POV Dante Harrison
Ela dormiu. Finalmente. Deitada de lado, com os joelhos recolhidos, os ombros ainda tensos, mesmo em sono. O tipo de sono que não descansa, só desliga pra sobreviver.
Fiquei sentado no sofá por mais de uma hora, com uma faca de cozinha no colo e o celular na mão, checando câmeras de segurança da região, mensagens do advogado, grupos de denúncia. Nada relevante. Nenhum rastro novo. Nenhuma pista. Nenhuma garantia de que a gente realmente estava seguro.
A sensação de estar sendo vigiado não saiu nem por um segundo. Como se cada parede tivesse olhos. Como se cada sombra carregasse o nome dela preso entre os dentes.
Levantei pra beber água. Estava abrindo a geladeira quando ouvi o barulho. Um estalo, vindo de fora. Seco. Como se alguém tivesse pisado numa folha seca perto da varanda dos fundos.
A mão foi automática até a faca. Respirei fundo, encostei a porta da geladeira e fui até a janela da cozinha. A escuridão do mato não ajudava em nada, mas eu vi. Um vulto. Pequeno. Rápido. Se movendo entre as árvores.
O sangue gelou, mas o corpo reagiu antes da mente.
Deixei a faca sobre a mesa. Peguei a lanterna e saí pela porta dos fundos. Devagar. Sem fazer barulho. A terra estava fria sob os pés. O ar úmido. Cada passo me fazia pensar em Isa lá dentro, dormindo, frágil, confiando em mim.
Segui o vulto. Mas não era um. Eram dois. E estavam recuando. Não vinham me atacar. Só observar. Marcar território.
Até que um deles parou. E riu.
Baixo. Debochado.
O mesmo tipo de riso que vi na câmera de segurança. Rafael Montenegro.
A luz da lanterna pegou seu rosto por um segundo. Mas foi o suficiente.
Ele se virou e correu mata adentro.
Voltei correndo, o coração disparado. Mas quando entrei na casa, a luz do corredor estava apagada. E a porta entreaberta.
— Isa?
Silêncio.
— Isadora!
Corri pra sala. A faca ainda estava sobre a mesa. A porta do quarto dela, fechada. Bati.
— Isa, sou eu. Tá tudo bem aí?
Nada.
Arrombei.
Ela estava em pé, ofegante, os olhos arregalados.
— Dante… — sussurrou. — O sofá… achei que…
Olhei pro sofá. A mancha escura.
Fui até lá, toquei.
Vinho.
Ela me olhava como se eu tivesse voltado da morte.
— Desculpa — disse. — Eu derrubei a taça antes de sair. Fui atrás dele. Eu vi alguém. Não queria te acordar. Você tava… tão exausta.
Ela andou até mim, os olhos brilhando.
— Achei que era sangue. Achei que você…
Ela não terminou a frase.
Eu a abracei.
E foi como abraçar carne viva.
Frágil.
Tensa.
Queimada.
Mas ainda assim, firme.
Ela me segurou de volta. E ali, no meio do caos, da casa cercada por lobos invisíveis, no meio do mato, com vinho no sofá e faca na mesa, uma coisa ficou clara:
Eles não iam parar.
— Eu recebi um alerta no sistema de segurança que instalei ontem. Um acesso incomum na rede. Fiz uma varredura rápida e... descobriram onde a gente está.
Demorei alguns segundos pra processar. Talvez mais.
— Como assim descobriram?
— Alguém hackeou o IP da conexão. E estão tentando triangular nossa localização com base no sinal do seu celular. Mesmo desligado. Eu devia ter te avisado para tirar o chip.
Senti o mundo girar. Mas, dessa vez, ele não me derrubou. Me deixou furiosa.
— Eu não aguento mais fugir, Dante. Não aguento mais dormir com medo de acordar com uma faca na garganta. Se nem aqui é seguro... onde vai ser?
Ele segurou meus ombros.
— A gente pode sair agora. Eu te levo pra outro lugar. Sem chip, sem sinal. Mais afastado.
— Não.
A palavra saiu antes do pensamento.
— Eu não vou mais correr. Cansei. Cansei de ser caça. Eles querem saber onde eu tô? Então saibam. Porque agora eu vou usar essa localização para fazer barulho. Não só pra sobreviver... mas para vencer.
Dante me olhou com surpresa. E talvez com orgulho.
— O que você tem em mente?
— A coletiva. Aquela jornalista me disse que, se eu quisesse, ela podia me ajudar a organizar uma coletiva com nomes de peso. Gente grande. Imprensa mesmo. E agora, com tudo isso... com essa invasão... eu tenho mais do que um livro. Eu tenho uma guerra pública.
— Você tem certeza?
— Não. Mas é o que me resta.
Ele sorriu. Um sorriso pequeno, quebrado, mas cheio de fogo.
— Então vamos dar ao mundo um motivo para lembrar seu nome.
A janela atrás de mim tremia levemente com o vento. Mas o medo que costumava entrar com ele... bateu mais forte que antes...

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