POV Isadora
Acordei com o som suave de Sofia resmungando ao meu lado.
A luz entrava pelas frestas da cortina da casa de Olívia, tímida, quase respeitosa.
Por um instante, esqueci onde estava.
O colchão diferente, o cheiro de café vindo da cozinha, o silêncio sem Dante.
A lembrança veio como uma onda, fria e pesada.
Passei a mão devagar nas costas de Sofia, que logo se acalmou e abriu os olhinhos sonolentos.
O rostinho dela, ainda meio amassado de sono, me fez sorrir com ternura.
— Bom dia, meu amor — sussurrei, beijando sua testa. — A mamãe tá aqui, tá tudo bem.
Mas nem tudo estava bem.
E eu sabia disso.
A noite anterior tinha sido longa. Eu mal consegui dormir, entre mamadas e pensamentos. O olhar de Dante, confuso e cansado, ainda me assombrava.
A imagem do nosso quarto vazio, do silêncio que eu deixei pra trás, me corroía.
Levantei devagar, balancei Sofia nos braços e fui até o espelho.
O reflexo me mostrou uma mulher com olheiras fundas, cabelo preso de qualquer jeito e uma tristeza que não disfarçava mais.
— Você precisava respirar, Isa — murmurei pra mim mesma. — Não foi covardia. Foi sobrevivência.
Desci com Sofia nos braços.
O cheiro de café forte e pão quente me atingiu antes de ver Olívia. Ela estava na cozinha, de moletom e coque alto, cantarolando algo baixinho enquanto preparava o café.
Quando me viu, abriu um sorriso caloroso.
— Bom dia, mãe de Sofia — disse, em tom brincalhão. — Dormiu um pouco?
— Um pouco — respondi, me sentando à mesa. — Acho que só cochilei entre uma mamada e outra.
Olívia colocou uma caneca fumegante na minha frente.
— Café pra acordar a alma. — E depois, num tom mais suave: — Quer conversar?
Suspirei, mexendo o café com a colher, sem olhar pra ela.
— Ele ligou ontem à noite.
— Eu imaginei.
— Não atendi.
— Também imaginei. — Ela se sentou, apoiando o queixo nas mãos. — E agora?
Olhei pra Sofia, que dormia outra vez, tranquila no carrinho ao meu lado.
— Eu não sei, Liv. Sinceramente, não sei.—
Engoli o nó que insistia em subir pela garganta.
— Eu só queria um pouco de paz. Um jantar, uma conversa, um gesto… qualquer coisa.
Mas ele está sempre cansado, sempre ausente. E quando tenta compensar, acaba piorando.
Olívia me observava em silêncio, o olhar firme e empático.
— Você sente que ele não te ouve, né?
Assenti.
— É como se eu falasse com uma parede. Eu sei que ele tá sobrecarregado, que tá tentando dar conta de tudo. Mas e eu? — A voz falhou. — Eu também tô tentando. Também tô cansada.
Ela estendeu a mão e segurou a minha.
— Eu sei, Isa. E olha… você não tá errada em ter saído. Às vezes, o silêncio é o único jeito de alguém perceber que precisa ouvir.
Fiquei em silêncio por um tempo, olhando o vapor subir da caneca.
Fiquei olhando a tela acesa até que o brilho apagou.
— Eu só queria… — hesitei. — Queria que ele percebesse antes de me perder.
Olívia se levantou e serviu mais café pra nós duas.
— Isa, homens como Dante só entendem quando o chão some. Mas você não pode esperar ele cair pra te estender a mão. Você tem uma filha agora. E a prioridade é ela e você.
Assenti, tentando acreditar nisso.
Sofia soltou um gemido suave e eu a peguei no colo, encostando o rostinho dela no meu ombro.
— Ela é tudo pra mim, Liv. Às vezes penso que se não fosse por ela, eu teria desabado.
— E é por isso que você não pode voltar pra casa só por culpa.
As palavras dela me atravessaram.
— Você acha que eu não devia voltar?
Ela suspirou.
— Eu acho que você devia pensar em por que voltaria. Pra resolver? Pra perdoar? Ou pra fingir que tá tudo bem até a próxima decepção?
Fiquei em silêncio.
Olívia estava certa, e era isso que doía mais.
Depois de um tempo, ela tentou aliviar o clima.
— E me diz, como tá a pequena? — perguntou, ajeitando o babador de Sofia.
Sorri. — Dorme mal, come bem e me hipnotiza o tempo todo. Ontem, ela segurou meu dedo tão forte que eu chorei.
— Ela puxou a mãe. Forte e sensível. — Olivia riu. — E linda.
Fiquei olhando Sofia dormir.
O peito dela subia e descia devagar, o som de sua respiração era o único ritmo que ainda me mantinha em pé.

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