POV Isadora Ferraz
O carro seguia em silêncio. Dante dirigia com as duas mãos no volante, o maxilar travado, a atenção presa em tudo, o trânsito, os carros atrás, o tempo nublado. Eu só ouvia a batida do meu coração, espaçada como se estivesse contando os passos até o cadafalso.
A coletiva seria num auditório discreto, alugado por uma jornalista independente que topou bancar o evento depois que meu vídeo viralizou. Era o momento. A chance. A plateia estava formada por imprensa alternativa, alguns nomes grandes da mídia, ativistas, influenciadores, leitores, curiosos. Gente querendo sangue ou justiça. Às vezes, os dois.
Meu celular estava desligado. Mas quando abri a bolsa para pegar o batom, encontrei o pendrive. Um pequeno objeto prateado. Nenhuma etiqueta. Nenhum bilhete.
— Dante, você viu isso aqui?
— O quê?
— Esse pendrive. Não é meu.
Ele olhou pelo retrovisor e depois pra mim. Pegou o objeto, virou nas mãos, conectou no notebook enquanto estávamos parados no sinal.
— Tem um vídeo.
— Abre.
A imagem tremia. Era uma filmagem feita dentro do meu escritório, na mansão que morava com Heitor. Eu, de pijama, cabelo bagunçado, sentada no chão. Chorando. Gritando. Batendo na própria perna com a mão. Uma crise. Uma das tantas que tive depois das ameaças. Depois das noites em claro. Depois das palavras de Heitor me esfarelando por dentro.
A edição era perfeita. Colocaram uma música melancólica no fundo. Cortes precisos. Em nenhum momento aparecia o motivo do surto. Nenhuma fala de Heitor. Nenhum contexto. Apenas eu, em desespero.
O vídeo terminava com uma frase:
“E essa é a mulher que quer se passar por heroína?”
A tela ficou preta.
Dante fechou o notebook devagar.
— Isso não pode sair daqui — disse ele, a voz grave. — Se essa gravação vazar, vão distorcer tudo. Vão te pintar como desequilibrada.
— Era essa a intenção — respondi. E senti. Na pele. No estômago. No útero. O peso da manipulação.
Chegamos. O carro estacionado no subsolo. Subimos por um elevador de serviço. A equipe já nos aguardava.
Luzes. Câmeras. Microfones. Pessoas cochichando, trocando olhares.
Alguém me abraçou e disse:
— Você é tão corajosa.
Sorri. Por reflexo.
O camarim estava abafado. As luzes do espelho pareciam mais quentes do que o normal, e o calor no peito já não era nervosismo. Era pânico disfarçado de coragem.
A equipe da coletiva ajeitava o som no palco. A jornalista já estava pronta. Dante esperava do lado de fora com o celular na mão e uma pasta de documentos que ele insistiu em trazer, mesmo que eu dissesse que só a minha palavra bastava.
— Dois minutos — alguém avisou.
Peguei o celular para checar a hora.
E vibrou.
Mensagem recebida.
Número privado.
Sem nome.
Sem rosto.
Só medo.
Um áudio. Quarenta e cinco segundos.
Respirei.
E apertei o play.
A voz veio seca. Cirúrgica. Cínica.
Heitor.
— Olá, meu amor.
O som da respiração dele me deu calafrios. Era como se estivesse dentro da sala. Como se já estivesse sentado ali, me assistindo pela fresta da alma.
— Você está linda hoje. Vestida de mártir. Pronta pra sangrar ao vivo. Que coragem... ou será burrice?
Pausa.
— Sabe quem também é corajosa? Sua amiguinha, a advogada. Olivia. Tão certinha, tão ética. Imagina se o escritório dela recebe uma denúncia anônima de que ela está favorecendo uma cliente com informações privilegiadas? Imagina a OAB recebendo cópias de e-mails trocados entre vocês, cuidadosamente editados?
Outra pausa.
— E o Dante… esse aí tem muito a perder. Contratos frágeis, investidores com alergia a escândalo. A editora dele ruindo sob a sombra de uma mulher desequilibrada? Com crises de histeria registradas em vídeo? Com histórico de surtos e descontrole emocional?
Apertei o celular com força. Os olhos arderam.
— Eu tenho esse vídeo, Isa. E você sabe qual. O da noite em que você quebrou. Que chorou, gritou, implorou pra não ser tocada. Que socou a parede. Que perdeu o controle.
— Não tem contexto que salve. Só imagem. E imagem… constrói e destrói reputações.
A voz dele baixou, quase um sussurro.
— Então, meu amor, aqui vai minha sugestão:
Sobe.
Sorri.
Agradece.
E cala a boca.
A gravação terminou.
O som da porta se abrindo me fez pular.
Era Dante.
— Isa, estão te chamando.
Assenti. Guardei o celular. Enxuguei o canto do olho como se fosse suor, não desespero.
— Pronta? — ele perguntou, sorrindo leve.
— Pronta — respondi.
Mas ele não sabia.
Eu estava indo pro palco… não pra vencer.
Mas pra salvar.
Ele.
— O que foi aquilo?
A pergunta saiu seca. Baixa. Mas carregada.
Ela se virou devagar, como se cada movimento doesse.
— Dante…
— Não. Sem rodeios. Sem desculpas. Sem... “eu precisava”. Você me fez acreditar que hoje era o dia. Você me fez carregar esse mundo com você. E então... você sobe ali pra dizer que vai se calar?
Ela piscou rápido, tentando segurar o choro. Falhou.
— Eu recebi uma gravação. Você mesmo viu. Uma montagem. De mim... em crise. Depois de uma ameaça. Eu estava sozinha, em casa. Tinha acabado de ser humilhada por ele. Eu estava…— a voz falhou —... destruída. E eles filmaram.
Meus punhos se fecharam. O sangue esquentou.
— Eles iriam divulgar isso se você falasse?
Ela assentiu, os olhos marejados.
— Não era só sobre mim, Dante. Eles ameaçaram usar aquilo para te destruir também. Para provar que você sabia e acobertava. Que a editora era cúmplice. Que você… era meu amante desequilibrado.
Ela se aproximou, devagar.
— Eu não podia deixar isso cair sobre você. Nem sobre a Olivia. Nem sobre ninguém mais.
— Então eu calei. Por vocês.
— E por você? — perguntei.
Ela congelou.
— Por você, Isa.
— Quando você vai começar a lutar por você?
O silêncio entre nós era mais alto que qualquer discurso perdido.
Ela estendeu a mão. Encostou na minha.
— Me perdoa.
— Não sei se consigo.
A frase saiu antes que eu quisesse. Antes que o amor engolisse o orgulho.
Ela recuou.
— Eu só queria proteger todo mundo.
— E quem protege você?
O som da porta batendo ecoou como tapa.
Eu fui embora.
E ela ficou ali.
No camarim frio.
Com as mãos vazias.
E o coração cheio de feridas que ninguém mais via.

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