POV Lorenzo
O voo tinha me deixado exausto, mas não havia descanso para mim. Voltar à cidade depois de algumas semanas na Itália era mais do que um simples retorno: era um acerto de contas.
Eu sabia que Isadora estava prestes a dar à luz, mas o coração apertou quando recebi a mensagem confirmando: minha irmã já tinha uma filha nos braços. Minha sobrinha.
Cheguei de madrugada, quando as ruas já não carregavam o burburinho do dia. O táxi me deixou diante de meu apartamento, mas, em vez de subir, preferi caminhar sem rumo. O fuso horário me confundia, e a mente também. Passei por vielas e avenidas quase desertas até que um bar discreto, ainda aberto, chamou minha atenção.
As luzes fracas e a música baixa prometiam um pouco de silêncio, e era isso que eu precisava: silêncio para pensar.
Entrei, pedindo apenas um uísque, e me sentei num canto isolado. Enquanto o copo suava nas minhas mãos, pensei em Isa.
Foi então que a vi.
No fundo do bar, quase escondida pela penumbra, estava Elena. O coração bateu mais rápido e não de alegria. Era surpresa, choque, raiva contida. Ela não deveria estar ali, tão perto, tão real. Eu soubera da sua queda, da maneira como fora expulsa da mansão Montenegro, e parte de mim acreditou que nunca mais cruzaria com ela.
Mas lá estava. Vestia um casaco escuro, os cabelos presos de qualquer jeito, como alguém tentando desaparecer. Ainda assim, havia algo de magnético nela, aquela capacidade maldita de chamar atenção mesmo quando parecia invisível.
— Elena? — minha voz saiu baixa, mas ela ergueu os olhos na hora.
O sorriso que vi não era de alegria genuína, mas de alívio. Como se ela tivesse esperado alguém conhecido, qualquer rosto familiar, para se agarrar.
— Lorenzo… — murmurou, levantando-se de imediato. — Não sabia que tinha voltado.
Cruzei os braços, tentando erguer um muro entre nós. — Cheguei há algumas horas. Vim… por Isa.
O nome da minha irmã pairou no ar como um lembrete doloroso. Os olhos de Elena brilharam por um instante, mas não era ternura. Era interesse.
— Ouvi que ela teve a filha… — disse, como se a notícia tivesse importância para ela. — Deve estar feliz.
— Não é da sua conta — retruquei seco. — O que faz aqui, Elena? Se lembra que quase foi uma Montenegro, não lembra? Qualquer fotógrafo poderia acabar com o pouco de paz que você ainda tem.
Ela soltou um riso curto, amargo.
— Paz? Lorenzo, eu perdi tudo. O sobrenome, a posição, a casa, meu filho… até o respeito. O que me restou?
Não soube responder. Apenas a observei se aproximar, sentando-se diante de mim sem pedir permissão. Havia olheiras em seu rosto, sinais claros de noites mal dormidas, mas também um fogo nos olhos, aquele mesmo que sempre a fazia lutar, manipular, conquistar.
— Achei que tivesse sumido da cidade — falei, virando meu uísque de uma vez.
— Tentei — admitiu, mexendo distraída no anel que já não usava. — Mas você sabe como é… fantasmas não desaparecem. E os meus têm nome, dinheiro e poder.
As palavras pairaram no ar, perigosas.
Antes que pudesse reagir, ouvi o clique discreto de uma câmera. Olhei em volta, mas não vi ninguém diretamente apontando para nós. O garçom? O homem do balcão? Não importava. O estrago estava feito.
Elena percebeu também, e seus lábios se curvaram num sorriso torto.
— Parece que não adianta fugir do destino, não é?
Meu estômago revirou. Eu sabia o que aquilo significava: uma foto nossa, juntos, num bar escondido, seria suficiente para Isa desconfiar de mim de novo.
Levantei-me bruscamente, jogando algumas notas sobre a mesa.
— Isso nunca aconteceu, entendeu?
— Lorenzo… — ela chamou, quase suplicante, mas eu já me afastava.
Saí para o ar frio da madrugada com o coração acelerado. As ruas desertas não trouxeram consolo.
No fundo, eu sabia. Elena nunca desapareceria da minha vida. De alguma forma, sempre encontraria um jeito de se infiltrar de novo. E, pior, talvez parte de mim não soubesse resistir.

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