Pov Dante Harrison
Eu não dormi.
Passei a noite inteira andando pela casa como um fantasma, ouvindo o eco dos meus próprios passos entre as paredes frias da mansão.
O berço de Sofia estava vazio. O travesseiro de Isa, ainda com o cheiro dela, parecia zombar de mim.
Fiz isso. Fui eu quem a empurrou pra longe.
Quando o sol finalmente apareceu, a decisão já estava tomadaeu não ia trabalhar. Nem pensar.
Hoje, nada era mais importante do que ir até Olívia e trazer Isa e nossa filha de volta.
Dirigi em silêncio. Cada farol vermelho parecia me castigar com o tempo que perdi.
Pensei em todas as noites que cheguei tarde, nas mensagens não respondidas, nas vezes em que ela tentava me contar algo e eu dizia: “depois, Isa”.
Depois.
Sempre depois.
Quando estacionei em frente ao prédio de Olívia, fiquei parado por um momento, respirando fundo. O coração batia como se fosse pular do peito.
Toquei o interfone.
— Quem é? — a voz de Olívia soou, direta.
— Dante. — minha voz saiu rouca. — Eu vim buscar minha família.
Silêncio.
Depois, um estalo. O portão se abriu.
O apartamento cheirava a café fresco e a talco de bebê. Sofia estava no colo de Isa, adormecida.
Isa me olhou quando entrei, e foi como se o chão tivesse sumido debaixo dos meus pés.
Ela estava linda. Mesmo com os olhos cansados, com o cabelo preso de qualquer jeito, havia algo nela que me fazia querer ajoelhar e pedir perdão.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou, fria, sem levantar a voz.
— Vim buscar vocês.
Olívia, que observava da cozinha, cruzou os braços.
— Acho que ela não está pronta pra isso, Dante.
— Eu preciso conversar com ela. Só nós dois. — pedi.
Isa olhou pra amiga. Um segundo de hesitação.
Olívia suspirou, beijou Sofia na testa e saiu da sala, fechando a porta atrás de si.
Ficamos sozinhos.
O som suave da respiração da nossa filha era o único ruído.
— Isa... — comecei, mas ela me cortou.
— Não precisa, Dante. Eu já entendi tudo.
Ela ajeitou Sofia no berço portátil ao lado e ficou de pé, me encarando.
Havia lágrimas acumuladas, mas o tom era firme, ferido.
— Você acha que eu sou o quê? Uma decoração na sua vida? Alguém que você tira e coloca quando dá tempo entre uma reunião e outra?
— Não é isso...
— É exatamente isso! — ela explodiu. — Você me deixou sozinha, Dante. Sozinha, com uma recém-nascida, numa casa que nem parece minha! Você chega tarde, mal olha pra gente, e quando olha é pra dizer “eu tô cansado”. E o pior... o pior foi o jantar.
A lembrança me atravessou como uma lâmina.
Camila. A maldita reunião disfarçada de “compromisso profissional”.
— Eu errei — admiti, me aproximando devagar. — Foi uma idiotice minha. Eu achei que...
— Que seria uma boa ideia me levar pra jantar com uma mulher que te olhava como se eu fosse invisível? — ela riu sem humor. — Você não percebe, Dante, mas aquilo me matou por dentro.
— Eu queria mostrar pra ela que eu só tenho olhos para você. Que não existia mais espaço pra nada além de você.
Ela me olhou, incrédula.
A verdade é que ela tinha razão. Promessas eram fáceis. Mas eu estava disposto a provar cada palavra.
Peguei a mão dela, fria e hesitante, e a levei aos meus lábios.
— Me deixa tentar de novo. Só mais uma vez.
Ela ficou em silêncio. Então, lentamente, respondeu:
— Você já está tentando. Está aqui.
***
Horas depois, Sofia dormia entre nós, e o silêncio não era mais hostil.
Isa repousava encostada em mim, exausta, mas mais calma.
Afaguei seus cabelos, sentindo a respiração dela desacelerar.
Olívia apareceu na porta, com um sorriso discreto.
— Então... paz selada?
Isa abriu um olho.
— Trégua. Por enquanto.
Olívia riu. — Já é um começo.
Eu a olhei, agradecido.
Ela acenou, como quem diz “não estraga de novo”.
E eu não ia.
Não dessa vez.
Olhei pra Isa, pro pequeno corpo de Sofia entre nós, e fiz uma promessa silenciosa... dessa vez, eu seria o homem que elas mereciam.
Mesmo que o mundo inteiro tentasse me puxar de volta pro caos.
Porque se perder Isa uma vez já doeu, eu não sobreviveria a perder de novo.

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