POV Isadora Ferraz
No fim do espidiente, Dante me contou sobre um ótimo advogado que poderia me ajudar no processo de separação e se propos a ir comigo até o mesmo. O escritório era elegante. Silencioso. Cheirava a papel, café forte… e esperança. Dante estava ao meu lado. De camisa escura, mangas dobradas, olhos firmes. Não era o chefe.
Nem o amante. Era o aliado.
— Esse é o Dr. Matheus Alvim. Um dos melhores da cidade — disse, ao me apresentar ao advogado.
— Vai ser um prazer desenterrar esse casamento podre — o homem respondeu, seco, já abrindo a pasta com as páginas do inferno.
Me sentei. Assinei documentos. Contei tudo. Até os detalhes que doíam mais do que o necessário. Dante segurou minha mão. Em silêncio. Mas o toque dizia tudo: “você não está mais sozinha.” Por um momento, achei que o mundo estava voltando pro eixo.
Tola.
***
Três dias depois, eu estava na editora, revisando uma nova proposta de antologia, quando o celular vibrou com força.
Mensagem da assistente do setor de imprensa: “Isadora, você viu isso??”
Abri o link.
Título em caixa alta, num site de fofocas literárias:
“AUTORA REVELAÇÃO É ACUSADA DE PLÁGIO POR HEITOR MONTENEGRO!”
As palavras se embaralharam. Mas os nomes estavam lá.
Heitor Montenegro. Elena Castrini. Citando trechos de contos que supostamente seriam “esboços originais da ex-amiga”, encontrados no computador da própria Elena, com datas anteriores à publicação de Isa.
Fotos minhas. Trechos dos textos. Prints “adaptados”.
Meus dedos gelaram. O sangue desceu. Entrei no grupo de autores da editora. Já estavam falando.
Comentários frios. Cínicos. Insinuações.
Uma mensagem destacada: “Se isso for verdade, a carreira dela acabou.”
As palavras viraram navalhas. Sai da minha sala como um corpo em movimento automático.
Fui até a recepção. Pessoas me olhavam. Sussurravam. Encontrei Dante no corredor. O olhar dele já sabia.
— Eu vi — ele disse.
— Eles querem me enterrar.
— Eles vão falhar.
— E se não falharem?
Ele se aproximou. Os olhos quase furiosos.
— Isadora. Você é escritora. E eu sou editor. Eles podem até jogar lama, mas quem publica sou eu.
— E o mundo?
— O mundo? O mundo é covarde, mas adora uma reviravolta.
***
Horas depois, o advogado ligou.
— Precisamos provar que você escreveu os contos antes. Preciso de manuscritos, provas digitais, qualquer coisa.
Abri pastas antigas.
E-mails.
Notas de voz.
Rascunhos.
Chorando.
— Ele apagou meu drive, Dante. Quando ainda estávamos casados. Dizia que queria "organizar meus arquivos”.
— Vamos achar outro jeito.
***
Naquela noite, recebi outra mensagem. Número restrito.
“Se quiser que parem os ataques… retire o pedido de divórcio. Volte pra casa. Ou prepare-se pra ser apagada. Literalmente.”
Eu olhei pra tela. As mãos tremendo. As pernas bambas. Mas os olhos? Secos. Eu não ia recuar Nem se o inferno viesse assinar contrato.
***
A casa da Olívia estava silenciosa. Muito mais do que o normal. Ela me observava andando de um lado pro outro, com as mãos suadas e os olhos varrendo cada canto como se procurassem por oxigênio.
— Eu preciso de prova, Oli. Qualquer coisa. Qualquer rastro que prove que eu escrevi aquilo primeiro.
— A gente vai encontrar. — ela respondeu firme. — Você nunca escreveu só em um lugar.
— Ele apagou meu drive, o computador, tudo. Eu tinha dado a ele acesso total. Confiava nele completamente. Eu fui tão burra...
— Não foi burrice. Foi amor.
— Foi cegueira. E agora... ele tá usando isso contra mim.
Abri caixas antigas. Pastas, cadernos, bloquinhos. Folhas amareladas com frases soltas. Trechos que pareciam ruídos de mim mesma. Mas nada que comprovasse as datas.
— Preciso de um rascunho completo. Ou um e-mail antigo. Uma nota. Um áudio...
— Espera. — Olívia congelou.
Protegi. Preparei.
Mas não consegui dormir. Porque quando a gente sobrevive à guerra, a paz é o que assusta. De manhã, coloquei a roupa como quem veste armadura. Calça jeans escura. Blusa de botão branca. Cabelo preso.
Andei até o metrô com a cabeça erguida. Mas com os olhos atentos. E foi aí que senti. De novo. Aquela presença. Primeiro na esquina. Depois do outro lado da rua. E então, no reflexo da vitrine de uma padaria:
Alguém. Seguindo. Apenas dois metros atrás. Fingi que parei pra olhar um colar na vitrine. Inclinei sutilmente a cabeça. Espiei. Cabelo curto. Óculos escuros. Blusa de moletom cinza.
O mesmo de dias atrás? Talvez. Talvez outro. Talvez pior. Voltei a andar. Apertei o passo. Ele também. Entrei numa farmácia. Fingi procurar algo no corredor de sabonetes. Espiei pela fresta entre as prateleiras. Ele entrou também. Corri até o caixa, comprei qualquer coisa, saí sem olhar pra trás.
Peguei um táxi. O coração batendo fora de compasso.
— Pra onde, moça?
— Editora Vertigem.
Durante o trajeto, tentei me acalmar. Olhei pelo retrovisor. Nada. Nada. Nada… E então, um carro. Cinza.Com o mesmo homem. Agora… sorrindo. Com o dedo na boca. Pedindo silêncio. Quase vomitei ali mesmo. Cheguei na editora com os joelhos moles, mas não caí. Entrei no elevador com pressa. Passei direto pela recepção. Dante me viu.
Se levantou.
— Isa?
— Depois. Sala. Agora.
Fechei a porta. Larguei a bolsa.
— Ele está me seguindo.
— Como assim?
— É a segunda vez que isso acontece, Dante. Esse é mais imprudente. É mais perto. Mais ousado. Ele me viu. Sabe onde trabalho. Tá entrando nos meus espaços.
— Você tem certeza?
— Ele entrou numa farmácia comigo, Dante. Me seguiu de carro. Sorriu. Fez sinal de silêncio.
Dante não disse nada.
Só fechou os punhos.
— Me dá a chave do prédio. Do estacionamento.
Eu vou ver nas câmeras.
— E depois?
— Depois a gente arranca esse rato da toca.
Mas eu sabia. No fundo, eu sabia. Isso não era mais só sobre me assustar. Era sobre me silenciar. Definitivamente. E se Heitor queria isso… Que viesse. Porque agora eu tinha provas, um nome limpo, e raiva o suficiente pra escrever até com sangue.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”