POV Dante Harrison
Ver Isadora entrar na editora daquele jeito, pálida, os olhos arregalados, a respiração descompassada, me fez lembrar de uma coisa: Ela está em guerra. E guerra deixa marcas. Fui direto pra segurança.
— Preciso das gravações do estacionamento, entrada e frente do prédio. Hoje. Entre 7h e 10h.
O segurança quis perguntar por quê. Mas meu olhar matou a dúvida. Peguei o acesso. Fui pra sala de monitoramento. As câmeras rodavam rápido. Movimento, carros, ônibus, gente passando. E então… ali. Na entrada lateral. Um homem de moletom cinza. Exatamente como ela descreveu.
Zoom.
A imagem tremia, mas estava clara o suficiente. Cabelo curto. Óculos escuros. Andava como quem conhecia o terreno. Pausei. Olhei fixo. E então… Abaixou os óculos. Olhou direto pra câmera. Sorriu. Um sorriso longo, debochado, sádico. Capturei o frame. Enviei pro meu celular. Mas algo no rosto me incomodava. Algo… familiar.
Voltei ainda mais. Busquei outras gravações. De dias atrás. E ele estava lá. Novamente. Pela terceira vez. Caminhando entre os carros. Olhando pro prédio. Como quem estuda. Como quem espera.
Voltei pra minha sala. Enviei o frame pro advogado.
“Reconhece esse rosto?”
A resposta veio minutos depois.
“Sim. Rafael Montenegro. Primo de Heitor. Ex-segurança da antiga empresa dele. Foi demitido por comportamento instável. Tem antecedentes. Adivinha quem o recontratou semana passada?”
Bloqueei o celular. Sentei. Apertei os olhos. Eles estão mexendo no submundo. Querem quebrar ela por dentro. Antes de destruir por fora.
Fui até a sala de Isadora. Ela estava sentada, com os braços cruzados, olhando pro nada.
— Isadora.
Ela ergueu os olhos. Sem dizer nada.
— O homem que te seguiu… Ele tem nome.
— Quem?
— Rafael Montenegro. Primo do Heitor.
O rosto dela perdeu a cor.
— Ele já esteve na Fokus, a editora na qual trabalhei com Elena. Uma vez, no nosso coquetel do ano passado. Ele… ele tentou me agarrar no corredor. Eu gritei. A Elena disse que era exagero.
Que eu devia parar de “me fazer de vítima”.
A raiva subiu como labareda.
— Ele está vindo aqui atrás de você, Isa. E a gente vai acabar com isso.
Mas antes que eu pudesse planejar qualquer coisa, a porta da sala foi aberta com força.
— O que está acontecendo aqui?! — era Elena. Os saltos batendo no chão como tiros.
— Isa, precisamos conversar sobre o escândalo que você causou — disse, com a voz afiada.
Isa se levantou. Calma. Firme. Lenta.
— Ah, você quer falar de escândalo, Elena?
Isa pegou a bolsa. Tirou o caderno. Colocou na mesa. Abriu. Página marcada.
— Cicatriz de Inverno. Data: 03/02/2023. Rascunho entregue à minha amiga. Com análise e tudo.
Ela pegou o celular. Deu play no áudio.
A voz de Olívia ecoou pela sala.
“Isa, mulher, você vai me matar com esse final…”
— Advertência. De uma mulher que já viu muitas jovens promissoras desaparecerem sem deixar rastros.
Eu desliguei. As mãos tremiam. O coração, não. Porque dessa vez… eu tinha a verdade. E um microfone.
***
Duas horas depois, eu estava sentada em frente a uma jornalista independente. Câmera ligada. Cenário simples. Olhos atentos. Ela apertou REC.
— Estamos ao vivo com Isadora Ferraz, escritora, esposa de Heitor Montenegro, mas que está em processo de divórcio, e alvo de uma campanha brutal de difamação e perseguição.
Eu respirei fundo. E contei tudo. Do começo. Até ali.
— Fui acusada de plágio por um homem que sempre teve medo do meu brilho. E por uma mulher que nunca soube brilhar sozinha. Mas eu não estou mais calada.
Mostrei o caderno. Mostrei o áudio. Falei da perseguição. Dos abusos. Das ameaças.
— Eu não sou uma vítima pedindo socorro. Sou uma mulher cansada de sobreviver. E pronta pra destruir os muros que me cercaram por sete anos.
O vídeo viralizou em minutos. Comentários. Apoio. Ataques também. Mas eu estava em pé. De salto. De alma. De voz.
***
Cheguei no apartamento da Olívia já à noite. Sozinha. Ela estava em um evento. Liguei a luz da sala. Tirei os sapatos. Abri a janela pra respirar. E então vi. Um envelope. No tapete da entrada.
Nenhum som de passos. Nenhuma campainha. Só o papel. Branco. Com meu nome em tinta vermelha. Abri com dedos trêmulos.
“Bonito o seu teatrinho na internet. Mas você esqueceu uma coisa: Quem grita muito… chama a atenção dos lobos. E a noite está só começando, Isadora.”
Junto da carta, uma foto. Minha. Dormindo. No sofá da Olívia. Sozinha. Vulnerável. Tirada de perto. De dentro do apartamento. Alguém entrou. E eu não vi.
O papel caiu das minhas mãos. Me virei lentamente. A porta da varanda… estava entreaberta. O frio subiu pela espinha. Meu nome ecoou na minha cabeça. E dessa vez… não havia ninguém ali pra me proteger.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: 7 anos de casamento, um ultimato: “Filho ou divórcio!”