabia desde o primeiro segundo.
— Eu nunca quis te fazer mal. — ele murmurou.
Eu ri. O riso mais vazio da minha vida.
— Você me fez mal todos os dias durante anos. O problema é que achava que amor e destruição podiam dividir a mesma cama.
Ele engoliu seco. Deu um passo para trás. Não por mim. Por ele mesmo. Como se finalmente percebesse que ultrapassou uma linha da qual não tinha como voltar.
Silêncio. Silêncio que sufocava.
Eu me abaixei lentamente, peguei a toalha e enrolei no corpo, como se vestisse uma armadura improvisada.
— Vá embora, Zayden.
— Eu ainda te amo. — ele confessou, como um ferido que tenta estancar o próprio sangue.
Meu coração… não reagiu. Ele percebeu. E isso o destruiu mais do que qualquer insulto que eu pudesse dar.
— Vá embora. Você não sabe amar ninguém. — repeti.
Ele ficou parado alguns segundos. Uma eternidade. Então murmurou, quase inaudível:
— Eu te perdi… e não consigo aceitar.
Virou as costas e saiu. Eu soltei o ar.
Só percebi que estava chorando quando senti o gosto de sal na boca.
Chorei de raiva. De vergonha. De ódio. De medo, pelos meus filhos.
Porque se Zayden era capaz de me seguir até o vestiário… Ele era capaz de seguir qualquer rastro que eu tentasse esconder.
Fechei o armário com força. E jurei pra mim mesma, que eu não vou deixar ele destruir a única parte da minha vida que ainda é pura.
Os meus filhos.

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